quarta-feira, 14 de setembro de 2011

KIBE SUSTO

Planeta Elza Dollar

- Para o zapping e se liga no kibe!

Vem Vem
Vamos fazer
O kibe susto da hora

Carne fresca
Mole ou dura
tanto faz

Azeite e luva na mão
Pra quem tem medo
De contaminação

É agora ou nunca
Coragem
Na pegada
Com camisinha ou não
Tanto faz

Se já é
Pegou
Não larga
A massa vai crescer
Continua a pegação!



Amassa a massa
Kibe quente não queima mão
Pegada de mão boba
Patolada
Por que não?

Quibe susto escondidinho no aperto de busão
Dentro d’água e na piscina
No escurinho do vagão

Só pra conferir
Se é tesão
Ou truque do meião

Tesão segura
Não faz filho
Pura satisfação

Kibe saúde
Na praia
Sabor de verão

Malhação
Deixa braço forte
Não faz calo na mão

Sem contra-indicação
Em grupo
Na multidão

Não tem porque não
É só pegar
Começou a diversão!

- Olha o kibe ahê gente!

Kibe de baiano
Bolinho de estudante
Receita da vovó

Se der caldo
Melação
Melhor lavar a mão

- Lavou a mão com Q-boa foi?!  

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

AQUARELA




Ricardo Ottoni
Um grande poeta brasileiro da contemporaneidade – de estatura semelhante aos gigantes da Academia da Língua portuguesa como Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado ou Fernando Pessoa - uma vez questionou, retóricamente, através de um retumbante silogismo musicado, quem haveria de negar a superioridade da Prosa sobre a Poesia, já que esta última estaria para o Amor assim como aquela para a Amizade: “E sei que a Poesia está para Prosa assim como o Amor está para a Amizade. E quem há de negar que esta [a Prosa] lhe é superior?!”

Sempre quis desafiar publicamente este postulado e ousar negar a “superioridade” seja da Prosa em relação à Poesia ou da Poesia em relação à Prosa. Não consigo colocar a questão desde uma perspectiva “desenvolvimentista”, como parece estar posta no silogismo ao qual me refiro. Mas, contraditoriamente, é o próprio Poeta quem, mais adiante, ao longo do seu poderoso texto, esclarecerá a unidade indefectível entre Poesia-Prosa: “Poesia concreta: Prosa caótica. Ótica futura.” Ocorre que a indissociação entre Poesia e Prosa não se torna visível quando o silogismo é destacado do contexto no qual é enunciado.

Como quis dizer o Poeta neste trecho, no meu entendimento, a partir de uma perspectiva rizomática, não é possível haver lugares “superiores” ou “inferiores” na abordagem de conceitos distintos como Poesia e Prosa, embora estes estejam abrigados sob a proteção de uma consigna maior: a Literatura; nem será possível também qualificar o Amor ou a Amizade, sentimentos que mobilizam ambos intensa emoção - e que são por ela [emoção] reunidos e categorizados numa hierarquia conceitual maior, a dos afetos, apesar de suas “diferenças”.


O que distingue o Sentimento da Emoção? Sua natureza biológica ou cultural, segundo Wallon[1] e Vigotski.[2]
A natureza das emoções é biológica e indisfarçável através de alterações visíveis do corpo do organismo afetado por elas – descargas de adrenalina na corrente sanguínea provocando tremores nas mãos, rubor facial, ritmo diferenciado da respiração e fala etc.
Já a natureza dos sentimentos é reconhecidamente cultural e portanto muitas vezes disfarçável, porque podem subjugar a emoção, dobrá-la, sufocá-la. Mas isso nem sempre é regra.
O sentimento pode incrementar a intensidade do afeto alimentando a emoção até sua expressão máxima e imprevisível, de modo consciente ou não.
Tanto a Prosa como a Poesia são veículos para a comunicação de sentimentos. A Prosa de modo mais organizado e disciplinado, mais apolíneo e “comportado”  à moda do Modernismo; a Poesia de maneira imprevisível, dionisíaca, “desorganizada” e irreverente ao sabor da Pós-Modernidade.
Mas as fronteiras entre Poesia e Prosa, se é que podem existir, muitas vezes estão “borradas” como em uma aquarela irisada. Onde começa a Prosa e termina a Poesia? Onde a Amizade pode dar lugar ao Amor e vice versa? O que é teatral ou dramático nelas? Não se trata de julgar qual é “superior” a qual, mas de afirmar as diferenças de suas zonas de especificidades que escapam a região hachurada onde se encontram seus contornos.
Então é isso.
Para mim, e para o Poeta, creio, Poesia e Prosa, Amor e Amizade, se confundem e se fundem muitas vezes dando lugar a uma unidade indivisível como o quanta“ótica futura” nas sábias palavras do poeta.
Não interessa à perspectiva  não hieraquizada pós-modernista saber qual é “superior” a qual – porque isso cheira aquele “etnocentrismo” repugnante e inaceitável por parte do “desenvolvimentismo” modernista excludente e discriminador.
Talvez seja mais conveniente calar na boca respostas em forma de novos desafios a silogismos de(s)contextualizados e repetidos de modo papagaiado por multidões. Seja por força da autoridade ou de reverência respeitosa à sabedoria anciã. Ou pelo desejo de “invaginação” do conhecimento. [3]

O Passado e o Futuro se fundem e confundem no Presente ou na contemporaneidade, assim como a Poesia e a Prosa, o Amor e a Amizade, o Dramático e o Teatral. Lembremos que o silêncio pode ser expressão de gozo intenso; não apenas a gritaria e o estardalhaço eufóricos.
Hoje consigo além de enxergar, VER. E sinto uma espécie de alegria (joy) tranquila, sem euforia, ao vislumbrar a aquarela irisada que se delineia após as tempestades provocadas pelas palavras! Consegue vê-la?  Sim, ali mesmo onde o arco irisado é traçado pela chuva verbal do Poeta... Oxumaré Loquerê Oxumaré!



Vera Cruz, 18 de janeiro de 2009. 03:27 da manhã de um domingo insone à beira mar.




[1] WALLON, Henri (1971) O lugar das emoções entre os comportamentos afetivos In: As origens do caráter na criança – os prelúdios do sentimento de personalidade. São Paulo: Difusão Européia do Livro, cap. VII, p.149-153, p.151.
[2] BLANK, Guillermo (2003) VIGOTSKI, Liev Semionovich. A educação do comportamento emocional. In: Psicologia pedagógica Edição comentada. Porto Alegre: Artmed, p.113-124, Cap. 6, p. 123, nota nº 1.
[3] Conceito postulado por Michel Mafessoli em pronunciamento público no salão da Reitoria da UFBa em setembro de 2008 para caracterizar o paradigma da pós-modernidade em contraposição ao modelo “falocêntrico” do Modernismo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

RESTRIÇÃO DO ACESSO AO ENSINO FUNDAMENTAL


Restrição do direito de acesso AO PRIMEIRO ANO DO ENSINO fundamental

Ricardo Japiassu
 
Todos os enredados pela escolarização, neste pais, foram surpreendidos pela mais recente “recomendação” do Conselho Nacional de Educação: a decisão de estabelecer como condição sine qua non para a “matrícula” no primeiro ano do ensino fundamental o critério etário de o/a escolar possuir, completos, 6 (SEIS) anos de idade?!

O que causa espanto na proposição do Conselho é a imposição despudorada de um modo de comprender o aprendizadoensinado absolutamente atrelado à crenças hegemonizadas que pressupõem a “normalização” do desempenho em tarefas escolares específicas, avaliando as singularidades das performances do sujeito com base na correlação idade-série. Uma avaliação notadamente enviesada; porque amparada em expectativas predeterminadas de aquisição de habilidades e capacidades cognitivas, afetivas, motoras etc.

Contrariando a lógica não aristotélica (não sequencial), típica das práticas relacionais densamente irrigadas por múltiplos recursos para o conhecer na contemporaneidade, o Conselho aferra-se àquela ficção que  “naturaliza” o sistema seriado como única possibilidade de apropriação dos conhecimentos e saberes socialmente valorizados. Ignora as possibilidades de crescimento intelectual e afetivo do sujeito por imersão em grupos multietários – como ocorre cotidianamente na vida em família e nos grupos sociais; nega a possibilidade de organização não seriada do aprendizadoensinado observada em relevantes projetos pedagógicos alternativos silenciando a experimentação e convivência tolerante com a diversidade de práticas educativas.

Conselheiros, chega de tantos remendos na regulamentação do sistema de ensino! Por favor, parem com isso: a cada gestão uma “papelada” com prescrições, regulamentações, nomenclaturas, alteração de regras?

 Se desejam submeter-nos aos parâmetros transnacionalizados de “verificação” do aproveitamento escolar, atenham-se à elaboração e aplicação dos “exames” obrigatórios para averiguar os “resultados” esperados e deixem-nos atuar conforme nossas crenças, doxas e autonomia pedagógicas inegociáveis.

Seria mais útil somarmos esforços na busca por remuneração digna e oferecimento de melhores condições de trabalho e aperfeiçoamento da formação dos educadores e cuidadores da cultura infantil.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

ESCOMBROS DO MUNDO LIVRE ( VI )


Quinta movimentação de personagens
CORREDOR

Mila
Guga, cê tá branco?! Tudo bem?
Guga
(Limpando a boca, trêmulo) Tudo.
Mila
Cê tá tremendo!
Guga
(Sem convicção, cuspindo a seguir) É que eu vomitei.
Mila
Tem uma coisa grudada aqui no seu cabelo… Eca! Catarro, Guga!

Guga retira-se dando a entender que vai se limpar.


Bombinha
Esse nerd parece que não bate bem do juizo.
Mila
É estudo demais!
Sonia
Todo CDF é assim mesmo, estranho.
Bombinha
Ô meu Deus! Que desperdício…
Sonia
Num sei pra quê tanto estudo.
Mila
Hoje em dia, minha filha, até pra ser gari tão pedindo o fundamental completo!
Sonia
(Contestando Mila) Pra ser modelo não precisa nada disso!
Mila
O que?! Modelo tem que falar, pelo menos, inglês, francês e japonês…
Sonia
E pra falar língua estrangeira precisa do fundamental?
Bombinha
(Referindo-se uma vez mais à Guga) Hum… Cala-te boca… Esse “nerd”... o “jeitinho” dele não me engana!
Sonia
Agora, que ele é um gato, ninguém  pode negar?!
Bombinha
Uma “gata”, né?!
Mila
Que é isso?! Guga é virgem.


Bombinha
Só se for donzelo de “xana”, porque de pinto… Hum?!
Mila
Que absurdo!
Sonia
(Jogando a agenda no chão, teatralmente afetada) Não acredito?!
Bombinha
Catarro no cabelo?! Hum... Raí, ái... Aquilo, que eu saiba, tem outro nome…
Mila
Se era gala, então devia ser dele próprio.

Sonia recolhe a agenda que jogou no chão.

Bombinha
Vai esporrar longe assim na casa do… Olhe, criatura, me poupe?!

Entra Andressa.

Andressa
(Batendo palmas e se sacodindo toda, afetadamente) O que é qu’essas rachadas tão fazendo no meu ponto?!
Sonia
(Explicitamente falsa) Andressa, querida, cê tá boa?
Andressa
(Para Sonia, cumprimentando-a seguidamente com beijinhos na face) É a que já nasceu mulher! É a que não precisou ser operada!

Mila, Bombinha e Sônia sorriem.


Mila
(Respondendo a pergunta de Andressa, torcendo a boca) Aula vaga, pra variar...
Andressa
Ah, bom! Porque cês tão sabendo de quem é o corredor. Preciso lembrar?
Bombinha
Precisa, não viado. Tu fica com o corredor que a gente fica com os “hôme” que passa nele!
Andressa
Abusada?! (Excessivamente afetado, sacando uma navalha) Olha aqui! Tá vendo? Não vêm não, heim “mulé”, não vem q’eu lhe faço uma outra buceta na sua cara! (Risos) Cê não me provoque, rachada... (Com ironia) porque meu tom, queridinha, não é rosa bebê, é rosa choque! (Guarda a navalha, após olhar desconfiado para os lados)

Risos.

Mila
E vocês, André, “tão” sem aula também?
Andressa
(Torcendo a boca) Não. É que a Vera Guarda-pó tá na sala. (Colocando uma das mãos na testa) Gente, o que é aquilo?! A criatura só sabe rabiscar todo o quadro e mandar a galera copiar... Ela rabisca, rabisca e os besta copia, copia… Me poupe?! Cópia por cópia, minha filha, eu tiro xerox depois - dos cdf e dos “nerds” da turma, é claro! Imagina se eu, bonita, vou gastar minha boa munheca em sala de aula com a Vera Guarda-pó?! Nem morta, queridinha!

Sonia
Bombinha tá dizendo que o Guga é gay!
Andressa
Aquilo alí é um projeto de bicha que não deu certo!
Mila
(Para Bombinha) Tá vendo?!
Bombinha
(Para Andressa, contestando-lhe a afirmação) Biba, cê quer dizer que Guga não é viado?!
Andressa
Aquilo é um egum-fêmea descompreendido: se ele é gay, nem ele mesmo tá sabendo!
Mila
O Guga é muito ingênuo, gente.
Sonia
Ele me aguarde: eu adoro perverter um anjinho!
Andressa
Aliás, só a senhora, não! (Dirigindo-se à Telma) Né mesmo, “dona” Telma Bombinha? A papa-anjo do fundamental!
Bombinha
Viado, eu prefiro os “diabinho”! Você sabe. Esse negócio de anjinho né comigo não!
Andressa
Só que os exu-mirim quando chegam no seu “inferno”, lindinha, (Batendo nas nádegas) já fizeram escola no “purgatório” da de cá! (Gargalha teatralmente com uma das mãos na cintura, sacolejando o ombro como se fosse uma pomba-gira) Rá, rái!

Risos.


Sonia
Arrasou!
Andressa
Me empresta o batom?
Mila
(Para Andressa) Pra que cê quer batom, André?!
Andressa
É que o veneno escorreu, amiga… Borrou a maquiagem!

Mila leva a mão à boca escondendo o riso. Bombinha fica séria.

Sonia
(Entregando-lhe o batom) Tá aqui.
Bombinha
(Para Sônia, enquanto Adressa passa o batom nos lábios) Não sei como você tem coragem de dar seu batom pra passar na “boca-de-chupeta” dessa bicha?!
Sonia
Pois se foi ela quem me deu de presente o batom?!
Andressa
Tá “veno” rachada?! Perdeu a oportunidade de ficar de boca fechada. (Devolvendo o batom a Sônia) Não precisei nem te dar resposta!

Bombinha, visivelmente contrariada, vira o rosto de lado, evitando olhar para Andressa. Sonia sorri. Mila disfarça o riso.

Sonia
(Para Bombinha, guardando o batom) Em boca fechada, amiga, não entra mosquito.


Andressa
(Para Sônia e Mila) Vamo ver o ensaio da dança?!
Sonia
‘Bora! (Para Mila e Bombinha) Vamo Mila?! (Mila olha para Bombinha) Vamo Bomba?!
Andressa
Os moleques do grupo de street dance que tá ensaiando na escola são tudo de bom! Só tem bofe-escândalo!
Mila
(Referindo-se a ela mesma e à Bombinha) Depois a gente vai, n’é Bomba?
Sonia
(Para Andressa, mexendo no cabelo) Como é que eu estou?
Andressa
(Arrumando rápida e profissionalmente o cabelo de Sonia) Deixa eu ver, deixa eu ver: Pronto: agora sim. (Repentinamente, levantando barrocamente um dos braços com o dedo indicador em riste) Ensaio de entrada arrasante no ensaio!

Andressa imita habilmente, com a voz, uma música de rap/funck com batidas eletrônicas. Sonia faz caras e bocas, defilando para Andressa. Bombinha torce a boca, enciumada. Mila sorri.

Andressa
(Batendo palmas ritmadamente) Abalou Itaquera! [ou Paripe enfim qualquer zona da periferia do local onde ocorre a encenação] (De saída com Sonia) Aprendeu rápido, heim, “fia”? (Falando para Sonia por entre os dentes, ao passar por ela, num sorriso forçado) Amiga, cê precisa passar lá no salão urgente pra retocar o interlace. Abafe!


Sonia e Andressa se retiram desfilando. Sônia atrás. Andressa na frente, “gerando” o som do desfile. Bombinha faz careta após Andressa passar por ela. Ouvem-se assobios e gritos eufóricos em off no corredor.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESCOMBROS DO MUNDO LIVRE ( V )


Quarta movimentação de persnonagens
MURO DOS FUNDOS

        Mila em pé, Zabelão e Pão-de-ló sentados.

Zabelão
(Levantando-se decidida, com uma mão na cabeça, em uma espécie de forjado e excessivo desespero) Puta que pariu! Eu vou lá: tenho que ver minha princesa!

Mila
(Contendo-a, dramática, alimentando o jogo teatral de Zabelão) Não, Isabela, fica aqui. (Muito próxima a ela, roçando os seios nos seios de Zabelão) É melhor. (Zabelão olha com desejo para os seios de Mila) Ela já tá bem.
Pão-de-ló
Quem deu socorro?
Mila
Japinha, e eu.
Zabelão
Buceta! Já disse que não tem nada a ver ficar sem comer… Ela não me ouve. (Para Pão-de-ló) Parece uma psicose, “carái”...
Mila
(Subitamente) Eu vou voltar pra aula. (Olhando para Zabelão) Eu digo pra ela que cê tá aqui fora. 
Zabelão
Valeu, Mila. ‘Brigado por acudir minha “mulé”.

Mila mostra os dentes em um sorriso amarelo e silencioso, retirando-se em seguida.

Pão-de-ló
Quer fumar, Zabelão? Pra acalmar as idéias…
Zabelão
Cê tem?
Pão-de-ló
Uma “ponta”, mas é “da boa”…
Zabelão
Tá esperando o quê, mano? “Fogo na Babilônia”!


Pão-de-ló
(Sacando uma ponta de cigarro de maconha do bolso) Vê se rola algum “sujeira”…

Zabelão confere se alguém se aproxima.

Zabelão
Tá limpo!

Pão-de-ló lambe a “ponta”, acendendo-a com um isqueiro. Puxa a fumaça assobiando.

Zabelão
É, Lozinho… eu tô sabendo, viu?!
Pão-de-ló
(Passando-lhe o baseado, em tom anasalado) Sabendo o quê?
Zabelão
(Assobia também ao puxar a fumaça, estalando estridente e consecutivamente a língua no céu-da-boca) Do seu “trabalho”…
Pão-de-ló
De geografia?
Zabelão
(Irônica) É… de “geografia” do Arouche [ou zona de prostituição masculina do local da encenação]!
Pão-de-ló
(Recebendo o cigarro de Zabelão, sério) O quê cê tá sabendo?
Zabelão
Tudo. Tá ligado?!
Pão-de-ló
(Após puxar a fumaça) Qu’eu vou lá?

Zabelão
Tem um camarada meu que “saiu” com você.
Pão-de-ló
(Passando-lhe o cigarro) Nas baladas? (Aperta o nariz para manter a fumaça dentro dos pulmões)
Zabelão
(Puxando a fumaça) Uma “biba” conhecida minha que fez “programa” com você.

Pão-de-ló tem um acesso de tosse.

Zabelão
Relaxa, cara. (Passando-lhe a “ponta”) Não vou te entregar pra galera, não.
Pão-de-ló
É só bico, mesmo, Zabelão. Na “moral”: (Puxando fumaça) só vou com os caras quando tô quebrado… Cê sabe, o trampo lá na padaria de pai, não rende: é trabalho escravo, rei!
Zabelão
(Com sarcasmo) Pobre menino rico…
Pão-de-ló
É sério, maluco. (Passando-lhe o baseado) O coroa é mão de vaca. Tá ligado?
Zabelão
(Puxando fumaça) Quer dizer então que o “véi” galego da cabeça-branca é bôca-de-sífu…
Pão-de-ló
(Anasaladamente) Não é o quê, meu camarada?!



Zabelão
(Devolvendo-lhe a ponta do cigarro de maconha quase no fim) Sustentar vício né fácil não, mano: “Farinha” tá caro!
Pão-de-ló
Só… (Referindo-se à “ponta”) Vou “matar”! (Fumando o restante do cigarro) Morreu…
Zabelão
Quem diria… Lozinho, michê?!
Pão-de-ló
Porra, Zabelão, qual é?! Vai queimar meu filme?
Zabelão
Se a polícia te pega, cê tá fodido sacana… De menor “fazendo pista”?!
Pão-de-ló
Os “rôubo-cops” de lá já me conhecem. Tenho RG “de maior”.
Zabelão
Carteira de identidade “esquentada”?! “Úia”: Falsidade ideológica do cara!
Pão-de-ló
Meu lance é grana, Zabelão: din-din. Sacou?!
Zabelão
Só assim eu descobria qual era a tal “mina” lá do centro da cidade que você vivia falando tanto!
Pão-de-ló
Quem foi o viado que me entregou?
Zabelão
Tintinho.
Pão-de-ló
Tintinho?!                                                                                



Zabelão
Amiltinho... Ele tem um cross fox preto [ou outra marca atual de carro sofisticado]
Pão-de-ló
Tô sabendo.
Zabelão
O cara né fraco, não: advogado, sacana!
Pão-de-ló
De onde cê conhece ele?
Zabelão
Da night… (Advertindo-o) Se cuida, “carái”: tá cheio de aids por aí!
Pão-de-ló
Só transo com camisinha.
Zabelão
E se a camisinha estourar?
Pão-de-ló
Aids não tem cura, mas tem tratamento... Ta sabendo não?
Zabelão                                                                                                  
A biba disse que foi ela que te comeu, Lozinho!
Pão-de-ló
(Irado) Porra nenhuma! Vou encher aquele viado de porrada. Deixa eu encontrar com ele!
Zabelão
(Provocando Pão-de-ló) Não discrimino não, Lozinho: o cú é seu, cê dá ele pra quem você quiser!
Pão-de-ló
Que onda errada é essa, “véi”? Resolveu curtir com a minha cara, é?
Zabelão
(Sacaneando-o) Agora cê tá aqui, ó, (Mostrando a palma da mão) na minha mão.

Pão-de-ló
Olha a viagem do cara,?! Aí… Cai na real “maluco”.