quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

ANTILEXtranz (7)

SEXTA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

ESTÁSIMO SEGUNDO (Terceira manifestação do coro)

Coro de Fiéis/Cidadãos da Síria
As palavras de Antilex nos causam arrepios e nos amedrontam;
        Quais surpresas se ocultam na sombra lançada sobre os decendentes de Édipo?
                Repletas de intenções noturnas encontram-se as falas da princesa que é também príncipe;
A ambigüidade é típica dos seres andróginos!
Os segredos e a ocultação de sua genuina essência sexual também...
        O que leva um macho a querer tornar-se fêmea?
O que leva os homens a emascularem outros homens?
Qual magia leva as mulheres e os homens a se encantarem pelos eunucos?
        Quais poderes sobre nós têm os hermafroditas?    
Por que a androginia nos fascina tanto?
Antilex está correta em querer chorar seus irmãos mortos;
Caprus Creonte pensa como um sagaz estrategista bélico;
A tirania dos reis forja duras leis invocando-as em defesa do Estado;
                A Lei dos homens deve ser a lei dos deuses;
Antilex é devota de Dionísio por tradição mas rende louvores a Apolo;
Com Apolo ela pretende se entender;
Só Apolo pode fazer cessar a maldição que paira sobre o destino dos descendentes do rei Édipo - ou prorrogá-la indefinidamente...


SÉTIMA MOVIMENTAÇÃO CÊNICA

EPISÓDIO SEGUNDO




        Luz sobre a porta da esquerda ao fundo do proscênio [Esquerda alta do palco]. Em sua camarinha a princesa Antilex está de joelhos aos pés da imagem de Apolo. Entram Fedra e Electra muito apressada(o)s pela porta.

Fedra
(Contendo a euforia) Princesa!

Electra
(Exultante de alegria) Príncipe!
        
         Antilex levanta-se e retira a mantilha que lhe cobre a cabeça.

Antilex
O que há de tão importante para que sejam interrompidas minhas preces a Apolo?
Fedra
Um enviado do seu tio o rei Caprus Creonte com uma jóia para servir-lhe de adorno durante as bodas...
Antilex
(Para Electra em tom fleumático) Receba a jóia em meu nome Electra e a traga para que possamos avaliá-la.

        Electra deixa a camarinha.

Fedra
O que respondeu Apolo Princesa?
Antilex
Há um modo de deter a maldição.
Fedra
Qual?
Antilex
Oferecer-me a ele em sacrifício para que poupe Yrma e os filhos que terá com Creonte. Só assim cessará a desdita e o infortúnio sobre nossa família. A maldição foi encomendada com sacrifício humano. Só uma oferenda de equivalente valor deterá a sombra.
Fedra
Fará isso Senhora?
Antilex
É meu dever fazê-lo, Fedra...
Fedra
Seremos imolados também, eu e os outros eunucos, com a senhora?
Antilex
Não será necessário. Mas precisarei muito de você e de Electra para concretizar o meu propósito macabro.
Fedra
De que modo senhora?
Antilex
Aguardemos o retorno de Electra com a jóia para que lhes possa expor os serviços que me devem prestar...

        Electra retorna com uma jóia sobre uma almofada de veludo vermelho.

Electra
(Deslumbrada) Veja princesa, é linda! Uma tiara em ouro branco – o  metal de sua preferência
Antilex
(Pegando a jóia) Traga o espelho Fedra. Quero ver como fica em mim...

        Antilex entrega a jóia a Electra. Fedra sai.

Electra
(Recebendo a tiara e colocando-a sobre a cabeça de Antilex) Deixe-me ajudá-la senhora... (Ajeitando-lhe os cabelos) Ficou deslumbrante... Um luxo!

        Fedra retorna empunhando um espelho que posiciona à frente do rosto de Antilex.

Fedra
Ficou-lhe muito bem, senhora...
Antilex
Fica bem em qualquer um que a use... (Para Electra) Quer experimentar Electra?
Electra
Posso?
Antilex
(Retirando a tiara da cabeça e entregando-a a Fedra) Ajude-a a colocar a tiara Fedra. Dá-me o espelho.

        Fedra passa-lhe o espelho e ajuda a colocar a tiara em Electra.

Fedra
É uma belíssima jóia...
Electra
Sim. De muito valor!
Antilex
Pena que será derretida e fundida na pira que eu mesma acenderei para incinerar a mim em nome dos restos mortais de meus irmãos lançados ao apetite das feras carniceiras para fazer cessar a maldição sobre nossa família.
Electra
(Horrorizada retirando rapidamente a tiara da cabeça) Deuses!
Antilex
(Para Fedra tomando a tiara das mãos de Electra) Quer experimentar também Fedra?
Fedra
Não senhora. Prefiro não fazê-lo.
Antilex
(Para Fedra) Coloque-a de volta sobre a almofada. Escutem-me as duas com atenção: Quero que levem a jóia ao mercado e a vendam em sigilo. (Pequena pausa) Com parte do dinheiro arrecadado contratem um carro puxado a dois cavalos e o mantenham na cocheira do palácio. Paguem o que for necessário para comprar o silêncio dos vigias. Digam que é para conduzir um poderoso amante de um dos eunucos do palácio cuja identidade o suposto sodomita não deseja que seja trazida a público. Providenciem também um traje masculino completo de cor negra, com adaga e turbante. E ainda água e pão suficientes para meu deslocamento até Istambul.
Electra
O que está pretendendo senhora?
Antilex
Logo saberão mais sobre o meu plano. Por enquanto Electra, quero que você diga ao emissário do rei meu tio que gostei do presente e que lhe peço encomendar lavanda de Florença para os banhos pré-nupciais. Que só após a chegada da essência de lavanda devem ter início os preparativos para a cerimônia de bodas. Entendeu?
Electra
(Paralizada dirigindo o olhar para Fedra) Sim senhora.
Antilex
Vá logo e faça o que lhe digo. O que está esperando?
Electra
(Apressando-se) Com sua licença princesa.
Antilex
Esta noite vou partir rumo a Istambul. Você deve usar uma de minhas burcas reais e fazer-se passar por mim – se for necessário...
Fedra
Tenho medo senhora.
Antilex
Confie em mim Fedra. É só não usar a voz para se comunicar quando estiver usando a burca...
Fedra
Mas e se o rei ordenar que eu use a voz?
Antilex
Não fará isso. É costume que as noivas permaneçam recolhidas até a cerimônia das bodas. Ninguém além de você e Electra devem saber dos meus planos.
Fedra
Nem Yrma.
Antilex
Yrma em nenhuma hipótese!

        Yrma adentra a camarinha seguida de eunucos que trazem um baú com tecidos.

Yrma
(Alegremente) Irmã, chegaram os tecidos para que possamos escolher as cores dos nossos trajes nupciais... (Mostrando-lhe a tiara em metal dourado que recebeu) Veja a jóia que Creonte me enviou? Não é linda?
Antilex
Sim. Em metal amarelo. Tem brilho quente, solar, muito próprio para acentuar sua jovialidade e energia.
Yrma
E a sua?

Antilex
(Para Fedra) Mostre-lhe Fedra.
Yrma
Ouro branco! O metal que você gosta...
Antilex
É de brilho frio, lunar. Conforme minha natureza andrógina...
Yrma
Vim para ouvir sua opinião na escolha do tecido do meu traje... (Pegando um tecido em tom adamascado laranja e verde) Que tal este?!
Antilex
Este tecido se confunde com o metal que você vai usar...
Yrma
Queria usar vermelho. Mas é a cor da primeira esposa...
Antilex
Use o branco que é próprio para as virgens e sobre o qual suas jóias douradas receberão destaque.
Fedra
Minha senhora tem razão Princesa Yrma. O branco lhe cairá muito bem... É símbolo da falta de mácula.
Yrma
Veja, existem dois tons de vermelho... Qual irá preferir?
Antilex
Se quiser usar vermelho também... escolha o tecido com o tom da sua preferência. Não faço objeção.
Yrma
Vou usar branco... Mas, e você, qual tom de vermelho vai escolher?
Antilex
(Fleumática) O mais escuro. Nele o metal branco se destaca mais...

Fedra
Excelente escolha senhora!
Yrma
Nosso tio foi muito bom para nós tomando-nos por esposas...
Antilex
A bondade quase nunca é desinteressada... Você gosta dele não é?
Yrma
Sim.
Antilex
Desejo-lhe que seja fértil e tenha muitos filhos... Que perpetue nosso sangue.
Yrma
Obrigado minha irmã. Agora já sei a cor do traje que vou usar. Preciso ir para escolher o tipo de amarração do tecido... Ah, antes de ir, onde estão os grampos que eram de minha mãe e que ficaram sob sua guarda? Quero usar um deles na amarração do tecido!
Antilex
(Para Fedra) Fedra, traga a caixa de relíquias!

        Fedra sai para buscar a caixa.

Antilex
Há dois pares de grampos que pertenceram á nossa mãe. Um em metal amarelo e outro em metal branco...

        Fedra retorna com a caixa.

Yrma
(Pegando os grampos dourados) O par dourado combina com a cor da tiara que Creonte me presenteou!
Antilex
(Tomando o par de grampos em metal branco) Usarei os grampos prateados... (Pausa) Os mesmos que nossa mãe tinha nas vestes quando foi encontrada morta e que foram utilizados por nosso pai para vazar os próprios olhos...
Yrma
Se quiser usamos, cada uma, um grampo do par dourado.
Antilex
Usarei o conjunto em metal branco.
Yrma
Por que invocar tão dolorosas lembranças no dia de nossas bodas?!
Antilex
(Manuseando o par de grampos prateados) Não temo a energia obscura concentrada nestes grampos... Não há como apagar o nosso passado. Nem fingir que uma sombra terrível foi lançada sobre nossa família...
Yrma
Você me assusta irmã...
Antilex
Não tema seu destino Yrma. Breve estaremos livres do infortúnio.
Yrma
Oh, sim... Estaremos. Graças à generosidade de nosso tio e senhor que nos tomou por esposas!
Antilex
Seremos livres, Yrma, pode acreditar. Apolo há de nos conceder alforria da maldição lançada sobre nossa família... Tenho rogado a ele sua clemência dia após dia
Yrma
(Para os eunucos que a acompanham) Meninas, vamos!

        Yrma retira-se acompanhada de seu séquito. Os eunucos levam o baú consigo e antes entregam o tecido vermelho para Fedra. Fedra entrega o tecido para Antilex. Antilex cobre-se com o tecido lançando-o energicamente sobre si a um só gesto após a saída de Yrma. Percussão.

        Escuro rápido.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA(24)

O item A Loucura do Método [Mad about Method] encerra o primeiro capítulo da segunda parte do livro. Nele os autores baseados em Danzinger buscam elucidar como a obsessão pelo método por parte da Psicologia torna-se o meio de ela produzir-se a si mesma e de se autolegitimar “cientificamente”.

Explicitam ao longo do texto sua indignação com a classificação grosseira das pessoas sob rótulos vários em experimentos cujas condições artificiais e idealizadas produzidas por “especialistas” são claramente manipuladas objetivando a constituição de fontes de dados [souce of data] nos empreendimentos investigativos da Psicologia Científica.

Consideram que Wundt, popularmente conhecido como o “Pai da Psicologia”, teve importante papel na corroboração e propagação do uso do paradigma de investigação das ciências naturais por parte da Psicologia, mas que a “coluna vertebral” das práticas modernistas na Psicologia surgem, curiosamente, em contraposição aos interesses originais do Laboratório de Leipzig coordenado por Wilhelm Wundt no final do século XIX. Esclarecem que Wundt focalizava a experiência subjetiva das pessoas como possibilidade de generalização “científica” da percepção interna em si e não dos processos aperceptivos, isto é, dos caminhos das reflexões das pessoas sobre suas percepções internas.

Explicam no entanto que dois séculos antes de Wundt, Locke em Oxford havia identificado duas modalidades de conhecimento: o sensorial e o reflexivo (Ensaio Acerca do Entendimento Humano). E que toda uma filosofia da mente se sustentou na evidência da reflexão a respeito da existência material do mundo pelos sentidos (empirismo) mas apenas Kant irá questionar esta tradição interrogando-nos se a experiência oportunizada pelo “senso interno” (percepção interna ou sentidos) poderia ser a base do conhecimento do mundo. Sua tese [Kant] é a de que a percepção interna (sentidos) isoladamente não seria suficiente para estabelecer-se um modo sistematizado e coerente de organização de informações à moda da matemática como ocorre no pensamento científico (objetivismo ou signitivismo abstrato).

Relatam como se deu a formação dos psicólogos norte-americanos no laboratório de Wundt e de como ocorreu uma ressignificação de suas intenções originais [Wundt] de pesquisa sob a influência do pragmatismo norte-americano - que exigia a mercantilização da Psicologia Científica para que ela pudesse ter algum valor monetário. Revelam como a glorificação do cientificismo contagiou o pensamento das pessoas ao ponto de o método das ciências naturais ser hegemonicamente considerado o único capaz de fornecer conhecimento útil e confiável sobre quaisquer aspectos da existência humana.

Fazem uma preleção sobre o histórico da Psicologia como área do conhecimento na Academia norte-americana informando ter sido a Universidade Johns Hopkins quem ofereceu por primeira vez o doutorado em Psicologia em 1882; e que dez anos após este ter sido implantado foi criada a Associação Norte-Americana de Psicologia-APA.

Explicam que a “nova” disciplina [Psicologia] logrou rápido reconhecimento acadêmico gerando interesse nas pessoas comuns por sua potencial utilidade prática. Que os psicólogos rapidamente providenciaram, conscientes ou não das pressões acima de sua livre vontade, uma mudança de curso nos rumos da Psicologia: da investigação da experiência humana e das pessoas nela interessadas (sujeitos da experiência) passou-se à categorização universalizante das pessoas através da aplicação de testes em massa [surveys] e da contabilização “asséptica” de dados para controle e previsão de ações públicas (sujeitos convertidos em objetos de intervenção).

Encerram o item e o capítulo perguntando-se retoricamente quem ou quais seriam os agentes interessados no controle social das pessoas e que tipo de conhecimento justificaria perseguirem este objetivo. Comprometem-se nos próximos capítulos em desatar alguns nós que impedem a identificação da teia tenebrosa tecida pela Psicologia Científica para encobrir sua natureza “fabular” ou “discursiva” através da problematização de três do seus grandes mitos: “Individuo” “Doença Mental” e “Desenvolvimento”






ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (23)

Em A Hegemonia do Conhecimento [The Hegemony of Knowing] os autores chamam atenção para o papel decisivo do conceito de CONHECIMENTO para entender-se tanto o modelo de desenvolvimento euro-americano da Psicologia como suas críticas. Eles consideram que desde a antiguidade clássica até a contemporaneidade o conhecimento tem se afirmado como necessário para o entendimento e significação do mundo; que o conhecimento tem sido compreendido como possuindo uma natureza cognitiva, como algo que ocorre no interior da mente das pessoas - até mesmo entre os que concordam ser o conhecimento produzido histórico-culturalmente a partir de interações sociais.

Esclarecem que para os pós-modernistas o cognitivismo é o que há de mais antidesenvolvimental e inumano no pensamento modernista; e que o enfrentamento corajoso do cognitivismo é a principal “bandeira” do Pós-Modernismo. Demonstram a pertinência de sua afirmativa recorrendo a uma extensa citação de McNamee&Gergen em Terapia e Construção Social [Therapy as Social Construction] em que estes psicoterapeutas discutem os vieses do cognitivismo na clínica terapêutica revelando como a suposta assepsia “científica” do olhar medicalizante do terapeuta constitui impecilho para uma abordagem mais honesta da interconexão entre as subjetividades e o contexto semântico em que ocorrem as interações entre paciente e terapeuta. 

Utilizam também palavras de Danzinger para corroborar a artificialidade do conhecimento produzido por meio de um modo tão desconectado e distante de qualquer aspecto da vida cotidiana (o paradigma modernista) e portanto destituído do rigor metodológico necessário para o genuíno entendimento da vida humana.                                                                                                                                                         

Procuram demonstrar como a “nova” ontologia formulada pela Psicologia Científica encontra-se fortemente atada à legitimação de práticas investigativas que por sua vez corroboram práticas equivocadas prévias e recorrem como ilustração de sua afirmativa aos famigerados “testes mentais” – segundo eles o mais lucrativos investimentos da Psicologia – utilizados amplamente em processos seletivos da Academia e de acesso diagnóstico à clínica terapêutica.

Com auxílio da opinião de outros renomados pensadores como Danzinger, Burman, Mors, Rose e Gergen denunciam como a dimensão discursiva se sobrepõe às práticas consideradas “científicas” e resultaram por traçar a trajetória da Psicologia como possuidora e produtora de conhecimento especializado sobre o psiquismo humano – um conhecimento distorcido que não contempla satisfatoriamente aspectos socioculturais dos modos de ser e de pensar das pessoas.

A seguir apresentam o item A Loucura do Método [Mad about Method]


 NOTA EM RODAPÉ

É interessante trazer para o nosso cotidiano as implicações e interesses econômicos por trás dos testes e da aferição “objetiva” do desempenho escolar - aceitas acriticamente pelas pessoas em um nítido processo, nem sempre consciente, de reificação (naturalização) deste arsenal de dados forjado não desinteressadamente por organizações “gestoras” do conhecimento na contemporaneidade. Eventos “traumáticos” como ENEM buscam atender exigências “internacionais” hegemônicas de medição e aferição do aprendizado escolar que insistente e despudoradamente utilizam o modelo modernista de avaliação supostamente “científico” – incompatível com a perspectiva pós-modernista de entendimento do psiquismo tipicamente humano.


ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (22)

No item A Nova Ontologia [The New Ontology] os autores defendem que a existência humana particularmente a partir do século XX passou a conviver cada vez mais com artefatos mentais de um tipo muito particular – os artefatos psicológicos; que tais artefatos vieram a ser “popularizados” na linguagem cotidiana das pessoas chegando ao ponto de serem banalizados em nosso dia a dia; e que invenções de laboratórios de pesquisa em psicologia clínica tais como  “inteligência”, “comportamento”,“personalidade”, “neurose”, “depressão”, “pânico”, “desordem”, “transtorno”, “estatísticas e medições de capacidades”, “ego”, “id”, “estágios de desenvolvimento” e “dificuldades para aprender”, por exemplo, se tornaram tão “verdadeiros” para todos como são as árvores e as estrelas. E se perguntam estarrecidos como isso pode consumar-se.

Holzman&Newman explicam que a Ciência Moderna e o desenvolvimento tecnológico ganhou força com a emergência do mercantilismo e da industrialização capitalista. Consideram que os resultados práticos obtidos com a aplicação do modelo das ciências naturais na investigação da realidade material do mundo teria concorrido para o “transplante” do paradigma científico para os estudos do modo sócioculturalmente informado de pensar e ser dos seres humanos.

Lamentam profundamente que apesar de numerosos pensadores já a partir do século XVIII e XIX advertirem que as investigações em ciências humanas exigem um modelo distinto do que se aplica nas investigações de fenômenos naturais, o paradigma cientifico permanece trágica e incorretamente sendo hegemonicamente usado para o entendimento do psiquismo tipicamente humano.

Revelam que eles [os autores] não são os únicos a acreditarem que com o final do século XX isso passou a ser inaceitável. Consideram a avalanche de críticas pós-moderna à Ciência testemunho de que a problemática humana tem sido ainda terrível e incorretamente abordada. 

Passam a expor as raízes do pensamento pós-moderno na Psicologia localizando-as nas proposições da teoria histórico-sóciocultural inaugurada por Vigotskii. Julgam ter sido Vigotskii, embora comprometido com o Marxismo, o primeiro psicólogo a sinalizar a necessidade de estabelecer uma ponte entre a tradição marxista modernista e o ideário pós-moderno; e que demonstrarão isso detidamente no capítulo nono do livro.

Destacam como sustentação deste seu ponto de vista a opinião de Vigotskii citada por Levitan no livro  Não se nasce uma Personalidade: O Perfil de Psicólogos da Educação Soviética [One is not Born a Personality: Profiles of Soviet Education Psychologists] de 1982 a qual transcrevo em parte aqui: “Uma revolução resolve apenas aquelas tarefas que são solicitadas pela história; isso é verdadeiro tanto para a revolução em geral como para ascpectos da vida social e cultural” [A revolution solves only those tasks which have been raised by history; this proposition holds true equally for revolution in general and for aspects of social and cultural life (Vigotskii Apud Levitan segundo Holzman&Newman, p. 66)].

Para os autores, Vigotskii ao caracterizar a revolução como social e culturalmente contextualizada (seja ela política, econômica ou científica) está propondo o entendimento de que a revolução não é apenas um capricho nem se dá unicamente em defesa de uma moral particular; que as revoluções não produzem necessariamente melhores sistemas nem podem ser encaradas como conquistas “definitivas” (consolidadas ou estáticas).

Agumentam a seguir que a História sempre aposta em respostas para questões que intrigam o ser humano como, por exemplo, “O que é adoecer?” “Como curar esta enfermidade?” e que quando há ausência de uma resposta adequada à essas questões as pessoas se apegam ao que já se sabe a respeito do assunto; que é esta a razão para que uma revolução do conhecimento já sedimentado inevitavelmente ocorra: a falência do aparato de respostas existentes para desafios propostos pelo fluxo contínuo do desenvolvimento humano.

Passam a expor o relevante papel da busca por outros paradigmas, por modos de pensar que possam tentar equacionar problemas emergentes anteriormente não existentes invocando, em defesa de seu ponto de vista, o clássico de Thomas Kuhn A Estrutura das Revoluções Cientificas e as teses de filósofos contemporâneos da Ciência como Feyerabend e outros - que também, como Kuhn, buscaram abordar as mudanças paradigmáticas ao longo dos séculos em diferentes áreas do conhecimento.

Para eles [os autores] as críticas pós-modernistas à Psicologia sugerem a existência de condições históricas na contemporaneidade para uma mundança paradigmática. Insistem que muitos pensadores e praticantes da psicoterapia não acreditam mais em conceitos da Psicologia edificados sobre o pensamento modernista como, por exemplo, os de “Desenvolvimento”, “Indivíduo”, “Eu”, “Estágios” “Prova”, “Quantificação” “Níveis” etc

Em resumo, Holzman&Newman acreditam que suas críticas pós-modernistas à Psicologia têm em vista a necessidade de serem focalizadas com maior interesse as implicações metodológicas de abordagens psicológicas depuradas do arsenal ideológico modernista. Justificam isso levando em conta o fato de as denúncias em número crescente, a partir dos anos 60-70, dos vieses ideológicos do pensamento modernista (Eurocentrismo, Racismo, Sexismo, Classismo, Homofobia etc) serem suficientes para qualquer pessoa admitir a falência das “certezas” da Psicologia Científica, de sua irrelevância e malefício ao bem-estar de todos os povos do mundo.

Insistem no clamor de que por sermos humanos - portanto sócio-historicamente formados  - tudo o que produzimos vem a ser contaminado por nossa natureza cultural; que isso leva a considerarmos inadequada a aplicação do modelo das ciências naturais para entendimento de nosso psiquismo; que eles [os autores] estão interessados não simplesmente em denunciar a inaplicabilidade do paradigma modernista ao estudo do psiquismo humano – o que é óbvio - mas em afrontar destemidamente seu erro enquanto arsenal ideológico e suas implicações metodológicas; que seu objetivo com o livro é contribuir para a colaboração de metodologias alternativas não paradigmáticas, relacionais ou processuais.

Explicam que irão retomar a exposição dos desdobramentos ao longo dos séculos do que qualificam como “conto”, “fábula” ou “mito” da Psicologia focalizando os fundamentos ideológicos do “aparato de geração de dados” [data-generating apparatus (p.69)] forjado deliberadamente para justificá-la como Ciência; e que isso será necessário para demonstrar a insuficiência desse aparato idealista no atendimento às bases tanto da “matematização” como do “empiricismo” científicos.

Seguem expondo como a Psicologia converteu-se no mais poderoso produtor e disseminador da ideologia modernista dominante no mundo no Item A Hegemonia do Conhecimento [The Hegemony of Knowing]

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (21)

O capítulo intitulado A Nova Ontologia e a Mitologia da Psicologia [The New Ontology and Psychology’s Mythology] tem início com o item Em que pé estamos [Where we are now]. Nele os autores destacam o importante papel desempenhado pela 103ª Convenção Anual da Associação Norte-Americana de Psicologia/APA ocorrido em meados de agosto de 1995 na qual destacou-se a infiltração do pensamento pós-modernista em palestras, oficinas e simpósios denunciando a natureza acientífica da Psicologia ou questionado-a sobre seus inconfessáveis propósitos.

Relacionam títulos de simpósios e miniconferências que fornecem uma noção do foco das discussões na 103ª Convenção da APA entre os quais trancrevo aqui apenas alguns:

Competência em Saúde Mental: A Ciência justifica continuar o que fazemos? [Mental Healh Expertise: Does our Science Justify Continuing What We Do?];

Ilusão da Ciência no acesso clínico-diagnóstico e o Manual Estatístico-Diagnóstico/DSM [Illusion of Science in Clinical Assessment-Diagnosis and DSM];

Consulta para Mudança Paradigmática: a Superestimada Confiança no Modelo Medicalizante [Consulting for a Paradigm Change – The Overreliance on Medical Model];

Linguagem na Psicologia – Demarcando as fronteiras ontológicas e epistemológicas [Language in Psychology – Setting the Ontological and Epistemological Bounds].


Os autores lamentam que pouca informação tenha sido fornecida pelos organizadores do evento quanto aos territórios epistemológicos de onde migravam as abordagens críticas como o socioconstrucionismo, o de(s)construcionismo,  a psicologia feminista, a hermenêutica, a análise do discurso, a terapia narrativa e que isso dificultou bastante identificar onde ocorriam as sessões de orientação pós-modernista prejudicando o comparecimento dos interessados no assunto.

Holzman&Newman constataram que as opiniões dos presentes ao final do encontro se dividiram em três grandes grupos: (1) Os que concordavam com as críticas mas, inabaláveis em seu pragmatismo, destacavam que sem o aval da Ciência os psicólogos seriam destituidos de sua competência legal e deixariam de ser remunerados; (2) Os defensores do status quo (estado em que se encontra a Psicologia), inquebrantáveis modernistas em suas convicções na defesa da física newtoniana e da universalidade (do Brooklin a Bangladesh) da Ciência; (3) A grande maioria que julgava pertinentes e oportunas as abordagens críticas e aplaudia a iniciativa de se discutir dessassombradamente os fundamentos epistêmicos da Psicologia na convenção da APA.

Para os autores, a Psicologia desde sempre enfrentou problemas mas só no final do século XX, precisamente em 1995, ano da 103ª Convenção da Associação Norte-Americana de Psicologia, teria ocorrido o vazamento do que permanecia até então por ela represado. E que essas revelações – atribuídas à infiltração do pensamento pós-moderno – teria abalado tanto a credibilidade da APA junto à opinião pública que a obrigou gastar milhares de dólares em campanhas por todo o país [Estados Unidos] para o resgate do valor científico da Psicologia – o que não impediu a eclosão de uma onda generalizada de descrença na Psicologia por parte de setores governamentais, corporativos, mídia e sociedade civil.

Explicam como as críticas pós-modernas resultaram em drásticas alterações legislativas que impactaram economicamente os psicólogos norte-americanos autônomos sobretudo pelo corte de verbas destinadas à pesquisa na área da Psicologia em geral e pela fusão dos ministérios da Educação e do Trabalho (tradicionais campos de aplicação dos recursos em psicologia educacional).

Revelam que as críticas pós-modernas concorreram para a criação do funcionamento de um sórdido sistema federal de gerenciamento e manejo de verbas destinadas ao tratamento clínico baseado em horas, repassadas exclusivamente às seguradoras privadas de Saúde (Planos de Saúde) – que, desde então passaram a ser exclusivamente responsáveis pela remuneração dos profissionais norte-americanos dedicados à psicologia clínica tomando por referência valores pré-fixados com base em planilhas de custo-benefício para os serviços a serem prestados.

Denunciam que os psicólogos clínicos norte-americanos encontram-se na contemporaneidade muito preocupados com o que julgam ser uma perda da sua autonomia profissional e com a queda vertiginosa na qualidade dos cuidados com a Saúde Mental das pessoas nos Estados Unidos; que foram surpreendidos com a velocidade das mudanças no sistema de atendimento à saúde na América do Norte e que não imaginavam que as críticas pós-modernistas servissem como pretexto para o Governo sucatear os serviços de assistência à saúde em geral e de que elas viessem abalar a crença na efetividade e rigor dos tratamentos clínicos de problemas psicológicos. Esclarecem que, ao contrário, acreditavam que suas críticas constituíssem um exortação para um amplo protesto público contra a dominação do paradigma modernista.

Afirmam que as modalidades de tratamento mais comumente usadas pelos norte-americanos para acompanhar dependentes de álcool, drogas ilícitas e outros distúrbios e transtornos compulsivos encontram-se baseadas na “autoajuda” [Self-help] exotérica ou confessional não profissional sob a responsabilidade de voluntários filantropos vinculados a uma pletora de organizações beneficentes do tipo Alcoólicos Anônimos e similares. Todavia ressaltam que os serviços profissionais mais do que nunca foram solicitados - exlusivamente para administração de terapias baseadas em medicamentos - relegando um papel secundário à psicoterapia.

Constatam que na Sociedade Pós-Moderna ocorre uma corrida desesperada em defesa da Psicologia como Ciência e do Paradigma Modernista minimizando suas profundas fendas epistemológicas. Lamentam que o bate-boca entre adeptos da psicoterapia e do tratamento medicamentoso não se deram conta ainda – ou não querem se dar conta – que ambos estão contaminados pelos viéses da metodolgia modernista e que têm sido ineficazes na supressão da dor e da psicopatologia. Defendem que, até onde se sabe, tais procedimentos clínicos informados pelo pensamento modernista têm se revelado incapazes de extinguir a violência entre pessoas e grupos, deter o fracasso escolar generalizado ou minimizar o sofrimento emocional da humanidade.

Concluem a apresentação do capítulo professando que, para eles e outros pensadores simpatizantes do pensamento pós-moderno  (teórico-críticos, feministas, neomarxistas, psicólogos socioculturalistas, teóricos da atividade, socioconstrucionistas etc), o problema  não reside no fato de a Psicolgia ser ou não “científica” mas de reconhecer que a Psicologia é um pseudociência. Na ampla perspectiva pós-moderna para o entendimento da vida humana as “fendas” no discurso afirmativo da Psicologia como Ciência resultam do seu esforço em decalcar de modo grosseiro a metodologia das ciências naturais. Este esforço é, do seu ponto de vista, a origem das fraturas observadas na “radiografia” epistemológica da Psicologia.

Passam a expor o próximo item do capítulo intitulado A Nova Ontologia [The New Ontology]


ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (20 )

A segunda parte do livro é a mais extensa e subdivide-se em quatro capítulos que possuem, cada um, vários ítens e subítens.

Antecedendo-os encontra-se uma breve apresentação dos assuntos que serão abordados neste trecho da argumentação dos autores (4º ao 7º capítulos) intitulado A História desconhecida da Psicologia: O Estado e a Mente [Psychology’s Unheard-of Story: The Stade and the Mind].

Iniciam por nos revelar que um dos favoritos passatempos de muitos ilustres e conceituados psicólogos particularmente dos que se dedicam à clínica e psicoterapia é fazer piada dos diagnósticos; que são muito frequentes o aproveitamento humorístico de citações do 4º Manual para Diagnóstico e Estatística de Disturbios Mentais /DSM-IV da Associação Norte-Americana de Psiquiatria de 1994 [Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders IV] – um compêndio com centenas de categorias e subcategorias de doenças mentais considerado “bíblia” da Psicologia Clínica.

Citam a descrição “técnica” de algumas síndromes que em geral são motivo para boas gargalhadas, que cabem serem transcritas aqui:

Desordem Hipoativa do Desejo Sexual: Deficiência ou ausência de fantasias sexuais e de desejo pela prática de sexo;
Desordem Dissociativa Geral Não Específica: Respostas não objetivas a perguntas que não representem Fuga ou Amnésia Dissociativa;
Desordem de Expressão Escrita: Combinação de dificuldades na habilidade pessoal para responder a testes escritos evidenciada por erros gramaticais e de pontuação na redação de sentenças, organização do texto em parágrafos muito extensos, múltiplos erros de pronúncia e caligrafia pouco legível.

Explicam que o objetivo deles ao acentuar o absurdo de tais descrições técnicas no manual “oficial” de distúrbios mentais é a incapacidade do DSM-IV de contribuir para o trabalho rigoroso dos especialistas e denunciar que os especialistas que ousam recusar seguí-lo têm seus postos de trabalho ameaçados sob a alegação de que “sem diagnóstico, não ocorre liberação de verbas para o tratamento nem pesquisa” [No diagnosis, no reimbursement (p.58)]. E o que é ainda pior: que os próprios pacientes em geral exigem um “laudo” oficial sobre o que há de errado com eles, ou seja, desejam confiantemente serem diagnosticados.

Seu ponto de vista é o de que qualquer pessoa minimamente instruída ao examinar o DSM-IV pode constatar tratar-se de algo que desavergonhadamente se afirma como Ciência. Esclarecem que, repleto de inconsistências, o DSM-IV revela contradições, categorizações arbitrárias e normativo-prescritivas. E perguntam-se indignados como algo tão obviamente acientífico sob variados aspectos pôde converter-se em guia hegemônico para as práticas de Saúde Mental particulrmente nos Estados Unidos.

Esclarecem que sua intenção nesta segunda parte do livro será problematizar a institucionalização da Psicologia como “Ciência” e o impacto de sua influência “científica” sobre o imaginário das pessoas, de governos, serviços sociais e educativos, práticas bélicas e políticas; e de como a humanidade passou a considerá-la um “recurso legítimo” para o alcance de propósitos na administração e controle das práticas humanas e socioculturais.

Em resumo, afirmam que seu objetivo é trazer a público várias e pertinentes abordagens críticas pós-modernas que questionam a pretensão da Psicologia de se autodefinir como Ciência; que buscarão demonstrar como historicamente,  baseada na defesa de uma lógica da particularidade e do Eu, a Psicologia criou uma ontologia própria baseada em profecias autoconfirmadoras mascaradas por fundamentos pseudocientíficos.

Anunciam que nos capítulos da segunda parte do livro tratarão de alguns aspectos desta trajetória e sua repercussão sociocultural entendendo-a antes como uma “corrida para fazer mais dinheiro” do que como “uma inocente fábula ou mito.”

Seguem apresentando o quarto capítulo intitulado A Nova Ontologia e a Mitologia da Psicologia [The New Ontology and Psychology’s Mythology]