NOTA INTRODUTÓRIA
O texto apresentado a seguir é uma versão minha de um artigo atribuído a Liev Semienovich Vigotskii (1896-1934) traduzido para o italiano por Claudia Lasorsa. A atualidade do documento no qual me baseio e sua importância acadêmica no âmbito das Artes, da Educação e Psicologia dispensa qualquer justificativa. Isso em razão da disseminação das idéias de Vigotskii no continente europeu e nas Américas ter alcançado grande repercussão. Mas em razão dos filtros das várias traduções para o Português muito do seu pensamento original acabou se tornando obscuro e hermético para os que iniciam estudos nas áreas acima mencionadas.
Pode-se afirmar, sem receio, que o documento atribuído a Vigotskii converteu-se em referência bibliográfica obrigatória em TCCs, dissertações e teses em processo de qualificação e defesa na graduação e em todos os programas de pós-graduação lato e stricto sensu em Artes, Educação e Psicologia que buscam compreender mais - e melhor - as complexas relações e interrelações entre as Artes Cênicas/Teatro e a Educação à luz da Psicologia Histórico-Cultural na contemporaneidade.
Para muitos, o que caracteriza uma versão ou tradução livre é a falta de rigor quanto ao uso de palavras efetivamente empregadas no texto original por um autor. Mas, ao traduzir-se um enunciado discursivo, de uma língua para outra, não resultaria muito tímido - e simultaneamente arrogante - qualquer empreendimento que pretendesse declarar-se supostamente “fiel” aos vocábulos utilizados originalmente pelo autor ou julgar haver um “único” e supostamtente “correto” significado original para suas palavras?
Existem estruturas semânticas enunciativas que alteram drasticamente a argumentação desenvolvida por um autor quando se opta por uma tradução delas, digamos, “palavra por palavra” – observe neste sentido o resultado que se pode conseguir ao serem acionados os agentes artificiais tradutores de texto amplamente disponibilizados na Internet. Imagine-se então o efeito em cascata das traduções de traduções sobre o sentido dos enunciados...
A tradução livre, ou melhor a versão, apresentada aqui, não renuncia à atividade (re)criadora de sentido por parte do tradutor/intérprete. O que faço a seguir é dialogar com as idéias defendidas por Vigotskii no texto, conforme as compreendi, apresentando-as de modo co-autorizado.
Aos familiarizados com os conceitos pedagógicos não será difícil entender a versão como “transposição didática” de conteúdos complexos e densos, como procedimento recomendado para o ensino expositivo seja no âmbito da educação regular, continuada ou à distância - que é reivindicado por um tipo de pedagogia em geral consignada como crítico-social dos conteúdos.
Qualquer eventual incompreensão durante a exposição do pensamento genuíno do autor deve ser creditada exclusivamente ao docente responsável pela versão/transposição didática. Recomendo a leitura do texto em italiano e russo a todos os que não enfrentam qualquer dificuldade para a decodificação da escrita nestes idiomas.
As traduções inglesas de outros textos de Vigotskii a que tive acesso não me pareceram tão próximas do seu pensamento quanto as traduções espanholas e italianas – línguas derivadas do tronco liguístico latino.
A presente versão destina-se atender à demanda de estudantes que falam e pensam em português. Dizem que só é possível filosofar em Alemão, e isso não se fala à toa. Para mim, confesso humildemente, o único filósofo d’além mar que eu acredito compreender um pouco é Baruch (Bento) de Espinosa - e creio que o mesmo pode ser extensivo a outros membros da comunidade de letrados em língua portuguesa. Talvez a compreensão mais fácil das idéias de Espinosa se deva ao fato de ele escrever em alemão e holandês mas pensar em português, em razão de suas orígens lusitanas. Curioso Vigotskii mencionar Espinosa e suas idéias como rizoma para exposição dos fundamentos de sua teoria filosófica da atividade do psiquismo humano, além de Hegel e Marx.
Seja pelo fato de o idioma russo ter sido criado de modo planificado e muito recentemente em relação às línguas clássicas faladas na Europa ou ainda por que na Russia comunicava-se e escrevia-se durante muito tempo em francês e alemão até que se desse a criação do alfabeto russo fundindo contribuições do grego e outras línguas muito antigas do oriente, na tentativa de unificação dos diferentes povos asiáticos e europeus concentrados naquela região intercontinental do planeta, a impressão que se tem é a de que Vigotskii parece pensar em português...
Por último sinto-me no dever de advertir os interessados no assunto que um leitura que considero complementar obrigatória para o entendimento genuíno do documento objeto da versão apresentada aqui é Método da Economia Política de Karl Marx. Sem uma aproximação através das lentes da filosofia do materialismo histórico-dialético não se sustenta e se desfaz, como um castelo de areia ao ser atingido pela mais tênue marola, toda a belíssima construção das idéias de Vigotskii.
Uma outra leitura que julgo complementar optativa é a de livros sobre a história das Artes e do Teatro que focalizam o período pre e pós-revoucionário na Russia. Vigotskii escreve colocando-se em meio as discussões inflamadas que ocorriam neste período riquíssimo da criatividade artística naquela parte do planeta. Eram aqueles anos tomados pelo que se convencionou denominar de uma espécie de modismo: a “teatromania”.
Aliás, é importante revelar também que, antes de Vigotskii se dedicar à colaboração da psicologia marxista, seu interesse concentrava-se na problemática das Artes como revela sua monografia de graduação Psicologia da Arte [que prefiro referir por Psicologia das Artes] escrita apenas aos 17 anos, bem como sua atividade na animação de círculos de discussão sobre o assunto em Gomel, quando atuava ainda como professor simpatizante das idéias de Dewey e da educação ativa - mais conhecida no Brasil por escolanovismo - e era o coordenador da Seção de Teatro do Departamento de Educação Popular assinando a coluna dedicada ao assunto no jornal local Polesskaja Pravda.
Só me resta lhes desejar boas leituras!
quinta-feira, 7 de abril de 2011
PALAVRAS DO CRUCIFICADO ( 7 )
O Coro de Atores atua o fragmento As Duas Moedas de BAAL, o associal de Bertold Brecht.
AS DUAS MOEDAS
Versão de fragmento da peça didática BAAL, O ASSOCIAL de Bertold Brecht (lerstück) a partir da tradução de Ingrid Dormien Koudela
ATOR 3
(Faz soar o cabuletê/caxixi) Diante dos cartazes de um espetáculo obscuro, Baal encontra, acompanhado de Lupo, um garotinho que está soluçando à entrada do teatro.
ATOR 2 - Baal
Por que está chorando?
ATOR 1 - Garotinho
Eu tinha duas moedas para ir ao teatro aí veio um menino e me arrancou uma delas! (Chora inconsolável)
BAAL
(Para o ator 3 que interpreta Lupo) Isto é roubo! Como o roubo não aconteceu por voracidade não é roubo motivado pela fome. E como parece ter ocorrido por causa de um bilhete de espetáculo, é roubo visual! Ainda assim, roubo. (Para o Garotinho) Você não gritou por socorro?
GAROTINHO
Gritei.
BAAL
(Para Lupo) O grito por socorro – expressão do sentimento de solidariedade humana... Mais conhecido ou assim chamado de grito de morte. (Acariciando o Garotinho) Ninguém ouviu você?
GAROTINHO
Não.
BAAL
(Para Lupo) Então, tire-lhe também a outra moeda!
ATOR 3 – Lupo
Boa idéia!
Lupo tira a moeda do garotinho à força. O garotinho chora inconsolável.
BAAL
(Para Lupo e platéia) O desenlace comum de todos os apelos dos fracos.
Riem e gargalham exageradamente.
ATORES 1, 2 e 3
O Homem não ajuda o Homem!
O coro performa Dinheiro.
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Não vou garantir, está em suas mãos
É um jogo, tem que jogar
Um dia no estilo, no outro Zé Ninguém
Um desses que você vai pagar
Acho que os loucos têm o seu juízo
Estão longe deste jogo popular
Não sei por que ninguém vê estes mendigos
Dançando juntos na desordem
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Dinheiro vem do ouro, é fonte de poder
Todo mundo tem que ganhar – hã!
Dinheiro é tesouro, é fonte de prazer
Muitos têm pouco, poucos até demais
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Jesus
(Para os seguidores sem dar-lhes tempo para interperlações) Levem-me à casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos.
Vozes do Povo
(Alguns seguidores abrindo caminho entre os populares, outros permanecem boqueabertos e paralizados pelo espanto) Por aqui Senhor, por aqui!
Conduzem Jesus à casa de Zaqueu ao som instrumental do Cântico Terceiro. A multidão de seguidores acompanha Jesus curiosa e com boa vontade. Jesus adentra a casa de Zaqueu.
Zaqueu
Obrigado, Senhor! Muito obrigado por vir à minha casa. Seja Bem-vindo Mestre! Como soube que eu desejava me encontar contigo?
Jesus
Pelo amor que demonstra à causa do meu Pai. Por saber que acredita verdadeiramente nas minhas palavras. Vejo isso em seus olhos. Vi isso quando nos entreolhamos quando você estava em cima daquela árvore na entrada de Jericó.
Zaqueu
O que devo fazer para ser seu seguidor, meu Senhor?
Jesus
Você não sabe? O que lhe diz o seu coração?
Zaqueu
(Ajoelhando-se muito emocionado diante de Cristo) Arrependo-me de todo mal que causei ao povo de Israel, Jesus. (Levanta o olhar em direção a Jesus) Eis-me aqui, meu Senhor. Prometo dar aos seus pobres metade de todos os meus bens; e se alguma coisa tenho tirado de alguém, eu o restituirei quatro vezes mais!
Jesus
(Sorridente e dirigindo o olhar aos Céus) Hoje a salvação veio a esta casa! (Para os seguidores) O Filho de Deus veio buscar e resgatar o que se havia perdido...
Vozes do Povo
Glória a Deus nas Alturas!
Cântico Quarto (Glória a Deus nas Alturas)
Oh que belos hinos
Cantam os anjos lá
Por mais um remido entrar nos Céus!
Jesus
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tocam. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de tal modo que pudesse transportar os montes, se não tivesse amor, nada seria.
Vozes do Povo
Aleluia!
Jesus
Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se envaidece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas sim com a verdade. (Pausa. Olha para todos com seriedade) O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é Perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
Segunda Mulher do Coro
Glória a Jesus!
Vozes do Povo
Aleluia!
Jesus
Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também serei plenamente conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor; destes três, o maior de todos é o amor...
Coro entoa a música Jesus Cristo de Roberto Carlos. Movimentação cênica do elenco. Cristo segue entre os fiéis em direção à Galileia, deixando a casa de Zaqueu.
(6) SEXTA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
A mulher de Samaria
Primeira Mulher do Coro
Para onde estamos indo?
Primeiro Homem do Coro
Para a Galiléia!
Segundo Homem do Coro
Então vamos ter que passar por Samaria?!
Primeiro Homem do Coro
Já estamos em Samaria, em Sicar...
Primeira Mulher do Coro
Tenho sede...
Primeiro Homem do Coro
Logo ali tem uma fonte: o poço de Jacó.
Jesus também com sede interrompe a marcha e senta-se próximo ao poço.
Alguns seguidores de Jesus Cristo
Vamos à cidade buscar comida?!
Outros seguidores de Jesus Cristo
Vamos!
Parte dos seguidores se retira para a cidade em busca de alimento. Alguns membros do grupo bebem água do poço com avidez. Entra a mulher de Samaria com pote de barro no ombro e começa a pegar água do poço de Jacó com uma cabaça.
Jesus
Dá-me de beber.
A mulher de Samaria
Como você, sendo judeu, me pede de beber? Sou samaritana.
Jesus
Se você soubesse quem é este que lhe pede água, você é que me pediria de beber... E eu lhe daria água viva.
A mulher de Samaria
Mas seu moço, o senhor não tem com que tirá-la: o poço é fundo! De onde vem esta sua tal água viva? Por acaso é água melhor do que a que nos deu o pai Jacó com este poço?
Jesus
Todos os que bebem desta água aí voltarão a ter sede... Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; a água que eu ofereço faz surgir em quem dela bebe uma fonte que jorrará para a vida eterna.
A mulher de Samaria
(Em tom de deboche) Então, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem venha aqui tirá-la.
Jesus
Vai, chama o teu marido e volta aqui.
A mulher de Samaria
(Insistindo no deboche) Não tenho marido!
Jesus
É verdade: porque já cinco maridos você têve, e o que agora é seu companheiro não é seu marido.
A mulher de Samaria
(Séria) O senhor é adivinho? Profeta? Eu sei que vem o Messias, que chamam Cristo; e quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas.
Jesus
Eu sou o Cristo.
A mulher entrega-lhe a cabaça com água; sai correndo de volta por onde veio abandonando o cântaro na cena.
A mulher de Samaria
(Eufórica) Venham, venham todos ver... É o Cristo! É o Messias!
O coro entoa música da ópera rock Jesus Cristo Superstar.
AS DUAS MOEDAS
Versão de fragmento da peça didática BAAL, O ASSOCIAL de Bertold Brecht (lerstück) a partir da tradução de Ingrid Dormien Koudela
ATOR 3
(Faz soar o cabuletê/caxixi) Diante dos cartazes de um espetáculo obscuro, Baal encontra, acompanhado de Lupo, um garotinho que está soluçando à entrada do teatro.
ATOR 2 - Baal
Por que está chorando?
ATOR 1 - Garotinho
Eu tinha duas moedas para ir ao teatro aí veio um menino e me arrancou uma delas! (Chora inconsolável)
BAAL
(Para o ator 3 que interpreta Lupo) Isto é roubo! Como o roubo não aconteceu por voracidade não é roubo motivado pela fome. E como parece ter ocorrido por causa de um bilhete de espetáculo, é roubo visual! Ainda assim, roubo. (Para o Garotinho) Você não gritou por socorro?
GAROTINHO
Gritei.
BAAL
(Para Lupo) O grito por socorro – expressão do sentimento de solidariedade humana... Mais conhecido ou assim chamado de grito de morte. (Acariciando o Garotinho) Ninguém ouviu você?
GAROTINHO
Não.
BAAL
(Para Lupo) Então, tire-lhe também a outra moeda!
ATOR 3 – Lupo
Boa idéia!
Lupo tira a moeda do garotinho à força. O garotinho chora inconsolável.
BAAL
(Para Lupo e platéia) O desenlace comum de todos os apelos dos fracos.
Riem e gargalham exageradamente.
ATORES 1, 2 e 3
O Homem não ajuda o Homem!
O coro performa Dinheiro.
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Não vou garantir, está em suas mãos
É um jogo, tem que jogar
Um dia no estilo, no outro Zé Ninguém
Um desses que você vai pagar
Acho que os loucos têm o seu juízo
Estão longe deste jogo popular
Não sei por que ninguém vê estes mendigos
Dançando juntos na desordem
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Dinheiro vem do ouro, é fonte de poder
Todo mundo tem que ganhar – hã!
Dinheiro é tesouro, é fonte de prazer
Muitos têm pouco, poucos até demais
Dinheiro rola
Dinheiro é bola
Dinheiro, a mola do mundo
Dinheiro enrola
Dinheiro é bola
Dinheiro em volta do mundo (pra todo mundo)
Jesus
(Para os seguidores sem dar-lhes tempo para interperlações) Levem-me à casa de Zaqueu, o chefe dos publicanos.
Vozes do Povo
(Alguns seguidores abrindo caminho entre os populares, outros permanecem boqueabertos e paralizados pelo espanto) Por aqui Senhor, por aqui!
Conduzem Jesus à casa de Zaqueu ao som instrumental do Cântico Terceiro. A multidão de seguidores acompanha Jesus curiosa e com boa vontade. Jesus adentra a casa de Zaqueu.
Zaqueu
Obrigado, Senhor! Muito obrigado por vir à minha casa. Seja Bem-vindo Mestre! Como soube que eu desejava me encontar contigo?
Jesus
Pelo amor que demonstra à causa do meu Pai. Por saber que acredita verdadeiramente nas minhas palavras. Vejo isso em seus olhos. Vi isso quando nos entreolhamos quando você estava em cima daquela árvore na entrada de Jericó.
Zaqueu
O que devo fazer para ser seu seguidor, meu Senhor?
Jesus
Você não sabe? O que lhe diz o seu coração?
Zaqueu
(Ajoelhando-se muito emocionado diante de Cristo) Arrependo-me de todo mal que causei ao povo de Israel, Jesus. (Levanta o olhar em direção a Jesus) Eis-me aqui, meu Senhor. Prometo dar aos seus pobres metade de todos os meus bens; e se alguma coisa tenho tirado de alguém, eu o restituirei quatro vezes mais!
Jesus
(Sorridente e dirigindo o olhar aos Céus) Hoje a salvação veio a esta casa! (Para os seguidores) O Filho de Deus veio buscar e resgatar o que se havia perdido...
Vozes do Povo
Glória a Deus nas Alturas!
Cântico Quarto (Glória a Deus nas Alturas)
Oh que belos hinos
Cantam os anjos lá
Por mais um remido entrar nos Céus!
Jesus
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tocam. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de tal modo que pudesse transportar os montes, se não tivesse amor, nada seria.
Vozes do Povo
Aleluia!
Jesus
Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se envaidece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas sim com a verdade. (Pausa. Olha para todos com seriedade) O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é Perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
Segunda Mulher do Coro
Glória a Jesus!
Vozes do Povo
Aleluia!
Jesus
Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também serei plenamente conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor; destes três, o maior de todos é o amor...
Coro entoa a música Jesus Cristo de Roberto Carlos. Movimentação cênica do elenco. Cristo segue entre os fiéis em direção à Galileia, deixando a casa de Zaqueu.
(6) SEXTA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
A mulher de Samaria
Primeira Mulher do Coro
Para onde estamos indo?
Primeiro Homem do Coro
Para a Galiléia!
Segundo Homem do Coro
Então vamos ter que passar por Samaria?!
Primeiro Homem do Coro
Já estamos em Samaria, em Sicar...
Primeira Mulher do Coro
Tenho sede...
Primeiro Homem do Coro
Logo ali tem uma fonte: o poço de Jacó.
Jesus também com sede interrompe a marcha e senta-se próximo ao poço.
Alguns seguidores de Jesus Cristo
Vamos à cidade buscar comida?!
Outros seguidores de Jesus Cristo
Vamos!
Parte dos seguidores se retira para a cidade em busca de alimento. Alguns membros do grupo bebem água do poço com avidez. Entra a mulher de Samaria com pote de barro no ombro e começa a pegar água do poço de Jacó com uma cabaça.
Jesus
Dá-me de beber.
A mulher de Samaria
Como você, sendo judeu, me pede de beber? Sou samaritana.
Jesus
Se você soubesse quem é este que lhe pede água, você é que me pediria de beber... E eu lhe daria água viva.
A mulher de Samaria
Mas seu moço, o senhor não tem com que tirá-la: o poço é fundo! De onde vem esta sua tal água viva? Por acaso é água melhor do que a que nos deu o pai Jacó com este poço?
Jesus
Todos os que bebem desta água aí voltarão a ter sede... Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; a água que eu ofereço faz surgir em quem dela bebe uma fonte que jorrará para a vida eterna.
A mulher de Samaria
(Em tom de deboche) Então, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem venha aqui tirá-la.
Jesus
Vai, chama o teu marido e volta aqui.
A mulher de Samaria
(Insistindo no deboche) Não tenho marido!
Jesus
É verdade: porque já cinco maridos você têve, e o que agora é seu companheiro não é seu marido.
A mulher de Samaria
(Séria) O senhor é adivinho? Profeta? Eu sei que vem o Messias, que chamam Cristo; e quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas.
Jesus
Eu sou o Cristo.
A mulher entrega-lhe a cabaça com água; sai correndo de volta por onde veio abandonando o cântaro na cena.
A mulher de Samaria
(Eufórica) Venham, venham todos ver... É o Cristo! É o Messias!
O coro entoa música da ópera rock Jesus Cristo Superstar.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
PSICOLOGIA DA ATUAÇÃO TEATRAL (1)
Para os menos familiarizados com o "pedagogêz", transposição didática é um modo de adequação de densos conteúdos ao repertório de saberes já consolidado por parte dos estudantes cuja exposição é resposabilidade única do docente.
SOBRE A PSICOLOGIA DA ATUAÇÃO TEATRAL
Comentários sobre a “Psicologia do Ator” de Liev Semionovich Vigotskii
1896-1934
O texto é uma versão minha, comentada, a partir da tradução para o italiano de Claudia Lasorsa publicada em Studi di psicologia dell’educazione sob o título Sulla psicologia della creatività dell’atorre em 1986, por sua vez com base na edição da Pedagógica de Moscou de 1984 sob a consigna Sobranie Sochineniy, v. 6, p. 319-328, do texto originalmente atribuído a Vigotskii - que o teria escrito em 1932 e que foi publicado na Rússia em 1936 por JACOBSON, P. M. na coletânea The Psychology of the stage feelings of the actor, dois anos após a morte de Vigotskii, e mais uma vez traduzido para o inglês posteriormente por Elizabeth Roberts em 1985, tendo sido publicado no periódico SCYPT Journal, n.14, , p. 47-56.
Uma cópia reprográfica da tradução de Lasorsa me foi gentilmente enviada por correio regular pelo acadêmico Antônio Mecacci a partir de uma solicitação minha ao Profº Dr. Guillermo Blank, em 1998, na ocasião ainda vivo, que conheci na lista de discussão que o Laboratório de Cognição Humana Comparada da Universidade da Califórnia em San Diego/LCHC-UCSD mantém na Internet, sob a coordenação do Prof. Dr. Michael Cole. Uma tradução para o português foi elaborada pela Profª Drª Beatriz Angela Vieira Cabral da UDESC e UFSC com base na tradução inglesa de Roberts e me foi por ela gentilmente disponibilizada uma cópia impressa não publicada intitulada Psicologia do Ator também em 1998, em um encontro presencial que tivemos na ECA-USP promovido pela Profª Drª Maria Lucia de S. B. Pupo. Por isso refiro-me ao texto de Vigotskii conforme foi intitulado pela única tradução para o português a que tive acesso - a da professora Beatriz Cabral.
Por Ricardo Ottoni Vaz Japiassu
SOBRE A PSICOLOGIA DA ATUAÇÃO TEATRAL
Comentários sobre a “Psicologia do Ator” de Liev Semionovich Vigotskii
1896-1934
O texto é uma versão minha, comentada, a partir da tradução para o italiano de Claudia Lasorsa publicada em Studi di psicologia dell’educazione sob o título Sulla psicologia della creatività dell’atorre em 1986, por sua vez com base na edição da Pedagógica de Moscou de 1984 sob a consigna Sobranie Sochineniy, v. 6, p. 319-328, do texto originalmente atribuído a Vigotskii - que o teria escrito em 1932 e que foi publicado na Rússia em 1936 por JACOBSON, P. M. na coletânea The Psychology of the stage feelings of the actor, dois anos após a morte de Vigotskii, e mais uma vez traduzido para o inglês posteriormente por Elizabeth Roberts em 1985, tendo sido publicado no periódico SCYPT Journal, n.14, , p. 47-56.
Uma cópia reprográfica da tradução de Lasorsa me foi gentilmente enviada por correio regular pelo acadêmico Antônio Mecacci a partir de uma solicitação minha ao Profº Dr. Guillermo Blank, em 1998, na ocasião ainda vivo, que conheci na lista de discussão que o Laboratório de Cognição Humana Comparada da Universidade da Califórnia em San Diego/LCHC-UCSD mantém na Internet, sob a coordenação do Prof. Dr. Michael Cole. Uma tradução para o português foi elaborada pela Profª Drª Beatriz Angela Vieira Cabral da UDESC e UFSC com base na tradução inglesa de Roberts e me foi por ela gentilmente disponibilizada uma cópia impressa não publicada intitulada Psicologia do Ator também em 1998, em um encontro presencial que tivemos na ECA-USP promovido pela Profª Drª Maria Lucia de S. B. Pupo. Por isso refiro-me ao texto de Vigotskii conforme foi intitulado pela única tradução para o português a que tive acesso - a da professora Beatriz Cabral.
Por Ricardo Ottoni Vaz Japiassu
PALAVRAS DO CRUCIFICADO (6 )
(4) QUARTA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
A parábola do Semeador
Jesus está em pé olhando o mar em silêncio; Os seguidores de Jesus aproximam-se dele pouco a pouco.
Jesus
(Dirigindo o olhar aos seguidores) Vocês julgam segundo a carne; eu a ninguém julgo. (Pausa) Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só quem julga, mas eu e Aquêle que me enviou.
Primeiro Fariseu
Onde está Aquêle que lhe enviou?
Segundo Fariseu
Onde está o seu Pai?
Jesus
Vocês não conhecem a mim nem a meu Pai?
Os seguidores se entreolham.
Jesus
Se vocês me conhecem, conhecem o meu Pai.
Primeiro Fariseu
Explica-nos isso melhor, Mestre.
Jesus
(Levantando-se) Vocês são deste mundo. Eu deste mundo não sou.
Segundo Fariseu
Afinal quem é você?
Jesus
Quem é que desde sempre tenho dito que sou? Nada faço por mim mesmo, falo como o Pai me ensinou.
Primeiro seguidor
Mestre, fala-nos.
O coro de seguidores pede-lhe que fale e todos sentam-se ao seu redor. Os fariseus assistem a tudo.
Jesus
Uma vez um camponês saiu para semear. E ao semear, parte das sementes caíram à beira do caminho. Mas logo vieram as aves e as comeram. Outra parte caiu em solo rochoso onde a terra era pouca e logo nasceu. Mas como a terra era excassa, rapidamente o sol queimou a plantação - se não era profunda a terra, e não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre espinhos e os espinhos cresceram e sufocaram a plantação. Por fim, outra parte caiu em boa terra e deu frutos. (Pausa) Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Cântico Segundo e movimentação cênica do coro de seguidores alusiva à semeadura da terra.
(5) QUINTA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
Zaqueu, o publicano
Correria no palco.
Primeiro Curioso
Ele está vindo!
Segundo Curioso
Corram! Venham ver! É Ele mesmo!
Terceiro Curioso
Jesus está entrando em Jericó!
Zaqueu
É o profeta que dizem ser o Cristo?
Primeira Mulher do povo
Sim. É Ele, o curandeiro pregador errante.
Primeiro Homem do Povo
(Para Zaqueu) O Sr. não é Zaqueu, o chefe dos publicanos?
Segundo Homem do Povo
(Irônico) Vai cobrar-lhe pedágio, senhor fiscal do Império?
Gargalhadas e uivos de deboche no coro.
Terceiro Homem do Povo
Não deixem este anão chegar perto de Jesus! Ele quer lhe cobrar pedágio para poder pregar em Jericó!
Quarto Homem do Povo
(Para Zaqueu) Cai fora publicano nanico!
Quinto Homem do Povo
Chega da cobrança de impostos!
Populares
Fora publicano! Fora!
A multidão se aglomera para ver a passagem de Jesus Cristo. Zaqueu tenta sem êxito, em razão de sua baixa estatura, ver Jesus. Zaqueu dirige-se a um dispositivo cênico pivô de árvore e sobe nele para ver Cristo. Cântico Terceiro com movimentação cênica do Coro.
Zaqueu pequeno
Quase um anão
Desejava ver Jesus
Então subiu numa árvore lá
Onde à rua o Mestre conduz
E o Salvador para ele olhou
Quando ia ali passar e disse:
Zaqueu desce depressa
Porque em sua casa eu vou pousar!
Jesus
Desce daí homem! E vai sem demora para casa porque lá irei logo estar contigo.
Zaqueu obedece prontamente a Jesus e deixa a cena exultando de alegria. Burburinho no Coro.
Coro de Atores
E bem depressa Zaqueu desceu; e com alegria recebeu Jesus.
Primeiro Fariseu
Ouviram o que disse o pregador?
Segundo Fariseu
(Indignado) Ele entrou em Jericó para ser hóspede de um publicano?!
Terceiro Fariseu
Como pode entrar na casa de um pecador?
Jesus
(interrompendo a marcha dirige-se ao povo) O filho de Deus veio buscar e salvar o que havia se perdido....
Primeira Mulher do Povo
O que isso quer dizer Senhor?
Jesus
Certo homem nobre partiu para uma terra longínqua, a fim de tomar posse de um reino e depois voltar. E chamando seus servos, deu-lhes dez dinheiros, um dinheiro a cada um, e disse-lhes: Negociem os dinheiros até que eu retorne.
Primeiro Homem do Povo
E o que aconteceu?
Jesus
Ocorreu que alguns dos seus concidadãos o odiavam; e enviaram após sua saída um bando para matá-lo; porque não queriam que o nobre reinasse mais sobre eles...
Segundo Homem do Povo
Mataram o nobre?
Jesus
Sucedeu que, ao retornar da viagem, o nobre, depois de ter tomado de volta a posse do seu reino, mandou chamar aqueles servos a quem entregara os dinheiros, a fim de saber como cada um havia negociado o valor que lhes fora confiado.
Primeira Mulher do Povo
E o que ocorreu?
Primeiro Homem do Povo
Psiu! Calada mulher!
Rumor no Coro em protesto contra a interrupção do relato de Jesus.
Segundo Homem do Povo
Silêncio, gente! Deixem o Mestre terminar de contar!
Jesus
Apresentou-se, pois, o primeiro servo, e lhe disse: Senhor, o seu dinheiro rendeu dez vezes mais! E o nobre respondeu-lhe: Muito bem! Servo bom! Porque você foi, no mínimo, fiel, sobre dez cidades do meu reino irá governar! (Pausa) E veio o segundo servo, dizendo: Senhor, o seu dinheiro rendeu cinco vezes mais. A este, o nobre prometeu que governaria cinco cidades. E finalmente veio o último servo que lhe disse: Senhor, eis aqui o seu dinheiro - que guardei num lenço por temer perdê-lo. Porque sei o quanto o senhor é severo. Toma o mesmo dinheiro que me foi confiado! Então, disse o nobre: Servo mau! Por que não colocou o meu dinheiro no banco? Hoje eu o poderia ter resgatado com juros. E voltando-se para os que estavam ali presentes, disse: Tirem o dinheiro dele, e entreguem àquele que fez o valor render dez vezes mais!
Primeiro Fariseu
(Questionador) Mas o primeiro servo já tinha dez vezes mais dinheiro?!
Rumor no Coro.
Jesus
Pois eu digo a vocês: a todos os que têm lhes será dado mais; Já os que não têm, até aquilo que têm lhes deve ser tirado.
O Coro de Atores atua o fragmento As Duas Moedas de BAAL, o associal de Bertold Brecht.
A parábola do Semeador
Jesus está em pé olhando o mar em silêncio; Os seguidores de Jesus aproximam-se dele pouco a pouco.
Jesus
(Dirigindo o olhar aos seguidores) Vocês julgam segundo a carne; eu a ninguém julgo. (Pausa) Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só quem julga, mas eu e Aquêle que me enviou.
Primeiro Fariseu
Onde está Aquêle que lhe enviou?
Segundo Fariseu
Onde está o seu Pai?
Jesus
Vocês não conhecem a mim nem a meu Pai?
Os seguidores se entreolham.
Jesus
Se vocês me conhecem, conhecem o meu Pai.
Primeiro Fariseu
Explica-nos isso melhor, Mestre.
Jesus
(Levantando-se) Vocês são deste mundo. Eu deste mundo não sou.
Segundo Fariseu
Afinal quem é você?
Jesus
Quem é que desde sempre tenho dito que sou? Nada faço por mim mesmo, falo como o Pai me ensinou.
Primeiro seguidor
Mestre, fala-nos.
O coro de seguidores pede-lhe que fale e todos sentam-se ao seu redor. Os fariseus assistem a tudo.
Jesus
Uma vez um camponês saiu para semear. E ao semear, parte das sementes caíram à beira do caminho. Mas logo vieram as aves e as comeram. Outra parte caiu em solo rochoso onde a terra era pouca e logo nasceu. Mas como a terra era excassa, rapidamente o sol queimou a plantação - se não era profunda a terra, e não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre espinhos e os espinhos cresceram e sufocaram a plantação. Por fim, outra parte caiu em boa terra e deu frutos. (Pausa) Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Cântico Segundo e movimentação cênica do coro de seguidores alusiva à semeadura da terra.
(5) QUINTA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
Zaqueu, o publicano
Correria no palco.
Primeiro Curioso
Ele está vindo!
Segundo Curioso
Corram! Venham ver! É Ele mesmo!
Terceiro Curioso
Jesus está entrando em Jericó!
Zaqueu
É o profeta que dizem ser o Cristo?
Primeira Mulher do povo
Sim. É Ele, o curandeiro pregador errante.
Primeiro Homem do Povo
(Para Zaqueu) O Sr. não é Zaqueu, o chefe dos publicanos?
Segundo Homem do Povo
(Irônico) Vai cobrar-lhe pedágio, senhor fiscal do Império?
Gargalhadas e uivos de deboche no coro.
Terceiro Homem do Povo
Não deixem este anão chegar perto de Jesus! Ele quer lhe cobrar pedágio para poder pregar em Jericó!
Quarto Homem do Povo
(Para Zaqueu) Cai fora publicano nanico!
Quinto Homem do Povo
Chega da cobrança de impostos!
Populares
Fora publicano! Fora!
A multidão se aglomera para ver a passagem de Jesus Cristo. Zaqueu tenta sem êxito, em razão de sua baixa estatura, ver Jesus. Zaqueu dirige-se a um dispositivo cênico pivô de árvore e sobe nele para ver Cristo. Cântico Terceiro com movimentação cênica do Coro.
Zaqueu pequeno
Quase um anão
Desejava ver Jesus
Então subiu numa árvore lá
Onde à rua o Mestre conduz
E o Salvador para ele olhou
Quando ia ali passar e disse:
Zaqueu desce depressa
Porque em sua casa eu vou pousar!
Jesus
Desce daí homem! E vai sem demora para casa porque lá irei logo estar contigo.
Zaqueu obedece prontamente a Jesus e deixa a cena exultando de alegria. Burburinho no Coro.
Coro de Atores
E bem depressa Zaqueu desceu; e com alegria recebeu Jesus.
Primeiro Fariseu
Ouviram o que disse o pregador?
Segundo Fariseu
(Indignado) Ele entrou em Jericó para ser hóspede de um publicano?!
Terceiro Fariseu
Como pode entrar na casa de um pecador?
Jesus
(interrompendo a marcha dirige-se ao povo) O filho de Deus veio buscar e salvar o que havia se perdido....
Primeira Mulher do Povo
O que isso quer dizer Senhor?
Jesus
Certo homem nobre partiu para uma terra longínqua, a fim de tomar posse de um reino e depois voltar. E chamando seus servos, deu-lhes dez dinheiros, um dinheiro a cada um, e disse-lhes: Negociem os dinheiros até que eu retorne.
Primeiro Homem do Povo
E o que aconteceu?
Jesus
Ocorreu que alguns dos seus concidadãos o odiavam; e enviaram após sua saída um bando para matá-lo; porque não queriam que o nobre reinasse mais sobre eles...
Segundo Homem do Povo
Mataram o nobre?
Jesus
Sucedeu que, ao retornar da viagem, o nobre, depois de ter tomado de volta a posse do seu reino, mandou chamar aqueles servos a quem entregara os dinheiros, a fim de saber como cada um havia negociado o valor que lhes fora confiado.
Primeira Mulher do Povo
E o que ocorreu?
Primeiro Homem do Povo
Psiu! Calada mulher!
Rumor no Coro em protesto contra a interrupção do relato de Jesus.
Segundo Homem do Povo
Silêncio, gente! Deixem o Mestre terminar de contar!
Jesus
Apresentou-se, pois, o primeiro servo, e lhe disse: Senhor, o seu dinheiro rendeu dez vezes mais! E o nobre respondeu-lhe: Muito bem! Servo bom! Porque você foi, no mínimo, fiel, sobre dez cidades do meu reino irá governar! (Pausa) E veio o segundo servo, dizendo: Senhor, o seu dinheiro rendeu cinco vezes mais. A este, o nobre prometeu que governaria cinco cidades. E finalmente veio o último servo que lhe disse: Senhor, eis aqui o seu dinheiro - que guardei num lenço por temer perdê-lo. Porque sei o quanto o senhor é severo. Toma o mesmo dinheiro que me foi confiado! Então, disse o nobre: Servo mau! Por que não colocou o meu dinheiro no banco? Hoje eu o poderia ter resgatado com juros. E voltando-se para os que estavam ali presentes, disse: Tirem o dinheiro dele, e entreguem àquele que fez o valor render dez vezes mais!
Primeiro Fariseu
(Questionador) Mas o primeiro servo já tinha dez vezes mais dinheiro?!
Rumor no Coro.
Jesus
Pois eu digo a vocês: a todos os que têm lhes será dado mais; Já os que não têm, até aquilo que têm lhes deve ser tirado.
O Coro de Atores atua o fragmento As Duas Moedas de BAAL, o associal de Bertold Brecht.
sábado, 2 de abril de 2011
Versão acadêmica de Resenha do Psicologia Acientífica
Aqui, seguem publicados apenas fragmentos do texto definitivo
HOLZMAN, Lois & NEWMAN, Fred (1994) Unscientific Psychology – A Cultural-Performatory Approach to Understandig Human Life. New York, ESI-iUniverse Inc, 230p.
“O que nos faz doentes é COMO pensamos (no sentido do quê pensamos e, mais importante, sobre aquilo que pensamos e se até mesmo chegamos a pensar), sobretudo COMO (o quê e se) pensamos sobre o pensar e os processos considerados mentais”
Apresentação
Caso sua expectativa seja encontrar uma “nota de leitura” (resumo acrítico) do livro procure outras fontes. Se está em busca de uma tradução “oficial” (com todos as “aparas ideológicas” de autoridades investidas de poder para fazê-lo) não vale a pena prosseguir.
Talvez alguns trechos do documento possam ser úteis para a atividade de “corte-e-colagem” (Ctrl+X, Ctrl+C ) na “montagem” de seus textos. Mas, cuidado: não há qualquer garantia de que os resultados de seus esforços sejam julgados satisfatórios por parte de seus “orientadores” acadêmicos.
Importante ressaltar que não se tem como destinatários oportunistas de plantão ou “estelionatários da produção intelectual” que fazem “seus” os pensamentos de outros tampouco os “ingênuos” aspirantes a recompensas acadêmicas com mínimo ou nenhum esforço para esboçar opinião própria - que julgam banal e típico da escolarização este modo “generalizado” de agir.
Não existe demérito em fornecer dados fidedignos das fontes usadas na colaboração da sua produção autoral. Este pode ser um bom exercício para o aperfeiçoamento da ética na apropriação criativa da contribuição (visual, verbal etc) de outros.
Também não há preocupação aqui em atender, de modo reificado, às normatizações da ABNT nem de outras agências internacionais reguladoras e padronizadoras da atividade da escrita acadêmica “aceitável” (normas que estão permanentemente sendo alteradas em razão de interesses comerciais oportunísticos e que variam ao sabor dos conselhos editoriais das organizações para as quais os textos venham a ser eventualmente apresentados).
Para obter a liberdade na formatação de textos é preciso conhecer o conjunto de regras dos jogos de escrita e de(s)construí-las deliberada e conscientemente – algo que se obtem unicamente a partir do engajamento sincero nos processos de letramento continuado. Isso quase nunca é tolerado pelas organizações dedicadas à escolarização, em geral aprisionadas à ortodoxia pedagógica. Parece-me importante no entanto ser tolerante para com a permissividade da ciberescrita (escrita digitalizada hipertextual) - como a acentuação e ortografia não ortodoxa de palavras, pontuação suprimida e intersemiótica do texto, apresentação topológica não sequencial de ideias etc – que não é o caso serem discutidas aqui.
Focaliza-se neste empreendimento prático-intelectual a atividade colaborativa do pensamento pelo “verso e reverso” das palavras, pelo seu “recheio” ou preenchimento signitivo. Só é possível discutir e comentar o texto em referência com aqueles que efetivamente estão familiarizados com a temática da obra resenhada e que a ela tiveram acesso na língua inglesa.
Aos “sabichões”, defensores do rigor acadêmico censor da liberdade de expressão, ávidos por darem “nota” sobre o que não querem conhecer nem deixar conhecer, só lhes resta ser oferecida explícita repugnância – jamais indiferença.
Não parece difícil concordar que a predefinição de laudas e quantidades de caracteres por parte das publicações especializadas são estratégias para aprisionar e restringir o debate vertical de temas emergentes. Uma atitude de mesma índole daqueles defensores do pensamento rápido [fast thinking] metaforizado pela “abertura” de várias “janelas” simultaneamente como pré-requisito para a atividade do psiquismo humano mediado pelas tecnologias da comunicação. Ora, não se pode assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Isso – a atenção pulverizada - é prejudicial ao exame cuidadoso e desaçodado do que quer que seja: um desserviço à colaboração genuína do conhecimento. Um aprisionamento da mente às superfícies planas ilusoriamente tridimensionalizadas pela tecnologia; algo que costuma ser justificado em geral pela necessidade de “urgência.” Mas a atividade do pensamento sobre si mesmo e para si, sabemos, solicita coragem e renúncia da atenção periférica por entrega absoluta à submersão em suas profundezas abissais – o que gera, compreensivelmente, calafrios glaciais nos que se atrevem a aventurar-se neste tipo de ocupação.
Pouco valorizada pela midia a resenha propriamente dita, quando encontra espaço editorial, costuma ser subrepticiamente ressignificada como “nota de leitura” – uma “chamada” ou convite lacônico à leitura de livros. Mas a resenha não deve equiparar-se às consultas pragmáticas de “orelhas” dos livros para demonstrar erudição. Não é esta a expectativa de uso do material disponibilizado aqui.
Uma resenha crítica permanece sendo convite à leitura da obra mas vai além do seu resumo como estratégia de marketing: trata-se de um exame detalhado do texto comentado - uma provocação para a discussão de temáticas emergentes consideradas relevantes.
Vê-se nitidamente que esta não é ocupação para quem possui conhecimento limitado dos assuntos abordados pela obra resenhada - assuntos que interessam mais aos que já se encontram familiarizados com os ritos acadêmicos de passagem para a autonomia intelectual - os iniciados em Pesquisa e os que pretendem nela serem iniciados. Para estes destina-se a transposição didática do pensamento de Holzman&Newman expresso no livro comentado - uma modesta contribuição à pedagogia que professamos.
A ABORDAGEM PÓS-MODERNISTA À CLÍNICA PSICOTERÁPICA DE HOLZMAN&NEWMAN
O polêmico e provocativo livro de autoria dos psicólogos sócioculturalistas do desenvolvimento, os nova iorquinos Fred Newman e Lois Holzman, é um corajoso e ousado empreendimento intelectual que afronta a hipocrisia acadêmica e as crendices relacionadas aos saberes hermeticamente protegidos sob a égide do cientificismo.
O material é bombástico e encontra-se organizado em três partes que contém, cada uma, de dois a quatro capítulos, precedidos de um breve prefácio e uma densa introdução, além de apresentar em apêndice uma extensa mas relevante bibliografia e um cuidadoso guia onomástico.
Trata-se de leitura absolutamente indispensável para quem se propõe genuinamente entender e discutir a clínica psicoterápica a partir da perspectiva teórico-prática de abordagens pós-modernistas engajadas no desvelamento dos fundamentos do desenvolvimento histórico-sóciocultural do psiquismo tipicamente humano. Um Sendero luminoso em meio ao eclipse da contemporaneidade.
...
Limites e Possibilidades da Abordagem Performáticocultural
Não se pode permanecer preso ao “que se é” após a leitura do impactante Psicologia Acientífica de Fred Newman e Lois Holzman. Nele os autores abandonam o proselitismo que caracteriza parte da produção escrita pela militância em favor da terapia social fornecendo uma defesa convincente e serena de seu ponto de vista.
Através de uma argumentação clara e bem-humorada, no melhor estilo norte-americano de “ir direto ao ponto”, revela-se o propósito pedagógicoterapeutico da abordagem pós-modernista à clínica no tratamento do sofrimento psicológico humano.
Deve-se crer no alívio emocional oportunizado pela conscientização dos processos de alienação (a que todos somos inexoravelmente submetidos sob o capitalismo) porque de fato uma sensação de bem-estar nos toma à leitura de cada página do livro - um suspiro apaziguador pelo desconforto de estarmos imersos em um ambiente hostil à modos alternativos de ser e pensar.
Porém, do discurso sobre a prática à prática discursiva em ação, no instante fugaz de sua produção ou ocorrência – colaborada - existe uma lacuna a ser preenchida: como apresentá-la em toda sua plenitude e riqueza intersemiótica valendo-se exclusivamente da linguagem verbal? A natureza “apresentativa” da performance, por solicitar permanente atualização, é um desafio para sua “captura” – algo que unicamente o registro eidético,(1)o instante de sua ocorrência, pode ambicionar perseguir - jamais alcançar.
A solicitação sensacional enquanto vivência compartilhada e co-laborada é o que distingue as expressões espetaculares improvisacionais ou imprevisíveis (corporais verbais e não verbais, cotidianas ou extracotidianas) das demais formas “fossilizáveis” (invariantes, fixáveis ou “replicáveis”) de expressão. O registro verbal ou em áudio-vídeo do momento em que a performance se dá não é suficiente para manter “em ação” todos os fatores que colaboram sua “duração” (sua permanência como existência plena).(2)
Compreende-se portanto a prudência dos autores em reproduzirem verbalmente fragmentos de interações vividas nos grupos e de não ousarem descrições e interpretações dos jogos de linguagem nelas emergentes.
Talvez um esclarecimento e distinção entre Pós-Modernidade e Pós-Modernismo auxiliasse na elucidação da problemática abordada pelo livro. A Pós-Modernidade refere uma nova organização das forças produtivas ou a transnacionalização do Capital gerando enfoques que se contrapõem respetivamente na defesa (Hipermodernismo) e oposição (Pós-Modernismo) à sua ideologia, o Neoliberalismo. O pensamento pós-modernista portanto coloca-se como crítica da crítica (neomarxismo) nas explicações “científico-ideológicas” da contemporaneidade.
Apesar disso e da timidez no aprofundamento do impacto das abordagens performáticoculturais à clínica psicoterápica particularmente nos processos singulares de desenvolvimento ou mudança dos modos de ser e pensar de membros dos grupos em terapia social – talvez justificada pelos limites de captura do que ocorre na performance (atuação sendo atualizada) - o livro é uma precisosa contribuição à colaboração de conhecimentos acerca das narrativas sobre o psiquismo tipicamente humano sobretudo por apresentar uma criativa articulação entre os pensamentos de Wittgenstein e Vigotskii que permite estabelecer um elo entre a ciência moderna e sua pós-modernização, particularmente por ressaltar aspectos de suas ideias que antecipam o pensar multirreferencial ou rizomático (impactado pelo uso das tecnologias da informação e comunicação) típico da contemporaneidade.
Surpreende constatar que NEWMAN, em parceria com Lenora Fulani, em seu recente Let’s Pretend – Solving the Educational Crisis in America: a special report [Façamos de Conta - Solucionando a Crise Educacional na América: um comunicado extraordinário](3) sugere que a terapia social seja o “instrumento-PARA-resultado” e “melhora” do aproveitamento de sujeitos vitimados pelo fracasso escolar: “uma ferramenta fundamental para os reformadores educacionais é a performance. (4)
Constata-se neste “comunicado extraordinário” [Special Report] de NEWMAN&FULANI um flagrante descompasso entre o vigor da argumentação apresentada em conjunto com Lois Holzman no Psicologia Acientífica (o entendimento radical da terapia social como prática do método) e uma despudorada “rendição” à lógica pragmáticointrumental da escolarização hegemônica obrigatória, padronizadora, alienante e universalizante.
A “solução” proposta por NEWMAN&FULANI no documento pode ser entendida como um “golpe cênico” - um texto-ação performático com intuito de provocar o efeito teatral de estranhamento (5) do público-leitor; De todo modo, o documento colide com a argumentação sincera de Lois Holzman, expresso em seu belíssimo Escolas para Crescer [Schools for Growth] de que ao não serem primeiramente discutidos os aspectos antidesenvolvimentais presentes nos modelos adotados pelas práticas pedagógicas e os modos vigentes de organização escolar do ensino e a adesão acrítica a este “modelo” por parte de todos os enredados pela trama da escolarização, qualquer tentativa de alteração qualitativa do que ocorre na educação formal é ineficaz:
Sem levar-se em conta a extensão em que escolas, modelos educacionais e que a psicologia na qual estes se baseiam são antidesenvolvimentais – por sua adesão a paradigmas espistemológico e do processo de conhecer – não penso que esforços reformistas possam ser bem sucedidos. (6)
Fazer de conta ser “bom” aluno e fazer de conta que os estudantes estão apreendendo como um “elenco” ensaiado dia após dia em todos os estabelecimentos de ensino por todos os dias do calendário escolar e acreditar que esta é a “solução” para a crise da escolarização na América é uma “piada” que afronta os que se encontram sinceramente engajados em colaborarem um ambiente escolar menos excludente e intolerante - ou trata-se de uma “golpe cênico” - uma “ironia” que eu, pessoalmente, preferi não entender seja pelos “ruídos” nas transações interlinguisticas que pressupõem sentidos intraculturais ocultos e metaforizados, seja pelo direito inalienável de “jogar com palavras” pressupondo-se a aceitação do convite para o faz de conta [Pretend play].
O título do documento (Solucionando a Crise) já contradiz a proposição filosófica da terapia social apresentada no capítulo oitavo do livro de HOLZMAN&NEWMAN no qual afirmam que “a atividade questionadora, não a ‘resposta’ ou a busca por respostas, é o que movimenta nossa comunidade em desenvolvimento”(7) e que “não existem respostas a serem oferecidas”(8)
Mesmo sendo Let’s Pretend uma proposição justificada [to solve a crisis] pelo compromisso com a inautenticidade desavergonhada (9) dos pontos de vista pós-modernos assumida em Psicologia Acientífica, a argumentação no documento (seja enquanto estranhamento ou não) gravita em torno de uma compreensão “ingênua” do fracasso escolar fechando os olhos para importantes fatores socioeconômico e impactos histórico-culturais responsáveis por semblantes e representações sociais reforçados pelo compartilhamento subrepticio de uma visão modernista (teleológica e preconceituosa) de desenvolvimento bem como do que seja o suposto “bom” aprendizado [Bom para quem? Para quê?]: “se jovens são subdesenvolvidos eles não se tornam aprendizes” “estas crianças precisam ser auxiliadas a crescerem (desenvolverem) quando são submetidas à escolarização e solicitadas a interagir no mesmo ambiente de crianças desenvolvidas” [SIC](10)
Let’s Pretend colide “de frente” com a belíssima, lúcida e contundente argumentação de HOLZMAN em Escolas para Crescer – Alternativas radicais para modelos educacionais vigentes.(11) Lois, amparando-se no pensamento pedagógico de Paulo Freire e outros notáveis educadores, expõe ali sua concepção de desenvolvimento como prática social, como algo que não pode deixar de ocorrer nos processos de imersão e impregnação cultural subjacentes à humanidade não fazendo sentido falar-se em “subdesenvolvimento” – a não ser desde um entendimento modernista (teleológico e evolucionista) do psiquismo humano.
Ora, o desenvolvimento na perspectiva histórico-cultural, como deixam claro HOLZMAN&NEWMAN em Psicologia Acientífica, precisa ser pensado como o conjunto dos processos de transformação que ocorrem ao longo da vida do sujeito - e que se relacionam de modo não etnocêntrico “tanto a fenômenos orgânicos, maturacionais, que permitem asserções universalizantes sobre certos aspectos do desenvolvimento (especialmente nas menores idades), como a processos enraizados historicamente, que requerem uma contextualização histórico-cultural para serem adequadamente compreendidos.”(12)
A rigor, numa abordagem performáticocultural, comprometida com a perspectiva sócio-histórica pós-modernista, não tem cabimento falar em “subdesenvolvimento” (ou estágios DE desenvolvimento) mas de estágios (palcos) PARA o desenvolvimento.
Ao se cotejar o teor de Let’s Pretend com a lúcida radiografia [X-Ray] da escolarização norte-americana elaborada por Holzman em Escolas para Crescer (13) a impressão que se tem é a do desmoronamento das “torres gêmeas” da terapia social: Um apavorante - Salve-se quem puder!
Por favor ?! [Give me a break(?)]
Como fazer de conta que tudo está OK quando rajadas de metralhadora e balas de fuzil varam as paredes das salas de aula vitimando professores, alunos e funcionários; jovens são molestados sexualmente por seus próprios pares no interior dos estabelecimentos de ensino e o registro de suas perversões com câmeras de telefones móveis é exibido como troféu na internet; escolares são ali constrangidos por todo tipo de bullying; crianças e adolescentes têm que fazer longas caminhadas à pé pela mata ou ruas não urbanizadas enfrentando lama, chuva e o risco de serem assaltados e estuprados na ida ou volta da escola para fazerem, muitas vezes, a única refeição do dia; jovens atravessam rios infestados de jacarés e piranhas em barcos rudimentares para serem submetidos a “verificações” de aproveitamento escolar padronizadoras e intolerantes aos seus ritmos singulares de apropriação de “conhecimentos abstratos” valorizados pelo processos “legais” de letramento – que insistem em permanecer com olhos blindados para a fluência de suas ações no meio cultural em que vivem?
Mas... devo me ater a comentar apenas o livro Psicologia Acientífica. Neste NEWMAN, em parceria com HOLZMAN, apresenta uma outra face da abordagem performáticocultural: a que se mostra iluminada pelo sorriso plácido da esperança, aquela que se volta para a colaboração solidária do bem-estar em um mundo sobressaltado por ocorrências de catástrofes naturais, genocídios provocados por intolerância sexista e étnocultural, devastação ambiental em nome do “progresso” ou desenvolvimento.
Quero encerrar meus comentários com um libelo pós-modernista ventrilocando Marta Kohl de Oliveira:
O que precisa ser explicado por meio da cultura não são as características de diferentes indivíduos e grupos que divergem das normas européias e americanas de funcionamento mental, mas a própria mente humana e seu funcionamento. A cultura tem que ser o princípio explicativo da mente especificamente humana.” (14)
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HOLZMAN, L. (1997) Schools for growth – radical alternatives to current educational models [Escolas para Crescer – alternativas radicais para os modelos educacionais vigentes]. New York: Lawrence Erlbaum.
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JAPIASSU, Ricardo (2005) Culturalismo: uma abordagem multirreferencial ao desenvolvimento humano. Revista Educação e Contemporaneidade. Salvador: Uneb. v.14, n.24, jul-dez, pp. 272-274 [Resenha de COLE, Michael & COLE, Sheyla. O desenvolvimento da criança e do adolescente. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2004. 800 p.]
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PAVIS, Patrice (2001) Dicionário Crítico de Teatro. São Paulo: Perspectiva.
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VIGOTSKI, L. S. (2003) Psicologia Pedagógica – Edição comentada por Guillermo Blanck. Porto Alegre: ArtMed.
(1) Eidético, do grego eidos ou essência. Campo de objetividade que não pode ser extrapolado por qualquer empreendimento de natureza formal.
(2) As tecnologias para captura e registro de interações entre humanos (vídeo, filme entre outros recursos audiovisuais) contribuiram muito para a colaboração de saberes sobre o psiquismo humano no âmbito da pesquisa experimental (particularmente as observações participantes) mas existem críticas aos resultados obtidos em razão de sua natureza narrativa ou interpretativa. Cf. HOLZMAN, L. (1997) The Child-Social and Related School for growth – radical alternatives to current educational models [Escola para crescer – Alternativas radicais para os modelos educacionais vigentes]. New York: Lawrence Erlbaum, pp.31-35, p.31.
(2) As tecnologias para captura e registro de interações entre humanos (vídeo, filme entre outros recursos audiovisuais) contribuiram muito para a colaboração de saberes sobre o psiquismo humano no âmbito da pesquisa experimental (particularmente as observações participantes) mas existem críticas aos resultados obtidos em razão de sua natureza narrativa ou interpretativa. Cf. HOLZMAN, L. (1997) The Child-Social and Related School for growth – radical alternatives to current educational models [Escola para crescer – Alternativas radicais para os modelos educacionais vigentes]. New York: Lawrence Erlbaum, pp.31-35, p.31.
(3) FULANI, L. & NEWMAN, F. (2011) Let’s Pretend - Solving the Educational Crisis in America: A Special Report. New York: AllStarsProject [Pdf copy]: www.allstars.org
(5) O efeito teatral de estranhamento ou distanciamento, por sua aparência absurda e pouco habitual, explicita seu caráter artificial “de(s)cnnstruindo” a naturalização de artefatos culturais. Explicitado originalmente por Meyerhold e desenvolvido cenicamente por Bertold Brecht. Cf. PAVIS, Patrice (2001) O Efeito de Estranhamento Dicionário Crítico de Teatro. São Paulo: Perspectiva, p.119.
(6) For the crisis in learning is equally a crisis in development, and without addressing the extent to which schools, educational models, and the psychology on which they are based are antidevelopmental – by vitue of their adherence to epistemology and a knowing paradigm – I do not think reform efforts can succeed. Cf.HOLZMAN, L. (1997) Why development? Schools for growth – radical alternatives to current educational models [Escolas para crescer – Alternativas radicais para os modelos educacionais vigentes]. New York: Lawrence Erlbaum, pp.15-19, p.19.
(10) if kids are underdeveloped, they do not become learners (p.2); These children must be helped to grow (develop) if they are ever to begin the learnig process and to function in the same classroom environment as the more developed children (p.5)
(11) HOLZMAN, L. (1997) Schools for growth – radical alternatives to current educational models [Escolas para crescer – Alternativas radicais para os modelos educacionais vigentes]. New York: Lawrence Erlbaum.
PALAVRAS DO CRUCIFICADO (5)
(3) TERCEIRA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
A mulher adúltera
Um grupo de homens fariseus trazem à força, pelos cabelos, uma mulher apavorada e completamente desnuda.
Primeiro Fariseu
Esta mulher foi surpreendida pelo marido praticando adultério à luz do dia!
Um dos fariseus cospe indignado no rosto da mulher. A mulher fecha os olhos e permanece em silêncio, imobilizada pelos fariseus.
Segundo Fariseu
(Indignado) Mestre, esta vadia foi apanhada em flagrante pecado!
Terceiro Fariseu
Segundo a Lei que nos deixou Moisés mulheres assim devem ser apedrejadas!
O coro de fariseus refirmam em algazarra o que disse o terceiro fariseu. Soltam a mulher mantendo-a encurralada. A mulher humilhada, de cabeça baixa, procura cobrir os seios e partes íntimas com as mãos enquanto tenta escapar inutilmente dos abusos do grupo de homens.
Primeiro Fariseu
E o Senhor, Mestre, o que tem a nos dizer?
Jesus, sem deixar de escrevinhar na areia, permanece em silêncio.
Segundo Fariseu
O senhor não vai nos responder?
Jesus pára de escrevinhar e volta-se para os fariseus.
Jesus
Aquêle que dentre vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.
Soam pandeiros, matracas, cabuletês e caxixis. Os fariseus se entreolham perplexos e, acusados pela própria consciência, retiram-se um a um em silêncio. Jesus e a mulher permanecem em cena. A mulher mantem-se de cabeça baixa, trêmula. Jesus percebendo que os seguidores e fariseus se afastaram, retira o próprio manto e aproxima-se da mulher humilhada.
Jesus
(Cobrindo-a com o seu manto) Mulher, onde estão os seus acusadores?
Mulher Adúltera/Madalena
(Com temor) Eles se foram, Senhor.
Jesus
Algum deles lhe condenou?
Mulher Adúltera/Madalena
Não, meu Senhor.
Jesus
Nem eu tampouco a condeno.
Mulher Adúltera/Madalena
(Atirando-se de joelhos aos pés de Jesus e abraçando-lhe as pernas) Obrigada Senhor!
Jesus
(Segurando-lhe o braço e ajudando-a a erguer-se) Levanta e vai sem medo.
Mulher Adúltera/Madalena
Obrigada Jesus. Muito obrigada.
Jesus
Segue o seu caminho em paz e procure não mais pecar.
Mulher Adúltera/Madalena
Sim, meu Senhor.
Madalena deixa a cena apressada, reverenciando-o. Música Isaac. A mulher Adúltera/Madalena eleva os braços para os céus dando glórias a Deus abrindo o manto sobre suas costas. Uma dançarina surge agachada após a passagem do manto sobre seu corpo. Madalena sai de cena; o manto fica agora nas mãos da dançarina. A dançarina performa coreografia com o manto/burca que foi ofertado por Jesus a Madalena. Escuro.
A mulher adúltera
Um grupo de homens fariseus trazem à força, pelos cabelos, uma mulher apavorada e completamente desnuda.
Primeiro Fariseu
Esta mulher foi surpreendida pelo marido praticando adultério à luz do dia!
Um dos fariseus cospe indignado no rosto da mulher. A mulher fecha os olhos e permanece em silêncio, imobilizada pelos fariseus.
Segundo Fariseu
(Indignado) Mestre, esta vadia foi apanhada em flagrante pecado!
Terceiro Fariseu
Segundo a Lei que nos deixou Moisés mulheres assim devem ser apedrejadas!
O coro de fariseus refirmam em algazarra o que disse o terceiro fariseu. Soltam a mulher mantendo-a encurralada. A mulher humilhada, de cabeça baixa, procura cobrir os seios e partes íntimas com as mãos enquanto tenta escapar inutilmente dos abusos do grupo de homens.
Primeiro Fariseu
E o Senhor, Mestre, o que tem a nos dizer?
Jesus, sem deixar de escrevinhar na areia, permanece em silêncio.
Segundo Fariseu
O senhor não vai nos responder?
Jesus pára de escrevinhar e volta-se para os fariseus.
Jesus
Aquêle que dentre vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.
Soam pandeiros, matracas, cabuletês e caxixis. Os fariseus se entreolham perplexos e, acusados pela própria consciência, retiram-se um a um em silêncio. Jesus e a mulher permanecem em cena. A mulher mantem-se de cabeça baixa, trêmula. Jesus percebendo que os seguidores e fariseus se afastaram, retira o próprio manto e aproxima-se da mulher humilhada.
Jesus
(Cobrindo-a com o seu manto) Mulher, onde estão os seus acusadores?
Mulher Adúltera/Madalena
(Com temor) Eles se foram, Senhor.
Jesus
Algum deles lhe condenou?
Mulher Adúltera/Madalena
Não, meu Senhor.
Jesus
Nem eu tampouco a condeno.
Mulher Adúltera/Madalena
(Atirando-se de joelhos aos pés de Jesus e abraçando-lhe as pernas) Obrigada Senhor!
Jesus
(Segurando-lhe o braço e ajudando-a a erguer-se) Levanta e vai sem medo.
Mulher Adúltera/Madalena
Obrigada Jesus. Muito obrigada.
Jesus
Segue o seu caminho em paz e procure não mais pecar.
Mulher Adúltera/Madalena
Sim, meu Senhor.
Madalena deixa a cena apressada, reverenciando-o. Música Isaac. A mulher Adúltera/Madalena eleva os braços para os céus dando glórias a Deus abrindo o manto sobre suas costas. Uma dançarina surge agachada após a passagem do manto sobre seu corpo. Madalena sai de cena; o manto fica agora nas mãos da dançarina. A dançarina performa coreografia com o manto/burca que foi ofertado por Jesus a Madalena. Escuro.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
PALAVRAS DO CRUCIFICADO (4)
(2) SEGUNDA MOVIMENTAÇÃO DE PERSONAGENS
O sermão das Bem-Aventuranças
Jesus
(Ficando em pé sobre o dispositivo cênico pivô de pedra) Bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos Céus! (Os seguidores aglomeram-se ao redor de Cristo) Felizes todos os que choram porque eles serão consolados (Os seguidores entreolham-se) Santificados os mansos porque herdarão a terra.
Coro de Homens Seguidores de Jesus
Aleluia!
Jesus
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia.
Coro de Homens Seguidores de Jesus
Amém!
Jesus
Felizes todos os limpos de coração, porque verão à Deus. Santificados sejam os perseguidos por causa da justiça dos homens, porque deles é o Reino dos Céus!
Burburinho entre os seguidores. O coro de atores performa Sermão do Bom Ladrão.
Coro de Atores
O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam (...), são os ladrões de maior calibre e da mais alta esfera, os quais debaixo de mesmo nome e do mesmo predicamento distingue-se muito bem (...) Não são só ladrões (...) os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a adminstração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros, quando furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam!
Jesus
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.
O coro performa Monólogo ao pé do ouvido/Bantitismo por uma questão de classe.
Coro de Atores
Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata! Viva Sandino! Antônio Conselheiro
Todos os panteras negras
Lampião sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia:
Há um tempo atrás se falava em bandidos
Há um tempo atrás se falava em solução
Há um tempo atrás se falava em progresso
Há um tempo atrás que eu via televisão
Galeguinho do choque não tinha medo, não tinha
Não tinha medo da perna cabeluda
Biu do olho verde fazia sexo, fazia
Fazia sexo com o seu alicate
Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela
A polícia atrás deles e eles no rabo dela
Acontece hoje
Acontecia no sertão
Quando um bando de macaco perseguia lampião
E o que ele falava outros hoje ainda falam
“Eu carrego comigo coragem, dinheiro e bala”
Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente
E quem era inocente hoje já virou bandido
Para poder comer um pedaço de pão todo fodido
Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe!
Rumoroso tumulto no coro seguido de um longo silêncio. Jesus caminha sozinho pela praia; colhe um graveto no chão e passa a rabiscar na areia com ele.
O sermão das Bem-Aventuranças
Jesus
(Ficando em pé sobre o dispositivo cênico pivô de pedra) Bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos Céus! (Os seguidores aglomeram-se ao redor de Cristo) Felizes todos os que choram porque eles serão consolados (Os seguidores entreolham-se) Santificados os mansos porque herdarão a terra.
Coro de Homens Seguidores de Jesus
Aleluia!
Jesus
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia.
Coro de Homens Seguidores de Jesus
Amém!
Jesus
Felizes todos os limpos de coração, porque verão à Deus. Santificados sejam os perseguidos por causa da justiça dos homens, porque deles é o Reino dos Céus!
Burburinho entre os seguidores. O coro de atores performa Sermão do Bom Ladrão.
Coro de Atores
O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam (...), são os ladrões de maior calibre e da mais alta esfera, os quais debaixo de mesmo nome e do mesmo predicamento distingue-se muito bem (...) Não são só ladrões (...) os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a adminstração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros, quando furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam!
Jesus
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.
O coro performa Monólogo ao pé do ouvido/Bantitismo por uma questão de classe.
Coro de Atores
Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata! Viva Sandino! Antônio Conselheiro
Todos os panteras negras
Lampião sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia:
Há um tempo atrás se falava em bandidos
Há um tempo atrás se falava em solução
Há um tempo atrás se falava em progresso
Há um tempo atrás que eu via televisão
Galeguinho do choque não tinha medo, não tinha
Não tinha medo da perna cabeluda
Biu do olho verde fazia sexo, fazia
Fazia sexo com o seu alicate
Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela
A polícia atrás deles e eles no rabo dela
Acontece hoje
Acontecia no sertão
Quando um bando de macaco perseguia lampião
E o que ele falava outros hoje ainda falam
“Eu carrego comigo coragem, dinheiro e bala”
Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente
E quem era inocente hoje já virou bandido
Para poder comer um pedaço de pão todo fodido
Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe!
Rumoroso tumulto no coro seguido de um longo silêncio. Jesus caminha sozinho pela praia; colhe um graveto no chão e passa a rabiscar na areia com ele.
JACI
Como criança
ansiosa por entrar em cena
meteu a cara rasgando uma fenda
na cortina azulada em negrito da abóbada celeste
Não havia estrela alguma à vista
Sua face límpida arredondada larga e alva
de brilho incandescente
revelou olhos curiosamente arregalados
para o mundo do qual era prisioneira em órbita
por irresistível atração
Nada disse
Guardou para si
as impressões do que percebeu naquele instante
e logo abriu
majestosa e veladamente
um denso leque de fumaça
cor de chumbo
para dissolver-se no silêncio das nuvens
Impassível desapareceu altiva sem dar as costas
por entre a obscura coxia sideral
retornando às sombras abissais do infinito cósmico
como lágrima evaporada que não deixa rastro
O privilégio de crer por um momento
na lunática visão noturna
deu-me um gosto incontido e volátil de sal
que me secou a boca
sábado, 19 de março de 2011
ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (38)
O nono e últlimo capítulo intitula-se Wittgenstein, Vigotskii e o Entendimento Performáticocultural da Vida Humana [Wittgenstein, Vygotsky, and a Cultural-Performatory Understanding of Human Life]
subdivindo-se em três grandes itens Wittgenstein, Vigotskii [Vygotsky] e Formas de Vida e Formas de Alienação [Forms of Life and Forms of Alienation].
Os autores iniciam o capítulo relembrando que tanto Wittgenstein quanto Vigotskii estiveram empenhados na revisão crítica dos paradigmas científicos disponíveis no tempo em que viveram buscando expressar seu descontentamento com os procedimentos metodológicos, instrumental epistemológico e vieses dos métodos empregados para o conhecimento da atividade tipicamente humana. Afirmam que o descontentamento de ambos (Wittgenstein e Vigotskii) com os modos de pensar a colaboração de conhecimentos acerca da vida humana é o que os aproximou (os autores) da concepção vigotskiana do desenvolvimento e da filosofia da linguagem wittgensteiniana.
No item Wittgenstein Holzman&Newman mencionam o artigo que publicaram em Prática - Revista de Psicologia e Economia Política intitulado Um Novo Método para Nossa Loucura [A New Method to Our Madness] como exposição inaugural de suas opiniões críticas acerca das práticas hegemônicas da clínica terapêutica.
Reiteram que os escritos de Wittgenstein publicados entre 1919 e 1950 viraram a filosofia ocidental de ponta cabeça e expõem uma breve biografia deste pensador austríaco destacando sua aproximação inicial do pensamento antisemita, protonazista e homofóbico de Otto Weininger posteriormente revista autocriticamente pelo próprio Wittgenstein.
Revelam que o Wittgenstein maduro expressou sem temor seus tormentos por sua homossexualidade, origem judaica e a rigidez moral infligida pela vida profissional acadêmica em Cambridge, Inglaterra - onde atuou como notável representante dos interesses da burguesia e aristocracia intelectual européia.
Esclarecem que logo após a publicação de seu Tratado Lógico-Filosófico (discutido no capítulo terceiro) o próprio Wittgenstein teria sido o primeiro a reconhecer seu dogmatismo e equívocos conceituais tendo repudiado suas ideias ali divulgadas – algo que pode ser constatado, por exemplo, ao se conferir o prefácio à sua obra póstuma Investigações Psicológicas [Psychological Investigations] ou a biografia dele elaborada por Monk intitulada O Preço do Gênio [The Duty of Genius], publicada em 1990.
Informam que a filosofia antifilosófica de Wittgenstein da fase tardia lhes forneceram importantes subsídios para formularem sua abordagem clínica performáticocultural à vida emocional das pessoas. Revelam que a denúncia de Wittgenstein de que somos todos pessoas doentes e de que grande parte do que nos faz doentes é o modo como pensamos teria repercutido intensamente neles impactando seus modos de conceber a clínica.
Isso teria oportunizado a emergência de ânimo renovado na busca por novos ângulos para o olhar autocrítico-reflexivo a respeito de suas próprias práticas clínicas e os conduziu a libertarem-se da sobredeterminação de representações sociais ou semblantes (cadeias de significados aos quais nos apegamos de modo muitas vezes não consciente) desconectando o pensamento do processo histórico e cultural de fetichização (naturalização) das concepções mais cotidianas e predominantes da linguagem - que absolutamente descartam a problematização ideológica de sua dimensão signitiva ao reforçarem sua função comunicativa ou referencial, denotativa.
Wittgenstein e seu pensamento revolucionário, afirmam os autores, os auxiliaram a conceber a linguagem - o processo de produção da linguagem - como fenômeno que não se submete a nenhuma regra “oficialmente” deliberada – embora isso seja em geral aceito sem objeção pelas pessoas.
Encerram o subitem reafirmando seu compromisso com a de(s)construção da sobredeterminação fetichista (naturalizante) da linguagem e da linguagem científica em particular para revelar a extensão de submissão do pensamento das pessoas comuns a noções, assertivas e pressuposições ideologicamente contaminadas por relações assimétricas de poder tendo em vista o controle social massificado de seus modos de ser e pensar.
Com este objetivo de(s)construtivo instituíram a abordagem clínica performáticocultural como útil à uma prática terapêutica pós-modernista que ambiciona a retomada do fluxo do desenvolvimento humano, paralizado pela estática aristotélica (pré-condição do pensamento científico modernista).
No subitem Vigotskii [Vygotsky] expõem de modo abreviado a biografia do eminente psicólogo judeu bielo-russo destacando seu papel decisivo na fundamentação do pensamento filosófico marxistamodernista. Porém, conseguem identificar a gênese das abordagens contemporâneas ao psiquismo humano em suas ideias de inspiração marxiana particularmente quando este propõe o entendimento do método marxistamodernista (instrumento-para-resultado) como ferramenta e produto do estudo permanentemente atualizado (instrumento-e-resultado) lançando as bases teórico-práticas para a posterior colaboração de uma genuina epistemologia pós-modernista.
Revelam que o denso estudo do pensamento vigotskiano os levou a compreender a metáfora da zona de desenvolvimento proximal – que refere a epistemologia pós-modernista – como o lugar da vida sendo vivida inseparavelmente dos modos de ser e pensar das pessoas. Consideram que a permente atualização das práticas no instante em que são vividas produzem o ambiente sócio-históricocultural no qual os seres humanos colaboram, organizam e reorganizam suas relações uns com os outros e com o mundo natural, ou seja: a vida humana propriamente dita tomada simultaneamente “em si” e “para si.”
Reafirmam que as ideias de Vigotskii e Wittgenstein se fortalecem ao serem reunidas na síntese que propõem e passam a detalhar, nos subitens subsequentes, como ocorre seu aproveitamento na abordagem clínica performáticocultural criada por eles.
No subitem Cultural Não Cognitivo [Cultural Not Cognitional] ressaltam que tanto Wittgenstein quanto Vigotskii revelam as pressuposições e assertivas ideológicas que caracterizam a metafísica subjacente à filosofia e ciência hegemônicas ocidentais mas que Wittgenstein é mais enfático ao caracterizar a “metafisicalização” como “doença”, e o papel que a linguagem reificada tem no processo de mascaramento das relações assimétricas de poder nos mecanismos para controle cognitivo ou “paralização” do pensamento.
Segue-se a problematização de resultados de pesquisas pós-vigostianas que, do ponto de vista dos autores, permanecem fiéis ao “credo” cognitivista (racionalista-modernista) por não conseguirem ir além do “interpretativismo” dos jogos de linguagem em interações entre sujeitos com diferentes níveis de imersão cultural.
Seguem dando maior visibilidade aos fundamentos de sua abordagem provocativa no próximo subitem intitulado Visões acerca do Vocabulário da Mente [Views on the Vocabulary of the Mind].
Neste trecho do capítulo os autores distinguem dois tipos de visão nos descritores verbais da mente: a visão pictórica e a pragmática. A pictórica sendo fundamentalmente referencial sustentatia a clínica psicoterápica na qual o terapeuta apóia o sujeito na descrição de seus estados mentais internos procurando possibilitar uma descrição convincente, coerente e o mais honesta possível de seus estados emocionais. Neste tipo de clínica o terapeuta atribui a condutas não normativas rótulos padronizadores que “tranquilizam” o sujeito e seus familiares numa espécie de transcrição para o vocabulário especializado oficial da área de saúde mental.
Esclarecem que este tipo de clínica diagnóstica tem sido alvo de severas críticas embora seja o modo predominante dos tratamentos terapêuticos baseados na escuta dos depoimentos verbais do sujeito. Destacam o pioneirismo de Wittgenstein na objeção a este tipo de “preenchimento signitivo” da fala dos sujeitos por parte dos terapeutas e a apropriam-se de sua promissora noção de jogo de linguagem por parte de adeptos da visão pragmática – que destacam o uso instrumental de palavras em circunstâncias sociais específicas para o alcance do sentido “verdadeiro” do que é dito.
Em resumo, tanto a visão pictórica – uso signitivo referencial de palavras - quanto a visão pragmática ou metapiscológica - usos sociais específicos de palavras – seriam, na opinião dos autores, insuficientes para revelar a impregnação ideológica reificadora ou naturalizante da linguagem. Para eles, apenas a vida sendo vivida de modo relacional atualizado (performático) é capaz de movimentar os processos de colaboração de significação nos usos da linguagem. Relembram-nos a atualidade da assertiva vigotskiana de que o pensamento não pode ser totalmente expresso em palavras; que elas (as palavras) apenas o completam.
Finalizam o subitem destacando o posicionamento vigostkiano-wittgensteiniano radicalmente contrário à visão cartesiana de adesão do referente (signo) à realidade objetal referida (objeto).
No subitem Performando a Diagnose [Performing Diagnosis] revelam que a Psicologia amparada na adesão do referente ao referido tornou-se o “paraíso” para a alienação (separação do produto do seu processo de produção) e que a Diagnose Clínica e seus artefatos para classificação padronizada “oficial” converteu-se no “trono celestial” sob o qual assenta-se a terapêutica tradicional.
Explicam que a escuta nos grupos de terapia social não tomam os enunciados como verdadeiros ou falsos; que eles são considerados falas de um roteiro improvisado (à moda da commedia dell’arte) colaborado poeticamente por todos; que não existem respostas a serem encontradas; que os terapeutas e demais membros do grupo não se encontram em busca de conhecimento; que o diagnóstico é performado colaborativamente de modo provisório não punitivo, não estigmatizante, não constrangedor, não autoritário.
Finalizam o subitem esclarecendo que estão convencidos de que, para eles, não é o diagnóstico que faz mal, mas é a sua suposta “verdade” alienada, autoritária, privada - advogada pela padronização classificadora da Psicologia Hegemônica - que gera grande sofrimento e dor.
Passam a expor o último item do capítulo intitulado Formas de Vida e Formas de Alienação [Forms of Life and Forms of Alienation] no qual definem a Psicologia Científica como o processo de mercantilização da subjetividade humana denunciando a “bruxaria” modernista como responsável por seu encantamento e exortação à adesão “alienada” aos valores capitalistas.
Denunciam que as supostas abordagens clínicas “científicas” ao tratamento da saúde mental desumanizam o sujeito por convertê-lo em um repositório bioquímico e um joguete para se obter remuneração com base na classificação de sua “enfermidade” conforme a padronização medicalizante para as “desordens” de comportamento (formas de ser não normativas).
Consideram indecente a aplicação grosseira do modelo epistêmico científico para entendimento da dimensão relacional da vida humana sendo vivida.
Retomam a noção wittgensteiniana de “formas de vida” para referir a dimensão paradoxal e dialética do ser humano capturado por formas de alienação no mundo capitalista para em seguida propor um programa de alerta para as armadilhas da alienação no mundo contemporâneo:
(1) Apoiar a organização e reorganização continuada da atividade relacional;
(2) Encorajar toda e qualquer atuação (performance) em favor da democratização não coercitiva, não opressora;
(3) Persistir na conversão das formas de alienação em formas de vida.
Finalizam o livro e sua exortação à prática de abordagens performáticoculturais na clínica psicoterápica advertindo que a criação de condições para emergência de formas de vida não suprime as formas de alienação porém altera radicalmente a relação das pessoas no mundo em que estas últimas são encontradas.
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