quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ANTILEXtranz (3)

ANTILEXtranz
A sombra do enigma
Drama solene trágico baseado no mito pagão Antígona

                                               
PRIMEIRA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

PRÓLOGO EM KOMMÓI



        Ruinas de Teatro Romano na Síria. Ao centro da arena um altar de pedra sobre o qual está um bode preparado para o sacrifício iluminado por piras e perfumado por nuvens de incenso. De uma das portas localizada no piso térreo do teatro (platéia), em passarela perpendicular ao centro do proscênio, adentra um cortejo tendo a frente Cornélius que carrega solenemente sobre as duas mãos uma adaga. É seguido pelo coro de fiéis que entoa um canto lamentoso (kommói) atrás do qual estão vários xoquerês (percusionistas) e Axogum. Encerrando o desfile um grupo de dançarinos. Percussão mágico-religiosa durante o deslocamento do cortejo até a chegada de Cornélius ao altar.


Cornélius
Salve Capri, nosso deus e totem!
Coro de Fiéis/Cidadãos da Síria
Salve!
Cornélius
Sagrado Capra, desbravador de caminhos, humildemente lhe suplicamos aceitar nossa oferenda!
Coro de Fiéis/Cidadãos da Síria
Poderoso Capra, aceitai nossa oferenda!
Cornélius
Escutai nosso clamor na voz da sua cornucópia sagrada! (Sinaliza para Cornúpeto tocar a cornucópia)

        Cornúpeto toca a cornucópia [berrante de chifre]. Fiéis aproximam-se do animal a ser sacrificado que berra plangente. Cornélius eleva a adaga sinalizando para que se dê a aproximação de Axogum.

Cornélius
(Para Axogum) Eis aqui o inocente apartado para o sacrifício e a adaga para sangrá-lo! (Em direção aos céus) A ti ó grande Capra entregamos a vida que corre em nossas veias representada pelo sangue que jorrará quente do pescoço do imolado...

        Novo toque da cornucópia. Percurssão solene. Cornélius sinaliza para diáconos [assistentes do sacerdote] que o atendem prontamente imobilizando o animal sobre o altar. Axogum sacrifica-o. O animal estremece e Cornélius apara-lhe o sangue em uma cabaça que traz junto à estola que lhe serve de cinto. O animal deixa de estremecer. Soam xoquerês freneticamente. Cornélius eleva o sangue do animal aos céus e o bebe deixando-o escorrer sobre o peito. Alguns fiéis caem ao solo tomados por tremores incontroláveis. Saudações exaltadas do coro de fiéis ao deus Capra. Instala-se o transe.

Escuro lento.


ANTILEXtranz (2)

Título
Antilextranz A sombra do enigma

Autor
Ricardo Ottoni

Gênero
Drama solene trágico a partir do mito pagão Antígona baseado nas versões de Sófocles, Brecht e Jean Anouille
Enredo
Nobre andrógino desfia a ordem políticosocial e a Lei movido por força mística cumprindo destino inexorável.









Personagens (Por ordem de entrada em cena):



CORNÉLIUS – Zelador-Sacerdote líder do Coro de seguidores de Capra

CORO DE FIÉIS SEGUIDORES DE CAPRA -  Cidadãos sírios/combatentes e curiosos

CORNÚPETO – Arauto/Tocador de cornucópia [Berrante]
XOQUERÊS DO CULTO A CAPRA – Percussionistas integrantes do Coro
AXOGUM - Sacrificador do culto a Capra
DANÇARINOS DO CORTEJO DE CAPRA


MENSAGEIRO – Maratonista/correio
BÔCA – Assessor de confiança do Rei

SERVIÇAL DO PALÁCIO
CRIADA DO PALÁCIO
CAPRUS CREONTE – Rei da Síria/Imperador do Egito
YRMA – Enteada caçula do Rei

ANTILEXEnteada(o) mais velha(o) do Rei

fedra – Eunuco de confiança do(a) príncipe-princesa Antilex

electra – Eunuco de confiança do(a) príncipe-princesa Antilex

Séquito de eunucos

ANTILEXtranz (1)

ANTILEXtranz
A sombra do enigma


HERMAFRODITA – Acrílico s/seda 148X80 (1991) Clóvis Irigaray




Ricardo Ottoni

DRAMATURGIA EM PEDAÇOS APRESENTA ANTILEXtranz

O próximo texto dramático a ser veiculado por OBSERVE será
ANTILEXtranz de Ricardo Ottoni


PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS...
Sobre Antilextranz


Pode parecer estranho e deselegante falar sobre o próprio processo criador, algo incômodo - porque pode ser tomado por falta de modéstia ou arrogância estética.

O temor da opinião dos outros tem poder de paralizar e até calar a expressão deste Outro que também sou em mim. Mas, como um cão danado rosnando errático, quero falar para eu mesmo sendo Outro de mim.

Depois do frêmito criador movido pela Sombra, que anima os processos de transposição dos afetos em palavras, imagens e demais meios de expressão; de todo o movimento que busca aliviar a catexia para que haja escape da intensidade da energia psíquica - nem sempre consciente - ocorre a sensação de alívio pela purgação, pela desobstrução do que está represado.

Dá-se então o espanto adiado pelo estranhamento dos resultados do sopro involuntário da criação; o deparar-se com a presença do desconhecido em mim que é Outro. Isso vai solicitar a reconstrução do que foi estilhaçado desvelando o que se encontra recalcado, encoberto por signos com o trabalho criador. Inicia-se uma busca incansável por vestígios do que não pode ser totalmente explicado pela ação da consciência.

No estranhamento do que foi criado há uma espécie de apelo introspeccionista, consciente, para apercepção ou reflexão durante e após as ações praticadas sob influência da Sombra em mim e conseqüentemente a apreciação estética do que foi executado pelo Outro que sou.

Um evento traumático envolvendo o comércio do túmulo onde jazia um ente querido e a descoberta desta ação sem que houvesse o meu consentimento nem o de outros muito próximos da pessoa falecida é o que acredito tenha desencadeado a necessidade de recorrer ao Mito Antígona - por identificação com o caráter ao qual se submete esta personagem trágica. Mas devem existir outros motivos ocultos e inconfessáveis para deflagração do processo de aproximação do Trágico.

Nas tragédias clássicas a rigor não importam os sentimentos nem a vida pessoal das personagens. Seu princípio é o Mito, o que não pode ser totalmente explicado, o mistério: a tragédia da condição humana. É o Mito que põe em movimento os caracteres.

O caráter de Antígona é tudo o que revela o sentido das ações desta personagem: sua DECISÃO. Uma decisão que a leva a ser antagonista do seu tutor. Opondo-se ao protagonismo das ações do tutor, Antígona é movida pelo desejo de preservar suas tradições culturais e práticas religiosas invocando em socorro do seu agir o direito de exercê-las pela crença absoluta em rígidas obrigações morais e no dever de providenciar os ritos fúnebres dos irmãos mortos um ao outro em combate fratricida. No percurso do transe que a levará da infelicidade à felicidade paradoxalmente desencadea seu contrário. Um movimento de duplo sentido numa mesma direção que causa espanto, medo, terror e piedade a todos que assistem ao pathos e a vivência de suas ações movidas simultaneamente contra o tio e contra si mesma pela Sombra.

Não por acaso optei por recontar o Mito Antígona atribuindo-lhe um “terceiro sexo.” A condição ambígua dos seres andróginos me pareceu sedimentar as contradições presentes na ousada determinação da personagem em optar simultaneamente pela invaginação e recusa do falo masculino. Na condição de “castrado” o príncipe eunuco Antilex frustra o ímpeto invasivo do seu tio e reitor Caprus Creonte recusando a expansão do imperialismo fálico tebano do qual é também legítimo representante.

As razões que levam Antígona a atuar do modo como se apresenta na argumentação do Mito é um enigma; é a Sombra que põe em ação todos os enigmas porque constitui o Mistério inaugural e absoluto. Aí está a universalidade da TRAGÉDIA: o fundamento místico da vida de todos os seres animados.

Comecei a pensar sobre o apelo que o Mito Antígona exerceu em todos que ousaram recontá-lo ao longo dos séculos através da escrita dramática fixando-o na memória cultural da humanidade, fora e dentro de todos: Sófocles, Brecht, Anouille... Mas não esqueci da narrativa de anônimos contadores que investiram e permanecem investindo na oralidade para a revivescência dos Mitos, daquilo que não pode ser totalmente explicado pela Razão.

Aproveitando os registros iconográficos de informações visuais e escritas do que chegou até a contemporaneidade sobre as práticas do teatro trágico clássico, ousei imaginar como seria a recontação deste Mito aproveitando a estrutura dramática da tragédia grega. Uma liberdade que me permiti pela inexistência de registros áudio-visuais de como eram os espetáculos nos antigos teatros gregos e romanos dos quais, hoje, só restam ruínas.

O que se diz ou se pode saber sobre a espetacularidade cênica clássica é especulação: fruto da imaginação; ou da reconstrução de uma prática que não foi efetivamente vivenciada por ninguém exceto pelos autores dos escritos sobre a atividade artístico-cultural do Estado na antiguidade.

Aproveitando a oportunidade que o silêncio e o “apagão” a respeito das práticas cênicas da antiguidade oferece à imaginação recriadora e também encorajado pela ousadia de Shakespeare, que recontou e criou argumentos trágicos rompendo radicalmente com a indefectível estrutura da dramaturgia clássica prescrita por Aristóteles em sua Poética, senti-me no direito de apresentar o Mito Antígona tentando resgatar o conhecimento sobre a cena na antiguidade – que, de algum modo sobrevive ainda em práticas teatrais de atores e famílias de gente de teatro que há muitas gerações vêm se dedicando a manter vivo modos tradicionais de atuação e de uso do palco clássico. Saberes práticos e “técnicos” a respeito da estética cênica que influenciam ainda manuais e recomendações para encenação em palcos “italianos” desenvolvidos a partir do formato original do edifício teatral grecoromano.

A não encenação de um texto dramático abre espaço para o trabalho (re)criador não só por parte do público afeiçoado pela literatura dramática mas também de todo pessoal eventualmente enredado em empreendimentos teatrais, de artistas cênicos profissionais, amadores e técnicos de palco.

O argumento do Mito conforme é contado em ANTILEXtranz poderia sem dificuldade ser decalcado sobre uma disputa por território entre facções rivais de traficantes pelo poder nos “morros” cariocas, por exemplo. As possibilidades que se abrem com a encenação de um texto dramático são muitas.

Hoje, confesso, por estar em tratamento médico, ter receio de empreender esforços para a encenação de textos dramáticos em razão de estes solicitarem o emprego de grande energia física e encontros presenciais que podem por em risco minha integridade orgânica já abalada há algum tempo por uma imunodepressão crônica.

Evitar grande concentração de pessoas nas minhas atuais condições de saúde é uma recomendação médica que auxilia na terapêutica a que tenho sido submetido - por me poupar o enfrentamento de situações eventualmente hostis ao meu organismo.

A impressão que tenho hoje é a de uma ausência de disposição das pessoas em geral para pensar sem pressa e desapaixonadamente sua vida social através das Artes e de um recrudescimento da intolerância para com a liberdade de expressão através das diferentes formas da comunicação estética.

Muitos acreditam que a representação cênica de um assassinato, estupro ou abuso sexual e de drogas exorta as pessoas à essas práticas condenáveis. Insistem em não aceitar que as relações entre as Artes e a Realidade Social são complexas, que a existência do signo artístico difere da existência da vida dos seres animados através dele apresentados e re(a)presentados.

Optam deliberadamente por desconhecer os fundamentos estéticos da atividade artística não por falta de instrução mas por se sentirem ameaçados pelo o que os objetos artísticos podem revelar sobre o íntimo da natureza humana, por provocarem seu questionamento, por tudo o que pode ser revelado ou ocultado a respeito de todos e cada um de nós.

Sinto haver grande receio das pessoas em se ocuparem de pensar a tragédia do viver humano em um mundo onde não há alternativa possível ao consumo voraz. Mas deve haver outros modos de escapar desse estado de coisas que não seja o humor imbecilizado ou a fuga eufórica e desesperada pela vertigem do prazer fulgaz e da alegria passageira alucinógena. Na tentativa de evitar a contemplação de nossos horrores mais íntimos, quebrar o “espelho” da vida social não será suficiente jamais para apagar a imagem terrível e repugnante dos modos mais abjetos do ser humano quando estes são despudoradamente abordados pelo discurso da comunicação estética através de enunciados complexos que podem provocar Sombra sobre toda objetividade cientificista que se pretende conhecimento a respeito das “leis” que regulam o “sucesso” no mercado das Artes

Sem pretender nada mais além do que exercer o direito inalienável de inserir-me nos movimentos dialógicos subjacente à curadoria educativa em Artes Cênicas apresento-lhes sem receio o Mito Antígona como me foi autorizado contá-lo em nome da Sombra.

Não temamos os espasmos causados pelo pânico do silêncio sobre a escuridão gerados pela Tragédia.

SOPÃO COM LETRAS DE MACARRÃO - Réquiem pelo ENEM

Acreditar que “no bucho do analfabeto letras de macarrão fazem poema concreto”; que isso é verdadeira Poesia significa declarar adesão ao “estado de coisa” que leva à falência completa dos múltiplos aspectos da Atividade tipicamente humana.

O que se esconde por trás da beleza da construção poética na metáfora do bucho “analfabeto” cheio de letras comestíveis é a face monstruosa da existência aprisionada ao campo perceptivo material e instantâneo que resume o “consumir” ao  “poder de compra” dos suprimentos básicos para a sobrevivência do organismo. É a celebração da exclusão dos muitos que se encontram impedidos de uma formação continuada da Mente em processos de letramento signitivos mais elaborados – reservado, sabemos, a bem poucos.

Isso é indecente e inaceitável para muitos – entre os quais me incluo; porque “a gente não quer só comida” nem aceita, sem protesto, ser rotulado pela quantidade de letras indigestas que trazemos no bucho!

Vou relatar uma ocasião oportunizada pela “TV em aberto” na qual o “poder de compra” que permite acesso à uma ferramenta da  tecnologia da informação e comunicação ilustra exemplarmente a face tenebrosa do “estado de coisa” à qual me refiro aqui, ou seja, o “aprisionamento” ou “congelamento” do valor das conquistas materiais à máxima pragmatista transnacionalizada do “consumo logo existo.”

Em um programa jornalístico dedicado à crônica policial havia um “momento” no qual, em direto (ao vivo), telespectadores podiam interagir com o “apresentador” através do uso do SCAPE (tecnologia que permite interações à distância com áudio e imagem instantaneamente) – cognominado jocosamente  “iscape” (escape) pela corruptela não totalmente ingênua das classes menos fluentes nos modos “eruditos” de comunicação verbal.

Indagado em entrevista dirigida, conduzida pelo apresentador do programa, a respeito de questões abordadas pela “pauta” do dia, o telespectador, orgulhoso na exibição púbica pela TV da conquista do seu minúsculo “sonho de consumo” (PC com acesso à Internet)  revelava,  sem demonstrar constrangimento, paredes feitas de compensado do “barraco” improvisado na periferia de Salvador que lhe servia de moradia. Repetia, orgulhoso, por “domínar” o uso do Scape a mesma resposta a toda e qualquer eventual observação do apresentador:

- Com certeza!

Para quem sabe que a tecnologia em uso no barraco do telespesctador do relato é um “sonho” ainda a ser democratizado na Escola Pública, fica evidente as contradições das políticas “populistas” de acesso ao consumo e “mensuração” da “linha de pobreza” e do “aprendizado escolar” - absolutamente desconectadas de investimentos nos processos de letramento signitivos ou de formação intelectual crítica.

Choca o desperdício do uso exibicionista-voyerista da fluência no letramento informático; choca o domínio de possantes motocicletas para demonstração das habillidades acrobáticas de usuários adolescentes que desprezam o respeito ao espaço dos outros no trânsito e tráfego de veículos e pedestres...

O uso pontual do SCAPE aqui explicitado revela escapamentos e vazamentos vários da Linguagem que poderiam desencadear uma discussão proveitosa e sem urgência de variadas questões que desafiam o psiquismo humano na contemporaneidade. Mas quem tem tempo para o que não enche barriga? Quem se importa com o que não dá “lucro”?

Resta-nos ao menos regurgitar o intragável sopão com letras de macarrão que os “sabichões” e “especialistas” em Políticas Educacionais tentam sádica e sordidamente nos empurrar goela abaixo através de insistentes “regulamentações” e “normatizações” para sustentarem a legalidade de suas ações e mascararem sua incapacidade para gerir o diálogo franco entre possibilidades várias de ser “incluído” e estar no mundo de bem com as imagens, as letras e os números...

A diversidade é pedagógica, já disseram. Não somos iguais!

Nem todas as “trouxas” são leves para serem transportadas de lá pra cá... Existem “malas” mais pesadas do que nos parecem... O esquife do ENEM é sem dúvida um fardo difícil e enfadonho de ser "carregado" origatoriamente, ainda que sustentado por tantas mãos.

 Ao ENEM, Requiem aeternam dona eis.

domingo, 16 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (19)


O ítem O Ludwig Wittgenstein Maduro [The Late Ludwig Wittgenstein] conclui a primeira parte do livro. Nele os autores esclarecem que a morte de Wittgenstein por câncer,em 1951, o poupou de ter visto sua obra rotulada por John Austin de “lógico-positivista” e atrelada ao pensamento do Círculo de Viena; mas que ele sobretudo perdeu a chance de acompanhar o desenvolvimento de suas idéias por parte da crítica pós-modernista contemporânea.

A seguir buscam expor o desenvolvimento das ideias de Wittgenstein na maturidade e de como isso serviu de base para abordagens antipsicologizantes da Psicologia. Começam por afirmar que, para além da dimensão crítica facilmente constatada em sua visão sobre a Filosofia, Linguagem e Metodologia Científico-Filosófica os escritos de Wittgenstein revelam que seu discurso dirige-se para terapeutas; que suas críticas ao modo “modernista” de pensar assumem feições de  tratamento clínico não sistemático para filósofos e pessoas comuns.

Revelam que para ele [Wittgenstein] a Filosofia era a “doença” [desease], a Linguagem seu “vírus transmissor” [carrier] e a Metodolgia Científico-Filosófica o hospital dos quais a Ciência jamais desconfiou precisar ou desejou ter; que este é o assunto dos próximos capítulos do livro: como a pseudociência infectou de maneira sórdida e vergonhosa as sementes “malditas” que deram origem à Filosofia e Ciência Modernistas.

Prometem demonstrar porque Wittgenstein e Lev Vigotskii são considerados “avôs” do Pós-Modernismo e advertem que não se encontram sozinhos na defesa de seu ponto de vista, invocando o amparo da legitimidade acadêmica de um número crescente de psicólogos contemporâneos (Gergen, Jost, Shotter, van der Merwe e Voestermans) que se encontram, assim como eles [os autores], engajados no esforço de criar uma abordagem clínica assistemática, relacional e não baseada em julgamentos prévios considerados “verdades.”

Apresentam em socorro de suas idéias o pensamento provocativo de renomados acadêmicos da contemporaneidade ao redor do mundo como Derrida, Foucault, Habermas, Heidegger e seus seguidores que também se levantaram impertinentes contra a Ciência Modernista deflagrando a “revolta pós-modernista” - sufocada há meio século pela imposição hegemônica do modelo autoritário epistemológico típico do Modernismo.

Para eles [os autores] a “revolução wittgensteiniana” é tão ou mais importante que as “marxiana” e “freudiana” para o entendimento do mundo e da vida na contemporaneidade. Relatam que apenas muitos anos após sua morte [de Wittgenstein] seus seguidores póstumos tornaram acessíveis suas ideias nas universidade norte-americanas gerando uma “febre” pelo interesse em temas como a Filosofia da Mente ou Psicologia Filosófica, Filosofia da Linguagem, Lógica e Ciência.

Revelam-nos que um dos mais acalorados debates travou-se em torno da problematização da “explicação.” Que este debate teria sido longamente alimentado pelo questionamento de se haveria - e qual seria - a diferença entre a descrição das ações humanas e dos eventos não humanos.

Holzman&Newman fazem então questão de destacar o importante papel nas discussões da Academia norte-americana sobre a “explicação” desempenhado pelo ensaio A Função das Leis Gerais na História [The Function of General Laws in History] de Carl Hempel reeditado em 1965 (originalmente publicado em 1942) - no qual se defendia a aplicação da “crônica científica” indistintamente tanto à Fisica, Biologia e Química quanto à História.

Explicam que as ideias de Hempel foram retomadas por Davidson em 1980 propondo um “analiticismo neopositivista” que causou grande rebuliço e contra-ataque por parte de filósofos da mente e estudiosos da psicologia filosófica. Afirmam que começava ali a aventura da psicologia pós-moderna sóciocrítica para de(s)construção teórica da Ciência Modernista.

Para eles é na década de noventa do século passado (Século XX) que se lançam as bases para um radical desafio à Psicologia e Ciência hegemônicas. E que a impertinência pós-modernista fortaleceu-se com as produções de filósofos influenciados por Wittgenstein como o canadense William Dray e o indiano Michael Scriven - que abertamente se opuseram a Hempel e Davidson insistindo em ressaltar a dimensão metanarrativa e autoreferencial da “crônica científica”, chamando atenção para o importantíssimo papel do contexto histórico-sóciocultural na colaboração dos enunciados “científicos.”

Porém, sustentam os autores, que apesar da valiosa contribuição de Dray e Scriven para o posterior desenvolvimento do pensamento pós-moderno seu excessivo foco no contexto os impediu de problematizar a “contextualização” do contexto – algo que só a Teoria Histórico-Cultural da Atividade, inaugurada por Lev Vigotskii, em sua opinião, ousou corajosamente equacionar.

Passam a efetuar uma breve exposição da biografia de Lev Vigotskii e ressaltam que tanto ele [Vigotskii] quanto Wittgenstein não tiveram oportunidade de cotejar seus respectivos pontos de vista sobre o psiquismo tipicamente humano; que o pensamento de ambos só muito recentemente tornou-se conhecido.

Em sua opinião, Vigotskii e Wittgenstein são ambos os responsáveis pelo “sepultamento” definitivo da Psicologia Hegemônica – viva ou morta; que eles [Wittgenstein e Vigotskii] são os mentores do “atentado” devastador que tomou de assalto a Psicologia Científica - consumado por toda uma legião de “herdeiros” intelectuais, nos quais orgulhosamente se incluem. Afirmam que se há uma fábula pós-moderna a ser contada é a que eles apresentam no seu Psicologia Acientífica.

Concluem a primeira parte do livro resumindo o seu depoimento pós-modernista apresentado ao longo dos primeiros capítulos. Consideram possível que eventualmente a Ciência venha suceder a Filosofia destituindo-a do seu reinado e que a Filosofia, na contemporaneidade, é celebrada como um “monumento” a ser venerado - e uma piada; mas que até mesmo piadas podem ser mercantilizadas na cultura pragmática e monetarista da contemporaneidade porque, como se costuma dizer: “Se algo não serve para fazer dinheiro, não significa nada!” [If it don’t make no Money, it does not mean nothing (p. 53)]

Anunciam que demonstrarão na segunda parte do livro as transações que converteram a Psicologia na fábula mais vendida [best-seller] da contemporaneidade.


NOTA EM RODAPÉ

Para conhecer mais sobre as abordagens clínicas assistemáticas valeria a pena consultar TURATO, Egberto Ribeiro (2003) Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa – construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Petrópolis: Vozes.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (18)

Neste antepenúltimo item do terceiro capítulo intitulado A Breve e Infeliz Existência do Positivismo Lógico [The Short, Unhappy Life of Logical Positivism] os autores denunciam que o Círculo de Viena se formou sob a égide do Nazismo e que o positivismo lógico sustentava-se no Liberalismo. Que o positivismo lógico nada mais era do que um esforço “rude” para rever a Filosofia e torná-la enaltecedora da Ciência Moderna.

Esclarecem que o modo equivocado com o qual, em nome de Wittgenstein, o Círculo de Viena ambicionou estabelecer as regras para fundamentar logicamente todas as áreas do conhecimento teria, ao contrário de seu propósito, aberto as portas para o enriquecimento crítico da Ciência e a emergência das teses da Pós-Modernidade.

Explicam que a Teoria da Verificação tornou-se o “Sol” em torno ao qual gravitaram inúmeras teses de adeptos do positivismo lógico em busca de defesa do “atomismo” da Ciência– o reducionismo levado às últimas consequências amparado nos princípios kantianos da analiticidade e sinteticidade e em uma versão de “experimentação” neokantiana. Para os lógico-positivistas a compreensão genuína de um silogismo não poderia se dá nem a partir das “definições” tampouco a partir da “verificação” simples. Para eles uma proposição só poderia ser considerada “falsa” ou “verdadeira” se algo fosse tomado como evidência empírica.

Informam que toda essa discussão durou dos anos trinta aos cinquenta do século XX e que teria sido Quine, em 1963, quem encerrou o bate-boca ao de(s)construir os fundamentos “científicos” do lógico-positivismo (também conhecido como lógico-empirismo) com o famigerado ensaio Os dogmas do Empirismo.

Concluem o item revelando que, para eles [os autores], Gödel e Quine são os grandes marcos do pensamento pós-moderno mas que, embora seus escritos tenham influenciado pensadores conhecidos como os primeiros pragmatistas norte-americanos (James, Pierce, Dewey, Mead e Lewis entre outros), coube a Wittgenstein definitivamente sepultar o “cadáver” da Filosofia sugerindo o filosofar sem Filosofia, isto é: a atividade contínua de jogar com as palavras.

A seguir anunciam o último ítem do terceiro capitulo que encerra a primeira parte do livro: O Ludwig Wittgenstein Maduro [The Late Ludwig Wittgenstein].




ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (17)

Em O Jovem Wittgenstein e a Filosofia da Linguagem [The Early Wittgenstein and The Philosophy of Language] Holzman&Newman apresentam uma breve biografia de Wittgenstein, considerado gênio por muitos. Focalizam de modo privilegiado seu primeiro e mais conhecido escrito intitulado Tratado Lógico-Filosófico de 1921 para revelar ali forte influência do Princípio Matemático de Russel&Whitehead e adesão de Wittgenstein à tese da “logicização” da Matemática.

Explicam-nos que neste livro revela-se o interesse de Wittgenstein pelo estudo da filosofia da linguagem e que, na ocasião em que foi escrito, Gödel não havia ainda formulado o Teorema da Incompletude.

Defendem que a contribuição essencial de Wittgenstein ocorrerá muito tempo depois, quando ele se debruçar mais detidamente sobre a Linguagem como FORMA DE PENSAMENTO e não necessariamente às representações mais cotidianas de linguagem como a linguagem filosófica e outros tipos naturais ou não naturais de linguagem – a exemplo da Matemática. Consideram o Tratado de Wittgenstein, quando observado deste ponto de vista, uma relevante contribuição para o lançamento dos fundamentos de uma lógica genuinamente não aristotélica.

Esclarecem que baseados no seu Tratado discípulos de Wittgenstein, integrantes do Círculo de Viena, contemporâneo a Hitler, criaram o que se convencionou denominar de positivismo lógico, interpretando o livro como diretrizes para eliminação da metafísica e submissão da Filosofia ao serviço de “limpeza” para o progresso científico; e mais: que Wittgenstein já teria abandonado na ocasião as teses veiculadas no Tratado para dedicar-se ao serviço “sujo” de de(s)construção da Filosofia livrando-a da obsessão com a linguagem e do seus compromissos com o modo modernista de pensar.

A seguir apresentam o item A Breve e Infeliz Existência do Positivismo Lógico [The Short, Unhappy Life of Logical Positivism] no qual expõem o modo equivocado com o qual, em nome de Wittgenstein, o Círculo de Viena ambicionou estabelecer as regras para fundamentar logicamente todas as áreas do conhecimento.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (16)

No ítem Lógica Relacional ou Funcional [Relational or Functional Logic] Holzman&Newman assinalam que a invenção da geometria não euclidiana por Riemann, em meados do século XIX, demonstrou a incapacidade do paradigma euclidiano dar conta da investigação da natureza do espaço. Atrelada a uma visão kantiana de que a Matemática consistia em um conjunto de verdades “profundas” sobre os aspectos quantitativos da ontologia (realidade do mundo) a geometria euclidiana passou então a ser questionada tanto por matemáticos como por filósofos. O desafio de alguns pensadores tornou-se a investigação das contradições da matematização do mundo pela “crônica científica” e suas relações com o mundo como ele, de fato, é.

Esclarecem que, ao não mais se basear em aspectos da realidade física a matemática passou a ser entendida como sistematização - não totalmente arbitrária - de um determinado modo de pensar, ou seja, como Lógica. Isso teria conduzido ao entendimento revolucionário da Matemática como muito mais próxima à Lógica do que dos fatos e proporcionou um extraordinário progresso tanto da Lógica como da Matemática.

Ao longo do item os autores buscam amparo na demonstração de equações algébricas que confirmam a insuficiência da matematização do modelo kantiano e suas consequências, ou seja, a emergência das teorias de tipificação da Lógica que amparam o Princípio Matemático (redução da Matemática à Lógica), particularmente o pensamento de Russel&Whitehead - que conseguia congregar sem conflito o aparato aristotélico e as concepções da Matemática e Lógica emergentes no final do século XIX e início do século XX.

Fred e Lois atribuem ao pensamento crítico de Gödel nos anos sessenta a denúncia dos impasses na aplicação universalizante dos modelos matemáticos; que estes [os modelos matemáticos] são modelos exclusivamente daquela área do conhecimento [Matemática] e que portanto não seria razoável pretender subjugar todas as visões de mundo a apenas um único ponto de vista: o sistema metamatemático-lógico.

Encerram o item destacando que, curiosamente, Gödel não toma partido nem da Matemática nem da Lógica mas encoraja novos percursos para estas áreas do conhecimento particularmente via teorias da função recursiva – que é o fundamento matemático da cibernética e da tecnologia computacional.





Segundo eles [os autores] teria sido Ludwig Wittgenstein quem corajosamente ousou enfrentar questões fundamentais pertinentes à Lógica, Matemática e Filosofia. É a contribuição de Wittgenstein que pretendem expor ao longo do desenvolvimento subsequente do capítulo iniciando sua argumentação favorável às idéias do eminente pensador judeu-austríaco pelo item intitulado O Jovem Wittgenstein e a Filosofia da Linguagem [The Early Wittgenstein and The Philosophy of Language].


ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (15)

Em Relatividade, Quanta e o Princípio da Incerteza [Relativity, Quanta, and The Uncertainty Principle], próximo item do terceiro capítulo do livro, os autores nos dizem que apesar dos esforços de “cientifização” da Psicologia e de “logicização” da matemática continuarem sendo levados adiante, a Física (a jóia da Ciência Moderna) vislumbrou muito além do é possível enxergar usando-se as lentes do paradigma modernista.

Explicam que vários estudos baseados em tecnologia de ponta reconheceram que a subjetividade humana impacta profundamente a suposta análise “objetiva” (neutra) dos fenômenos, particularmente as pesquisas no âmbito da física subatômica e da dinâmica astronômica. Resultados obtidos por estas investigações solicitam uma inadiável reconceptualização das bases ortodoxas do espaço e do tempo característicos da física newtoniana. Em outras palavras: chegam à conclusão de que sem ser considerado o papel da subjetividade do “observador” nem o movimento subatômico tampouco o astronômico podem ser genuinamente compreendidos.




Esclarecem que em socorro à reividicação de novos paradigmas para abordagens de problemáticas desafiadoras da Física, pesquisadores contemporâneos têm apresentado a necessidade de abordagens processuais para estudos rigorosos do movimento das micropartículas atômicas, por exemplo. Mas que ferrenhos defensores da Física ortodoxa alegam que o paradigma newtoniano não é fundamentalmente abalado pelas novas descobertas e que a revelação dos fascinantes e desconhecidos mundos a serem pesquisados só foi possível graças aos avanços tecnológicos extraordinários que resultaram na construção de superpotentes telescópios e microscópios a partir do modo newtoniano de pensar.

Fred & Lois argumentam que é apegando-se a este discurso conservador que o “Clero” modernista tenta desqualificar as narrativas contrárias à ortodoxia científica e tratam os pesquisadores pós-modernistas como “hereges”. Advertem-nos de que seu interesse no livro não é discutir se uma nova concepção dos modos de conhecer está emergindo na Física mas focalizar e discutir a emergência de uma epistemologia não paradigmática que estabeleça pontes entre diferentes visões de mundo.




A seguir, anunciam o item Lógica Relacional ou Funcional [Relational or Functional Logic] no qual abordarão a geometria não euclidiana e o impacto da teoria da função recursiva e do paradoxo da autorreferencialidade na cibernética e tecnologia computacional além de alguns problemas da funcionalização ou matematização da visão kantiana de cognição.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (14)

Em o Esforço Científico para Padronizar e Universalizar [Science’s Effort to Formalize and Universalize]
Ao autores revelam que a visão de mundo propugnada por Einstein defendia confiante o poder da Ciência para responder todas as questões, predizer e explicar todos os fenômenos do mundo natural através da matematização.

Revelam-nos que se acreditou na possibilidade de justificar a validade da Matemática, fonte da certeza científica, apelando-se para a Lógica (sistematização de um modo normatizado para pensar). Todavia consideram importante indagarmos como a precisão matemática poderia ser oriunda de algo tão impreciso como a mente humana.

Informam que se acreditava euforicamente poder desvelar os mistérios da mente se esta conseguisse ser analisada “cientificamente”; que isso, ocorrendo, faria com que o paradigma modernista fosse definitivamente universalizado. Para eles [os autores] esta seria a última cruzada para que a Ciência e a tecnologia ultrapassasse sua mãe grega (A Filosofia) e sua avó (A Religião). Mas que, ironicamente, ao serem sobrevalorizadas a Lógica e a sistematização aristotélica pelo projeto modernista de epistemologia (conhecimento do mundo) sua contradições tornaram-se demasiado evidentes.

Explicam que foi sobretudo através do pensamento de modernistas que conseguiram enxergar além do que se podia ver com o uso das gastas lentes do Modernismo - como Ludwig Wittgenstein (Lógica) e Vigotskii (Psicologia) - que eles [os autores] buscarão fundamentar o entendimento dos modos de pensar tipicamente humanos a partir de uma abordagem antiparadigmática, assistemática, relacional e não apegada a um referencial  apriorístico de “verdade”: O Pós-modernismo.

Passam a seguir ao próximo item do terceiro capitulo: Relatividade, Quanta e o Princípio da Incerteza [Relativity, Quanta, and The Uncertainty Principle]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (13)

O primeiro item do terceiro capítulo da primeira parte do livro intitula-se De Kant a Marx: O Crescimento do Modernismo Filosófico e as Sementes do Pós-Modernismo [From Kant to Marx: The Height of Philosophical Modernism to the Barest Beginnings of Postmodernism] e inicia-se com uma extensa transcrição de um fragmento de Crítica da Razão Pura de Kant onde este expõe seu ponto de vista de que todo o conhecimento tem origem com a experiência e que não há conhecimento que possa atecedê-la [“We have no knowledge antecedent to experience, and with experience all knowledge begins.” (pp. 35-36)]

Esclarecem que a experiência para Kant é o motor para o conhecimento mas que ela (a experiência do mundo), em si mesma, não é “neutra” ou “bruta” como sugeria Hume e outros empiristas mas, antes, filtrada pelo processo de pensamento. Esta teria sido a grande contribuição de Kant para alimentar a colaboração de mitos por parte da Psicologia do século XX particularmente das fábulas sobre o conhecimento.

A opinião dos autores é a de que Kant não resolve satisfatoriamente o dualismo da lógica aristotélica por manter-se igualmente apegado à uma dimensão “estática”, “mentalista” e “metafísica” – o que se pode constatar facilmente ao examinar a taxonomia que ele utiliza para validação da experiência e distinção dos graus de “certeza” do pensamento: analiticidade, sinteticidade, a priorismo e posteriorismo.

Afirmam que tanto a Filosofia como a Ciência e a Psicologia Modernas sustentam-se na “Crítica” de Kant e que só com Marx este paradigma modernista começará a ruir abalado pela apresentação da tese materialista histórico-dialética de que o pensamento tem origem na atividade laboral – o que questiona desassombradamente o mentalismo apriorista kantiano (racionalismo) e sua lógica aristotélica idealista.

O que Marx quer dizer, esclarecem os autores, é que o ponto de partida para o conhecimento (Ciência e História) é a vida sendo vivida e não abstrações idealistas “fora” da vida; que as premissas necessárias para a epistemologia (conhecimento do mundo) são as “pessoas reais” em seu processo de desenvolvimento sob determinadas condições.

Explicam que toda a trajetória da filosofia ocidental através dos tempos, desde Platão e Aristóteles, amparou-se em uma abordagem dualista a-histórica na qual as premissas estão “abstraídas” (separadas ou alienadas) do impacto que produzem nos modos de pensar a vida humana ao longo dos séculos. Consideram que o método formulado por Marx é uma das mais relevantes contribuições para o que se denomina na contemporaneidade epistemologia teórico-prática Pós-Moderna.

Para eles, Marx ao propor o conceito de Atividade como unidade “revolucionária prático-crítica” para análise da vida humana, pressupondo-a histórico-culturalmente posicionada, realiza uma síntese genuína entre sujeito cognoscente (epistemologia) e realidade do mundo (ontologia) que o leva para além da tentativa de solução da problemática das origens do conhecimento experimentalista-modernista.

Marx teria, com sua original proposição, conseguido converter a síntese racionalista-experimentalista de Kant em uma radical e promissora renovada visão de mundo. Ao contrário de Kant, Marx insiste que o ser humano não deve ser tomado primeiro como um sujeito cognoscente alienado (separado ou abstraído) do mundo real mas como produtor interativo do mundo, engajado no processo de transformação da Natureza “para si”.

Todavia, advertem: o método formulado por Marx deixa de questionar a existência de premissas. Nele, a premissa são as “pessoas reais” em atividade, ao contrário da premissa do pensar abstraído do viver kantiano-aristotélico.

O que os autores problematizam em Marx são os critérios para definição do que seriam “pessoas reais” e se ele teria se perguntado isso; criticam-no por ter permanecido refém da crença cartesiana-modernista na verdade e na certeza.

Esclarecem que, amparando-se em Vigotskii, pode-se ir além do paradigma modernista-racionalista em Marx e alcançar a epistemologia pós-moderna. Informam que farão uma demonstração mais detalhada da epistemologia pós-moderna e do método que a caracteriza no capítulo nono do livro. Que, para eles [os autores], a experiência é a ocasião para o surgimento de todo conhecimento e não pode ser plenamente entendida seja pela perspectiva abstrata e racionalista de Kant nem tampouco tomando como premissa “pessoas reais” à moda de Marx.

O entendimento dos autores é o de que na atividade contínua do experimentar emergem de modo permanente novas descobertas sobre o que se sabe a respeito das suas pré-condições sócio-históricas.

A experiência é concebida por eles como oportunidade para a atividade colaborativa do conhecer e do crescer solidário em infinito desenvolvimento. A experiência não é portanto abordada a partir do “congelamento” prévio de abstrações, categorizações e conceptualizações. A experiência gera, do seu ponto de vista [dos autores], a atualização contínua do aprendizado e a descoberta de pré-condições sempre provisórias do experimentar a atividade social sendo vivida.

Em resumo, esclarecem que o que propõem com seu posicionamento radical-ativista pós-moderno de(s)construcionista-(re)construcionista histórico-socialmente contextualizado é negar o que em Kant e Marx lhes parece particularidade em diferentes aspectos: pontos de partida, individuação, categorização, experienciação, origens, premissas, pressuposições, afirmações, teleologia (causa-efeito) etc.

Do ponto de vista radical de Holzman&Newman deve-se conceber a flexibilidade e provisoriedade de pontos de vista e valorizar sua dimensão relacional em continuada busca por novas descobertas. Para eles só este modo de ver o mundo permitirá superar o medo e o pânico de viver o eclipse das certezas que assombram o século XXI.

Anunciam que o próximo item do capítulo tratará do Esforço Científico para Padronizar e Universalizar que caracterizou o final do século XIX e início do século XX.


NOTA EM RODAPÉ

Julguei interessante e oportuno transcrever aqui o que diz Hegel em Preleções sobre a História da Filosofia a respeito de Kant quando busca comparar o kantismo com o pensamento da escola eleática pré-socrática:

“Ele [Kant] afirma: Voltando-se para o mundo, quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento o mundo dado no interior é algo exterior), voltando-se para ele, fazemos dele um fenômeno; é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível, determinações de reflexão etc. Só nosso conhecimento é fenômeno, o mundo é em si absolutamente verdadeiro; só nossa aplicação, nosso acréscimo o arruína para nós ... ” (p. 156)

Citado por Ernildo Stein em SOUZA, José C. de [Org] (2005) Zenão de Eléia Os Pré-Socráticos – Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, pp. 139-156.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (12)

No capítulo A Glorificação da Experiência: A Filosofia Moderna, Psicologia e Lógica [The Glorification of Experience: Modern Philosophy, Psychology and Logic] os autores lembram-nos que a história da Filosofia Ocidental costuma ser em geral  divida entre o Racionalismo Continental (Europeu) e o Empirismo Britânico (Inglês). O Racionalismo sustentando-se em três grandes tradições continentais do século XVI (Descartes, Spinoza e Leibniz) logo a seguir vindo a ser  contraditado por três grandes tradições insulares (britânicas) do século XVII (Locke, Berkeley e Hume).

Revelam-nos, em linguagem simples, que o racionalismo tem sido identificado como o estudo da gênese do conhecimento a partir de um ponto de vista que privilegia o mental a partir de movimentos “de dentro para fora” , quer dizer, de processos interoceptivos e próprioceptivos (percepção do que ocorre no interior do organismo); e que o empirismo é o estudo das origens do conhecimento do ponto de vista do movimento em sentido inverso: “de fora para dentro”; quer dizer, de um “excitação” que se origina em processos êxteroceptivos (percepção de sensações provocadas pelo meio exterior ao organismo).

Esclarecem que ambos pontos de vista (racionalismo e empirismo) se ocupam das origens do conhecimento pretendendo cada um o status de abordagem “científica” aos processos de percepção dos seres vivos em geral e dos seres humanos em particular; e que muito antes de Kant (século XVIII) ter unificado ambos pontos de vista em uma perspectiva “científica” sabia-se que os processos intero-próprio-êxteroceptivos estavam interconectados.

Fazem questão de lembrar que foi Descartes – considerado o “pai do racionalismo” – em sua busca pela inquestionabilidade do ato de pensar propriamente dito quem teria afirmado a existência da anterioridade do ato de pensar como possibilidade única para emergência de qualquer conhecimento através do famigerado cogito ergo sum (Penso logo existo); e que foi Hume – considerado o último dos empiristas – quem teria buscado incansavelmente localizar a gênese da ontologia nos processos êxteroceptivos de “excitação” provocados pela “sensação instantânea” de aspectos do meio exterior ao organismo.Mas que, apenas com Kant, demonstrou-se a insuficiência de ambos pontos de vista, isoladamente, serem capazes de explicar a ontologia (a experiência do mundo e a experiência do sujeito cognoscente).

Lembram-nos contudo que é só com o Experimentalismo de Kant que a experiência (do mundo e do sujeito no mundo) coloca-se como cognição. Para eles, o pensamento kantiano é o ninho no qual será nutrida a Psicologia com uma fundamentação filosófica racionalista - embora não ainda com os fundamentos “científicos” modernos.

A seguir abordarão, no primeiro item deste capítulo, a expansão do Modernismo filosófico e as primícias do Pós-Modernismo.