segunda-feira, 7 de março de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (32)

Em O Tema da Psicologia Revisto [The Subject Matter of Psychology Revisited] os autores explicam que após a breve apresentação que fizeram da “freudinização” da cultura de massa norte-americana irão retomar o tema da Psicologia, reafirmando a necessidade de se compreender o papel decisivo da cultura de massa para o processo de normatização da anormalidade e hegemonização da crença no “conto” do indivíduo isolado.

Apresentam um histórico do expansionismo da demanda por tratamento da Saúde-Mental focalizando o crescimento e fortalecimento da autoridade da APA e a feminização da profissão de psicólogo antes de abordarem os problemas da Classificação e sua dimensão interpretativa na elaboração das narrativas de interesse da Psicologia Hegemônica no subitem intitulado A Confecção do Mito Classificatório, Interpretativo e Explicativo [Classificatory, Interpretive, and Explanatory Myth Making].

Argumentam que, embora as conexões da Psicologia com a Indústria e Educação sejam os melhores exemplos de sua tentativa esperta de conquistar um lugar entre as formas mais vulgares e pragmáticas para a comercialização de seus “produtos” junto ao Mercado e ao Estado, é a ascenção e expansão da psicologia clínica e da psicoterapia que melhor testemunham os processos fantasiosos e ficcionais de taxonomia (sistema de classificação) em nome do cientificismo. Que este esforço em criar um “ciência objetiva do subjetivo” termina por produzir um “novo” modo particular de entendimento do psiquismo tipicamente humano – que sustenta-se em velhas concepções ontológicas.

Argumentam que tanto as velhas como “novas” concepções de qualidades que distinguem os humanos dos demais seres vivos e da natureza inanimada (consciência, intencionalidade e emocionalidade) - que localizam a subjetividade humana para além das fronteiras das manifestações biológicas das enfermidades (localização de disfunções em órgãos como pulmões, cérebro etc)  - admitem, todas, que os estados de saúde-doença mentais antes de serem encontrados no organismo têm origem imaterial pertencendo exclusivamente à pessoa; que isso deu origem a uma suposta “ciência objetiva da subjetividade” – que acabou resultando em uma “pseudociência subjetiva do irreal” por converter a Psicologia (particularmente a psicologia clínica e a psicoterapia) em uma espécie de “Religião”. Explicam que os rótulos das enfermidades mentais acabaram sendo idolatrados como deuses homéricos; e que a aliança do Freudismo à Ciência e à Tecnologia desempenharam papel central nesse processo de mistificação.

Fazem questão de esclarecer no entanto que apesar dos usos interessados da psicanálise pela Indústria, Midia e Psicologia, Freud foi o responsável por localizar a loucura na sociedade civil e por romper as muralhas entre os considerados “loucos” e  “normais.”  Para sustentar seu ponto de vista apoiam-se em pensadores que também consideram a doença mental, psicopatologia, neurose, esquizofrenia etc como categorias muito mais impregnadas de moralismo do que “científicas” citando Goffman, Ingleby, Szasz, Dleuze e Guatarri entre outros para justificar o que afirmam.

Denunciam que a ingenuidade empresarial norte-americana foi a responsável pelo gerenciamento da Psiquiatria e Psicologia estadunidenses mesclando o método interpretativo à teoria freudiana para melhor servir ao modelo positivista. Que isso resultou na “coisificação” (naturalização ou reificação por alienação ou desvinculação de sua natureza histórico-cultural) e consequentemente na medicalização da subjetividade e emocionalidade humanas – um processo que se entende da perspectiva pós-moderna como ficcionalização da saúde-doença mental.

Revelam que em sua opinião o “conto” da doença mental pode ser comparado ao que a perspectiva pós-moderna considera o grande “golpe” da Psicologia: a “venda” de uma pseudociência classificatória, interpretativa e explicativa do psiquismo tipicamente humano como “ciência.”

Reiteram que a pós-modernização da Psicologia - a de(s)construção/revelação de sua dimensão narrativa/ficcional – requer esforços para prosseguir buscando caminhos não filosóficos, assistemáticos, acientíficos para a prática de uma metodologia radicalmente honesta que possibilite a emergência de abordagens não classificatórias, não explicativas, não interpretativas do ser humano.

Propõem-se a discutir a problemática da Classificação, Interpretação e Explicação de modo mais denso neste subitem.

A abordagem crítica da Classificação inicia-se com o esclarecimento de que reduzir a Psicologia à medicalização não a despe de sua natureza metafísica.

Recorrem ao pensamento de Foucault para constatar como a Medicina Modernista localiza interessadamente a doença no interiror do indivíduo embora se possa encontrar indícios de que já nos séculos dezesete e dezoito ocorram descrições metafóricas de causas até então consideradas genéticas e imutáveis como ocorrendo influenciadas por uma espécie de crescimento do tipo “botânico” (determinado por condições ambientais). Que a metaforização da “objetificação” da doença representa uma importante  e monumental manobra no curso da epistemologia por relacionar de modo mais contundente as percepções com o discurso sobretudo através da metáfora foucaultiana do “Véu” – do ver além do “observável” [from seeing only what was visible to seeing what is invisible – what is seeable but not seen (p.117)]

Os autores revelam que este novo modo de abordar a doença – levando-se em conta o “Véu” foucautiano - abriu promissoras perspectivas para a linguagem “científica” e originou uma distinção entre profissionais de saúde e médicos e a reorganização das práticas de tratamento e formação para exercício dos cuidados com as enfermidades à moda burguesa – da experimentação de tratamentos não ortodoxos de enfermos “pobres” em asilos para aplicação no cuidado e atenção à saúde físca e mental na clínica dos “ricos.”

Relatam como se deu a impregnação da metaforização do diagnóstico médico das afecções físicas para a esfera do tratamento da doença mental reiterando que mesmo a “nova” abordagem clínica interpretativa não foi suficiente para serem abandonados os intrumentos positivistas (modernistas) usados na classificação das enfermidades desde os tempos pré-socráticos.

Contrapõem-se abertamente ao entendimento da realidade como um objeto que se apresenta já dado - compreendida como existindo independentemente do modo sistemático com que é pensada e descrita - afirmando que a natureza mística do método científico tem sido insistentemente assinalada por Wittenstein, Gödel, Quine, Kuhn e Gergen e muitos outros anunciadores do pensamento pós-moderno.

Denunciam que a classificação psiquiátrica e psicológica é a sistematização de doenças “inventadas” e não “descobertas” como a Psicologia Hegemônica quer nos fazer crer. Que o tema genuíno da Psicologia – o mundo intramental da subjetividade humana, que fora originalmente o objeto dos estudos inaugurais de Wundt – foi subvertido e substituído deliberadamente por uma ficção facilmente manipulável através da naturalização/alienação de rótulos “científicos”. Que, do ponto de vista pós-moderno, a Psicologia Hegemônica (Modernista) permanece Mito e Religião ancestrais embora travestida de “cientificismo”.

Passam a discutir a problemática da Interpretação problematizando a insuficiência do sistema de classificação adotado pela Psicologia “científica” - que oscila entre a explicação e previsão de fenômenos e simultaneamente enfatiza a singularidade do ser humano apoiando-se em uma contradição mal resolvida - em nome da preservação da sua “cientificidade”.

Invocam o conceito de inconsciente de Freud utilizado como justificativa para análises consideradas rigorosas da dimensão metafórica do sofrimento psicológico assinalando sua natureza acientífica amparando-se no pensamento marxista-modernista de Timpanaro. Ressaltam que este pensador considera o método interpretativo como místico em razão de sua natureza não científica mas que, para os autores, é o entendimento da mística que está por trás das pressuposições filosóficas e religiosas do sistema “objetivo” de classificação, que tradicionalmente toma as coisas em si mesmas reforçando o dualismo, o racionalismo e outras abstrações, o que precisa ser denunciado.

Para Holzman&Newman a interpretação amparada em Freud pode justificar a manutenção de visões econômico-ideológicas como o neoliberalismo e contraditoriamente auxiliarem na revelação da “coisificação” como prática cultural no mundo sob o capitalismo mas que a ênfase da subjetividade que interessa ao pensamento modernista reforça a reificação/naturalização de artefatos culturais separando/alienando produtos dos seus processos de produção. Para eles, o freudismo foi um recurso empregado pelos modernistas para distorcer o modo genuíno como se dá a produção da “normalidade.”

Encerram o subitem questionando a Explicação modernista que se sustenta na “metafísica estatística” para reforço do “conto” da cientificidade dos laudos da Psicologia Hegemônica na qual personalidade, habilidades e competências individuais são “objetivamente” medidas e rotuladas por comparação do desempenho pessoal com a média de desempenho de grandes grupos de indivíduos. Amparam-se em Kvale e Newman para destacarem a natureza “entorpecente” deste tipo de entendimento “tosco” - que tem em vista o desempoderamento da subjetividade pessoal e submissão dos indivíduos à crença na “naturalidade” dos artefatos culturais - produzidos sócio-históricamente – mas pensados como “leis gerais” para sua conduta; que este é o “bife com fritas” oferecido pela Psicologia Hegemônica para “calar” a “fome” por sua cientificização [The artificial generation of “general laws” or descriptions which subtextually  imply “general laws”, as in DSM-IV, is the meat and potatoes of psychology’s claim to scientific status. (p. 129)].

Passam a expor de modo abreviado a influência do behaviorismo e do papel de John Watson na popularização da “cientificização” da Psicologia “oficial” particularmente na América do Norte a partir dos anos sessenta, e também seu abrupto declínio após a divulgação de procedimentos behavioristas considerados não éticos em processos experimentais de condicionamento clássico de humanos que recorriam à “punição” de crianças com uso de pancadas por varas. Destacam como isso serviu para fortalecer a corrente regulamentação ética nos tratamentos psicológicos.

Revelam surpreendentemente que a denúncia das práticas metodológicas antiéticas dos laboratórios behavioristas foi usado como pretexto para sacrificar a carreira acadêmica de Watson  - que teria se envolvido afetivamente com um de seus colaboradores do mesmo sexo; que o escândalo só veio a público após sua mulher ter dado entrada em um processo de ressarcimento por danos morais baseado em violação da conduta sexual do companheiro então considerada inaceitável para a época segundo o apurado por Hunt em sua História da Psicologia [The Story of Psuchology].

Esclarecem que após o escândalo Watson foi contratado por uma poderosa agência de propaganda e passou a orientar campanhas publicitárias para venda de desodorantes, sorvetes, cigarros, café etc.

Encerram este capítulo do livro rememorando o uso hegemônico nas décadas iniciais do século XX das técnicas behavioristas em tratamentos clínicos da saúde-doença mental estadunidenses sobretudo pela forte influencia de Skinner a partir dos anos 50 mas que, ao final do século, tornou-se maior a rejeição pós-modernista à tentativa da Psicologia Hegemônica de pretender conciliar o interpretativismo freudiano e a especulação behaviorista generalizante de Skinner como justificativa de sua “cientificidade.”




quinta-feira, 3 de março de 2011

KLEÓPATRA EQUUS FERUS ALPHA CENTAURI (10)

Escurecimento Lento. Cessa a percussão.


DÉCIMA NONA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

         Na cama Radhija senta-se sobre a ereção matinal de Mohammed até ele ejacular em suas entranhas. Mohammed desperta em êxtase pela polução e constata que é uma das aias da Rainha que o acorda.

Mohammed
O que está fazendo em cima de mim? Onde ela está?
Radhija
Minha senhora pediu-me que atendesse ao seu desejo.
Mohammed
Que horas já são?
Radhija
O sol já vai alto.
Mohammed
Preciso me apressar e voltar ao quarto de Ptolomeu antes que ele desperte.
Radhija
Em que posso ajudar?
Mohammed
Recolhendo meus pertences
Radhija
(Entregando-lhe parte das vestes) Aqui estão.
Mohammed
Preciso me banhar antes de ir...
Radhija
Talvez seja melhor banhar-se nos aposentos de Faraó, Senhor...
Mohammed
Você está certa. Diga a sua senhora que... Não, não lhe diga nada.

         Mohammed deixa os aposentos da Rainha apressado. Entra Kyrônio logo após sua saída.

Kyrônio
Conseguiu o néctar do sagitário? (Radhija acena afirmativamente com a cabeça) Não se lave. Vá repousar no templo de Isis para que germine a semente plantada por Mohammed em seu ventre. Vista-se logo sem demora.
Radhija
Tudo até aqui saiu conforme a vontade da Rainha?
Kyrônio
(Ajudando-a com as vestes) Ela já está a caminho de Alexandria a bordo do Segundo Sol gineteando Equus Ferus redivivo à frente do exército real. Agora só falta Mohammed descobrir que Ptolomeu só despertará na eternidade e gritar desesperadamente porque sabe que o seu destino será o confinamento com o Rei em sua tumba. Agora vá e nada diga a ninguém. Vá!

Escuro rápido.

VIGÉSIMA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

No quarto de Faraó, Mohammed enrolado em toalha tem os cabelos molhados. Deita-se na cama ao lado de Ptolomeu e tenta acordá-lo com carícias.

Mohammed
Acorda, meu Rei... (Beija-lhe seguidamente os ombros mas Ptolomeu não se move) Faraó! (Sacode-o) Ptolomeu, não brinca comigo... (Levantando-se) Guardas! Kyrônio! Acudam!



         Ouve-se latidos de cães. Kyrônio paramentado como Horus para os ritos fúnebres e dois guardas-lanceiros conduzindo cada um dois cães adentram os aposentos reais.

                                                                                                      

Mohammed
(Chorando) Faraó não quer acordar...
Kyrônio
(Dirigindo-se aos guardas-lanceiros) Não deixem ninguém entrar. (Para Mohammed) Deixe-me examiná-lo... (Após tomar o pulso de Ptolomeu) Não resta mais nada a fazer se não embalsamá-lo. (Para um dos guardas) Você, vá chamar Abubakyr e Kyruba e peça-lhes para trazerem as ataduras, os ungëntos e as ferramentas para a mumificação. Em seguida providencie a vinda de dois sarcófagos. (Para o outro guarda) Você não deixe ninguém entrar ou sair daqui sem minha permissão.
Guarda-lanceiro Primeiro
(Retirando-se) Sim, senhor.
Mohammed
Dois sarcófagos?
Kyrônio
Você esqueceu a tradição do funeral de Faraó? Seus melhores companheiros seguem com ele para que não esteja sozinho quando despertar na eternidade...
Mohammed
Vão me trancar vivo em um sarcófago?
Kyrônio
Não. Será embalsamado  e imobilizado pelas ataduras sem a língua





Mohammed
Vão me cortar a língua?!
Kyrônio
Para que não possa maldizer o seu destino nem revelar o caminho para a eternidade...
Mohammed
Víbora! Serpente! Áspide venenosa! Maldita seja!
Kyrônio
Neste cesto está a víbora que se encarregará de dar alívio a sua dor e sofrimento... Depois retirarei suas víceras e língua e as atirarei aos cães de Horus, como reza a tradição...
Mohammed
Onde ela está? Onde ela está?
Kyrônio
(Sínico) No cesto, já disse...
Mohammed
(Implorando-lhe) Por Osiris, meu protetor, filho de Horus com Isis, suplico-lhe ser poupado!
Kyrônio
Kyro soterrará seus malfeitos com a poeira do tempo... Não tema. O veneno da áspide age rápido e é indolor.
Mohammed
Quem será o novo Faraó?
Kyrônio
Ptolomeu Soter Terceiro Kleópatra

         Mohammed grita sua dor e arrependimento movendo-se desesperadamente pelo quarto. Tenta escapar do quarto mas é impedido pelo avanço feroz dos cães de Horus. Percebendo-se sem saída insere a mão no cesto com a áspide. Kyrônio entoa cantos fúnebres que homenageiam Horus.

         Escurecimento lento.

quarta-feira, 2 de março de 2011

KLEÓPATRA EQUUS FERUS ALPHA CENTAURI (9)

Escuro lento.

DÉCIMA QUINTA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA
EPISÓDIO SEXTO

         Sala do trono do palácio de Julio Cesar na Sicília.

Taurus
Está ai um embaixador de Creta a mando da Rainha Kleópatra, viúva do Rei Pompeu. Traz consigo um presente da Rainha que se encontra a bordo de uma nave real estacionada próximo à costa da ilha.
Julio Cesar
A viúva do Egito veio até aqui? Pois que entre o seu embaixador com o presente...

         Taurus dirige-se a entrada e sinaliza ao embaixador para adentrar a sala. O embaixador é seguido de dois carregadores que transportam um gigantesco tapete persa enrolado sobre os ombros.

Embaixador de Kleópatra
Ave Cesar, Tirano de Roma, Sicília, Macedônia e Turquia! Venho a mando da Rainha Kleópatra, viúva de Pompeu, rei de Creta, trazer-lhe um presente e um convite para subir a bordo da nave real que se encontra estacionada na costa da ilha.

         Os carregadores deitam o tapete sobre o chão.

Embaixador de Kleópatra
Permita que o tapete seja desenrolado para sua apreciação, Senhor...
Julio César
Desenrolem o tapete.

         Os carregadores desenrolam o tapete e revelam Kleópatra que nele estava escondida, ricamente trajada em tons de azul turquesa (cor grega do luto) com jóias em ouro.



Julio Cesar
Esta jovem que vem envolta no tapete faz parte do presente? Por que veste-se com a cor do luto?
Embaixador de Kleópatra
Esta jovem senhora é a Rainha de Creta Kleópatra, viúva do Rei Pompeu, irmã do Faraó Ptolomeu Soter II do Egito.

         Kleópatra o reverencia respeitosamente.

Julio Cesar
Se eu contar isso em Roma não vão acreditar! Senhora, por favor, levante-se. Deixe-me ajudá-la a erguer-se...
Kleópatra
Grata por aceitar o meu presente, Grande César.
Julio Cesar
Não quis esperar minha visita à nave real?
Kleópatra
É que o motivo da minha súbita e inesperada visita solicita uma rápida resposta de Sua Alteza. Pode me ouvir?
Julio Cesar
Claro. (Para Taurus) Conduza o embaixador e os carregadores para a sala de espera. Providencie-lhes algo para comer e beber. (Para Kleopatra) Senhora, por favor, sente-se. (Servindo-se) Quer um pouco de vinho?
Kleopatra
Não.
Julio Cesar
Permite que eu beba?
Kleopatra
A casa é sua, Majestade.
Julio Cesar
O que traz a água doce do Nilo aos mares salgados da Sicília?
Kleopatra
Uma proposta...
Julio Cesar
O que uma rainha jovem e viúva poderia me propor?
Kleopatra
A Baixa Síria e trânsito livre para o seu exército através da Fenícia até o norte da Africa...
Julio Cesar
E por que não também a Fenícia?
Kleopatra
A Fenícia é do meu filho.
Julio Cesar
Teve filhos com Pompeu?
Kleopatra
Ainda não tive filhos, Senhor... Meu marido faleceu antes que tivesse tempo de lançar sua semente em meu ventre.
Julio Cesar
Não abre mão da Feníncia... E o que terei que lhe oferecer em troca?
Kleopatra
Parte de suas naus e algumas legiões para o cerco a Alexandria.
Julio Cesar
Se tivesse um filho meu, compartilharíamos a Fenícia...
Kleopatra
Esta é a condição para o seu apoio? Plantar sua semente em meu ventre para selarmos a aliança que proponho?
Julio Cesar
Pensa rápido. Aceitaria-me em seu leito senhora?
Kleopatra
Se me prometer cumprir o acordo não farei nenhuma objeção ao seu propósito...
Julio Cesar
Por que quer Alexandria?
Kleopatra
A biblioteca...
Julio Cesar
Uma rainha intelectual?!
Kleopatra
Uma rainha estudiosa das Artes e das Ciências...
Julio Cesar
Isso é raro em mulheres
Kleopatra
O Egito precisa de uma saída para o mar pelo Delta do Nilo sem ter que pagar pedágio a Tídias, o Tirano beduíno que tem a posse de Alexandria.
Julio Cesar
Mas o Egito não é responsabilidade de seu irmão Ptolomeu Soter II?
Kleopatra
Será meu, se o Senhor me ajudar...
Julio Cesar
Se for seu, será meu também, desde que vingue nossa aliança...
Kleopatra
Se me ajudar será também seu. Se eu for sua, será seu e do nosso filho. Concorda?
Julio Cesar
Dorme comigo no palácio esta noite?
Kleopatra
Prefiro que sigamos na minha nave até Creta onde construiremos nosso ninho conjugal. Assim poderemos nos conhecer melhor ao longo da viagem singrando as águas plácidas do Mediterrâneo cuja temperatura é um convite ao deleite sensual...


Julio Cesar
E se eu me recusar e aprisioná-la na Sicilia?
Kleopatra
Não faria isso... O Egito desembarcaria na ilha para me resgatar.
Julio Cesar
Não duvido disso. Que seja: sigamos juntos para Creta! Eros me flechou o coração...
Kleopatra
Não se arrependerá de me tomar como mulher, nem como aliada. Ninguem conhece mais ou melhor a geografia desta região do que eu.
Julio Cesar
(Dando-lhe o braço) Senhora...
Kleopatra
Obrigada meu Senhor.

         Escuro rápido.

        
DÉCIMA SEXTA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

Na sala do trono do palácio em Creta Kleópatra movimenta-se agitada de um lado para o outro. Radhija adentra a sala trajando uma burca de viagem.

Radhija
Senhora, estou pronta.
Cleópatra Soter
Sabe o que terá de fazer?
Radhija
Sim. Avisar a Mohammed que a senhora pagará a promessa feita a ele durante a primeira noite que passar no palácio em visita a Tebas e lhe entregar o sonífero para ele fazer Ptolomeu dormir para poder se dirigir à noite aos seus aposentos e provar o néctar da sua flor de lótus sem ser importunado pelo ciúme doentio de Faraó; e lembrá-lo para colocar o exército em prontidão para a marcha sobre Alexandria;  e para ele enviar dois cavaleiros até o lago Nasser para conduzir as legiões de Julio Cesar pela margem esquerda do Nilo até Alexandria.
Kleopatra
E Kyrônio?!
Radhija
Ah, Sim... Avisar Kyrônio para Levar seu arco lançador de setas, o cavanhaque de ônix, o elmo, a armadura, os braceletes e o peitoral em ouro para a ante-sala dos seus aposentos...
Kleopatra
Não está esquecendo nada?
Radhija
Ank: a chave do destino. Solicitar a Kyrônio ordenar esculpirem uma chave em lápis-lazúli e jade com um escaravelho em rubi engastado em ouro.
Kleópatra
Pode ir. Onde está Hannah? Chame-a aqui com Ptolomeu Cesário.

         Julio Cesar entra nos aposentos da Rainha em traje de guerra.

Julio Cesar
Já estou pronto para partir, minha Rainha.
Kleopatra
Vá e não tema... O mar se abrirá ao meio e permitirá a passagem das legiões romanas
Julio Cesar
Isso é certo?
Kleopatra
Assim como a aritmética nos ensina ser quatro a soma de dois mais dois.
Julio Cesar
A partir de hoje, na sexta lua... É isso?
Kleopatra
O fenômeno só ocorre uma vez a cada 12 luas... E apenas enquanto durar a luz do sol. Como lhe disse, no ponto do Mar Vermelho entre Jeddah e Medina, há uma encruzilhada. Tome o caminho em direção à praia que fica mais ou menos na altura do lago Nasser, próximo a Assuan, no lado do Egito. É a porta de entrada mais segura no continente africano. Por ali passaram os hebreus em fuga do cativeiro do Egito guiados por Moisés. Mas a mágica de Moisés aos olhos do povo hebreu tem oculta a álgebra da sabedoria: que sustenta a divindade de Faraó. Cavaleiros egípcios estarão a sua espera e dos seus soldados para guiá-los por terra e abordarem Alexandria pelo sul. Será a época da vazante e poderão atravessar o Nilo sem dificuldade e seguir por terra, como lhe disse, pela margem esquerda até Alexandria. Entraremos junto com os exércitos de Tebas sob meu comando pelo Oeste de Alexandria (Pausa) Vai com as bênçãos do seu deus Marte! Nos encontraremos em Alexandria para celebrarmos nossa vitória! Ptolomeu Cesário seguirá com você sob os cuidados de Hannah até a Fenícia e lá deve permanecer a salvo e distante dos campos de batalha.






         Entra Hannah de mãos dadas com o pequeno Cesário.

Hannah
Mandou-me chamar Rainha?!
Kleópatra
(Abraçando Cesário) Como está o meu filhote? (Para Hannah) Tudo pronto para a viagem?
Hannah
Sim.
Kleopatra
(Para Cesário encaminhando-o a Julio Cesar) Você ficará com seu pai até nos vermos em Alexandria. Seja um menino corajoso. (Para Julio Cesar) Cuide bem do nosso tesouro, Cesar!
Julio Cesar
Não se preocupe. (Tomando a mão de Cesário) Vamos guerreiro?!

         Escuro rápido.

DÉCIMA SÉTIMA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA
SEXTO ESTÁSIMO CORAL

Coro de Beduinos

A sabedoria de Kleópatra a faz ser tomada por feiticeira
Sua magia é álgebra - e não falha
O poder que só Faraó possui para “ordenar” a cheia do Nilo...

A aparição de um caminho por entre as águas do Mar Vermelho é a mesma sabedoria milenar de faraó utilizada como “mágica” pelo hebreu Moisés para dar fuga aos judeus escravizados traindo a confiança nele depositada pelo Egito Ramssés.

A realeza egípcia  adotou o recém-nascido hebreu como filho após o mesmo ter surgido intencionadamente boiando numa cesta de junco durante o banho da Rainha mas viu-se ironicamente fustigada com a fuga em massa de trabalhadores escravizados sob a liderança do príncipe bastardo.

A “mágica” do hebreu  iniciado nos mistérios de Faraó serve desta vez à Roma como “magia” calculada por Kleópatra para fazer César adentrar as entranhas da África e ajudá-la a tomar Alexandria.

O banco de areia entre as águas do Mar Vermelho.
Surpreende a Julio Cesar e seus soldados que o atravessam sem 
                                                                      demora ou temor.
As previsões “algébricas” de Kleópatra se concretizam e seus feitos
a engrandecem como Rainha Maga cada vez mais.
Certa da vitória sobre Alexandria a nave da deusa Isis ancora no cais privado da realeza egípcia em Tebas.
Kleópatra trajando luto desembarca e segue escoltada para o palácio.
Na cidade todos desejam vê-la mas a rainha está cansada
e recolhe-se logo aos seus aposentos.
Na intimidade de seu leito banha-se e perfuma-se
auxiliada por Radhija sua aia de confiança.
Prepara-se para receber a visita de Mohammed
e pagar-lhe a promessa.
O exército real sob as ordens de Mohammed encontra-se em exercício de guerra e movimenta-se excitado preparado para a batalha.
Os cascos dos cavalos marchando pelas ruas e avenidas
próximas ao palácio não deixam o povo dormir.
Apenas Ptolomeu Soter II adormeceu com todo esse movimento.
Bebeu cerveja com o sonífero que lhe foi dado por seu amante.
Mohammed vai ao quarto da Rainha para receber sua recompensa.
Kleópatra o acolhe com satisfação e o deixa provar
do néctar da sua flor de Lotus.
Extenuado por anorgasmia Mohammed  adormece e a rainha pede a Radhija que ocupe seu lugar na cama e dela só saia após coletar o sêmem de Mohammed.
Kleópatra segue para encontrar-se com Kyrônio escoltada por Kyruba e Abubakyr.
Veste a armadura e o elmo em ouro encimado por uma cabeça de serpente e o cavanhaque de ônix, enlaça a chave do destino na cintura.




  
Sobe ao dossel de Kyro estacionado no pátio do palácio para o pilotar.
Vestida como um sagitário, Ptolomeu Soter III Kleópatra convoca as tropas de Faraó a seguirem em disparada atrás dela.
O exército a segue sem pestanejar durante a alvorada.
O som do galope dos animais faz a terra tremer.


Vida longa a Faraó!
Salve Kyro, alfa centauri!
Brilha o Segundo Sol em disparada pelo solo egípcio!

   Escuro rápido.

DÉCIMA OITAVA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

         Ressoa percussão retumbante. Um foco de luz delimita Keópatra com maquiagem egípcia de guerra sobre o dossel manobrando Equus Ferus com uma das mãos e com a outra empunhando bravamente uma lança. Tem o arco para lançamento de setas calçado no tórax, sobre a armadura. O dourado do elmo, do peitoral metalizado e dos braceletes se confundem com o metal da carruagem e os adornos do cavalo negro adestrado para a guerra. O cavanhaque de ônix empresta-lhe uma aparência masculina não andrógina. A chave do destino rebrilha em sua pélvis abaixo da armadura.

Escurecimento Lento. Cessa a percussão.