quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O BONEQUEIRO VITALINO ( II )


O primeiro a chegar é Seu José que inicia a arrumação de sua barraca, onde vende bonecos “Vindos diretamente de São Paulo” mas, que na verdade são bonecos artesanais nordestinos. Logo após vem Dona Maria, que após cumprimenta-lo, o ajuda na arrumação e tão logo comece a arrumar suas folhas de pitanga, ouve-se o pregão de...




Gaspar              – (Off) OLHA O PIRULITO, ENROLADO NO PAPEL, ENFIADO NO PALITO, PAPAI EU CHORO, MAMÃE EU GRITO, ME DÁ UM TOSTÃO PREU COMPRAR PIRULITO!

O pregão se aproxima até Gaspar entrar em cena.

Gaspar              - BENÇA DONA MARIA?!

Dna. Maria         - DEUS TE ABENÇOE!

Gaspar              - ÔI, SEU JOSÉ, TUDO BEM?



Seu José            - VIVENDO... QUE NEGÓCIO É ESSE DE TOSTÃO, MENINO? ÓI, ISSO É DO TEMPO QUE SE AMARRAVA CACHORRO COM LINGÜIÇA... MUDA ESSA CANTIGA!

Gaspar              - MAS MINHA MÃE ME ENSINOU ASSIM, QUE MINHA VÓ ENSINOU A ELA...

Seu José            - MAS DO TEMPO DE SUA VÓ PRA CÁ, MUITA COISA MUDOU. MUITA COISA ACONTECEU NESSE MUNDÃO DE MEU DEUS...


Dna. Maria         - SÓ QUE O DINHEIRO MUDOU DE NOME... VOU TE CONTAR! OLHE, MEU BISAVÔ FOI DO TEMPO DA PATACA...

Seu José            - DEPOIS TEVE O REAL, MAIS DE UM REAL SE DIZIA SABE COMO? QUEM SABE? RÉIS GASPAR, SE DIZIA RÉIS...

Dna. Maria         - QUANDO SE QUERIA DIZER QUE UMA COISA NÃO VALIA NADA, MEU AVÔ FALAVA ASSIM: “NÃO VALE NEM DEZ RÉIS DE MEL COADO”!

Seu José            - É, DONA MARIA, MAS ANTES DE TODOS TEVE O CRUZADO...

Dna. Maria         - TEVE CONTO DE RÉIS... ERA DINHEIRO PRA TAPAR CASA!

Seu José            - TEVE CRUZEIRO, CRUZADO DE NOVO, CRUZEIRO NOVO, CRUZEIRO REAL E AGORA, TEM REAL DE NOVO! (Para o público) E O HOMEM TÁ LÁ DEFENDENDO O PLANO DELES!

Dna. Maria         - É, SEU JOSÉ, O HOMEM TÁ LÁ DEFENDENDO O PLANO DELES... ACONTECE QUE O DINHEIRO MUDA DE NOME, MAS DE DONO NÃO MUDA NUNCA!

Gaspar              - ÊTA, COMO É QUE EU CANTO ENTÃO?

Seu José            - QUANTO CUSTA O PURULITO?

Gaspar              - DEZ CENTAVOS!

Seu José            - ENTÃO TEMOS QUE MUDAR O FOLCLORE!

Dna. Maria                 - MUDA, SEU JOSÉ, MUDA... EU VI UM HOMEM DIZENDO NA TELEVISÃO QUE QUEM FAZ ESSE TAL DE FOLCLORE É A GENTE, O POVO!

Gaspar              - ÓI, EU SÓ QUERO SABER COMO É QUE EU CANTO...

Seu José            - ENTÃO CANTA ASSIM...

Os dois cantam.

Gaspar e Seu José      - OLHA O PIRULITO, ENROLADO NO PAPEL, ENFIADO NO PALITO, PAPAI EU CHORO, MAMÃE EU GRITO, ME DÁ UM REAL PREU COMPRAR PIRULITO!
Dna. Maria         - (Que já arrumou suas folhas de pitanga)  COMPRA PITANGA FREGUESINHA! PITANGA PRO PRESÉPIO DO MENINO JESUS... CHEIRO GOSTOSO DE FRUTA GOSTOSA... QUEM VAI QUERER?!

Durante o pregão de Dna. Maria entra Quico.

Quico                - ÔI, GENTE! Ô DONA MARIA, POR QUE É QUE SE ENFEITA A CASA NO NATAL COM FOLHA DE PITANGA?

Dna. Maria         - SEI LÁ... QUEM SABE? DEVE SER BOM... PITANGA É FOLHA SANTA!

Quico                - BOM PRA QUÊ?

Gaspar              - ORA, QUICO, BOM É BOM: NÃO TEM PORQUE NEM PRA QUÊ... E DEPOIS É TÃO CHEIROSA...

Quico                - FLORES, FLORES DE TIA COTA! COMPRA AS FLORES FREGUESA: ENFEITE SUA CASA PRO MENINO JESUS! FLORES! FLORES DE TIA COTA! AS MAIORES ROSAS DO MUNDO! OLHA O GIRASSOL! GIRASSOL FREGUESA!

Zazinho             - (Off) TORRÁ! TORRÁ! TORRÁ DE GUBER, TORRÁ!

Dna. Maria         - ESSE ZAZINHO MERCA ENGRAÇADO... NINGUÉM ENTENDE O QUE ELE DIZ!

Quico                - ÔXENTE DONA MARIA, OS MENINO TUDO ENTENDE... TODO MENINO SABE QUE ELE TÁ VENDENDO AMENDOIM...

Dna. Maria         -AMENDOIM?!

Quico                - SIM SENHORA, (Bem explicado) TORRADO E COBERTO!

Dna. Maria         - EU HEIM?! MENINO TEM CADA UMA

Zazinho             - (Entrando. Ninguém entende nada, pois Zazinho traz é algodão doce) DU... IN... TORRÁ! TORRÁ!
TORRÁ DI GUBER, TORRÁ!

Seu José            - QUAL A SUA BALTAZAR, VEM VENDENDO ALGODÃO DOCE E MERCA AMENDOIM TORRADO E COBERTO?!

Dna. Maria         - DEVE SER O COSTUME, NÃO É ZAZINHO?!

Zazinho             - QUE NADA... É SABEDORIA MERMO! EU MERCO AMENDOIM, JÁ TENHO MINHA FREGUESIA CERTA, NÉ? AÍ, OS MENINO VEM PRA COMPRAR OS AMENDOIM... NÃO TEM. COMO ELES GOSTA DE MIM, COMPRA O QUE EU VENDER...

Gaspar              - E POR QUE TU MUDOU MERCADORIA HOJE?

Zazinho             - MUDÁ, NÃO MUDEI NÃO... É QUE HOJE TEM MUITO MENINO NA RUA! MUITO ANTES DE EU CHEGAR AQUI, JÁ TINHA VENDIDO OS AMENDOIM TUDO. AÍ, O HOME DO ALGODÃO DOCE ME PEDIU PRA VENDER PRA ELE... É BONITO NÃO É? PARECE ÁRVORE DE CARTÃO QUE A GENTE VÊ NAS LOJA... TODA COLORIDA TODA FEITA DE NÚVI!

Seu José            - AQUILO NÃO É NUVEM, MENINO: AQUILO É NEVE!

Zazinho             - MAS PRA MIM É NÚVI... QUE OS ANJO TROUXERAM PRA TERRA PRA FICAR TUDO MACIO PRA ELE NASCER...

Entra Davi.

Davi                  - OLHA A LARANJA DO CABULA! UMA VERDE, OUTRA MADURA. QUEM NÃO PODE NÃO ENGULA... OLHA A LARANJA! LANJA, LIMA, LIMÃO! TAN... GIRINA!

Judite                - (Vem quase o mesmo tempo que Davi. Enquanto ele merca, ela arruma seu tabuleiro com fazendas,
                         Rendas, colchas de retalho etc) BELEZA! BELEZA DO
                         CEARÁ! TUDO FÊTCHO A MÃO... RIQUEZA,FREGUESA! BARATINHO... NÃO PAGA O LUXO DA CASA. COMPRE AQUI E PODE DIZER QUE COMPROU NAS BUTIQUE... NÃO TEM PROBLEMA. OLHA A TOALHA DE MESA PARA SUA CEIA DE NATAL... QUEM VAI QUERER?

Samuca             - (Chegando enquanto ela merca, quase escondido atrás dos seus capins coloridos. Vem com grande alegria e algazarra) CHEGUEI! CHEGUEI EU, MINHA GENTE! OLHA OS CAPIM PRA CAMA DO MENINO NASCER... CAPIM COLORIDO. CAPIM A CORES! DOURADO E PRATEADO... CAPIM DE OURO E PRATA... COMPRA BRANCA, COMPRA PRETA, COMPRA MULATA! OLHA O CAPIM!


Seu José            - BONECOS! BONECAS E BRINQUEDOS! DIRETAMENTE DA FABRICA DE SÃO PAULO PRAS CRIANÇAS DA BAHIA. 3 POR 10! É BARATO FREGUESA... É BARATO. O PATRÃO FICOU MALUCO, MANDOU VENDER TUDO SEM LUCRO... É PRESENTE, PRESENTE DE NATAL... É PRA ACABAR... É AQUI MESMO! DÊ ALEGRIA A SEU FILHO NA NOITE DE NATAL... A SUA BONECA MERECE UMA BONECA! VAMOS MINHA GENTE! É AQUI MESMO...

Cresce a animação. Os pregoes se misturam. Entra o cantador, com suas ventoinhas, tamborete e violão.

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