domingo, 9 de janeiro de 2011

MÍSTICA TUPY-GUARANY

Gostaria de parabenizar Alexandre Timbó e toda a equipe do programa Mosaico Baiano e da TV Bahia por inserir na divulgação do roteiro cultural do estado, veiculado por esta emissora, as expressões espetaculares extracotidianas da cultura popular baiana particularmente no programa do dia 17 de janeiro de 2009. Isso é muito importante para minar os preconceitos e resistência à apreciação da estética não hegemônica das manifestações artísticas espontâneas e ingênuas (naif) que se chocam com os valores usualmente reconhecidos pela lógica e o “bom gosto” ocidental.


Todavia quero ressaltar que apenas o registro do cortejo que antecede a mística guarani em Itaparica não dá conta do esplendor da festa que ocorre, de fato, com a teatralização de episódios que insistem em sobreviver na memória da coletividade guarani desafiando a “contação” de histórias oficiais sobre a Campanha da Bahia e das lutas pela Independência do Brasil, concretizada em 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva dos portugueses da Bahia - que mobilizou intensamente os habitantes da ilha capitaneados pela negra Maria Felipa. Nem o documentário sobre os Guaranis veiculado pela TV Brasil preenche a lacuna da manifestação presentativa do evento, porque embora rico em depoimentos dos autênticos guardiões desta tradição cultural [o documentário da TV Brasil], ocorreu de modo de(s)contextualizado do período da encenação, sem a presença do calor “ao vivo” do público e das representações.



Na noite do dia 06 de janeiro, após o cortejo à tarde que leva o carro com a imagem do caboclo até o panteão da praça municipal - que ali permanece até o dia 09 de janeiro, quando ocorre a recolha do carro – acontece, no interior de uma paliçada (palco) forrada de areia branca, a espetacularização ritualística da participação dos povos da floresta e dos negros nas batalhas pela concretização da Independência do país.



Do dia 06 ao dia 09 de FEVEREIRO, todas as noites, a partir das 20:00h, o ritual se repete apresentando, a cada vez, novos episódios performados de modo improvisado pelos “brincantes” (não atores que fazem uso da linguagem teatral). Personagens como Caciques, Pajé, Capitães-do-Mato, Rainha Imaculada e suas aias são claramente delineados e caracterizados atuando de modo surpreendente a cada “celebração”. As apresentações contam com uma orquestra de percussão ao vivo composta por três alabês jejê (atabaques tocados com mãos) e dois maracás (caxixis a partir de cabaças decoradas com rede de unhas de cabra e sementes).


Trata-se de um espetáculo de rara beleza oferecido gratuitamente a todos que podem assistí-lo em pé, concentrados ao redor da paliçada - um palco aberto (Open Stage) ou Teatro de Arena rústico. Mas que necessita de infraestrutura para conferir maior e melhor visibilidade. Por exemplo: (1) arquibancadas ao redor da paliçada para melhor e confortável visualização dos episódios por parte dos espectadores; (2) sonorização multidirecional do evento; (3) telão para acompanhamento a partir da praça de alimentação no palco erguido para atrações musicais durante a madrugada após a mística. (4) iluminação com projetores de 500 e 1000 wts da arena e do trajeto do cortejo de recolha do carro [que ocorre à noite]; (5) maior número de banheiros químicos; (6) folder com a programação detalhada do evento explicitando os horários das funções, roteiro, elenco e ficha técnica do espetáculo-mística guarani; (7) ampla divulgação pelos orgãos de turismo e midia da Bahia; (8) infraestrutura de transportes coletivos para deslocamento de turistas, curiosos e da população de Salvador, Recôncavo e outras regiões do estado de Bom Despacho até Itaparica.



Tentei registrar em vídeo fragmentos do espisódio mas a iluminação por gambiarras existente é insuficiente para captura de imagens com uma maquina filmadora digital amadora. As fotos, só ficam visíveis com flash – o que interfere na coloração original da maquiagem, das pinturas corporais e dos figurinos – a luz natural, solar, como ocorre no documentário Os Guaranis e na matéria do programa Mosaico Baiano, também.

No dia da última celebração que antecede a recolha do carro do caboclo é servida gratuitamente uma beberragem aos “brincantes” e ao público - a Jurema – acondicionada em moringas. Um preparado com canela e cachaça e outras ervas aromáticas muito saboroso e de alto teor alcoólico.

As cantigas entoadas pelo grupo de brincantes merecem ser registradas em áudio e serem disponibilizadas em CDs para posterior escuta e registro da história oral/musical não oficial da Campanha da Bahia - que sobrevive e se (re)afirma com a manutenção da mística guarani   (o documentário apenas apresenta fragmentos de canções e poucos cânticos; a matéria do progama da TV Bahia também).



 
Vou encerrar o meu faltório aqui transcrevendo fragmento da letra da última cantiga do espetáculo - que registrei em áudio - e é entoada repetidamente ao longo da recolha do carro do caboclo pelos brincantes e pelos seus seguidores ao som de alabês jêje e de uma pequena fanfarra de instrumentos de metal por volta da meia-noite da sexta-feira (dia 09):

Despedida de caboclo!
Vai chorar...
Vai chorar pra soluçar!
Vai Chorar...



Odé n’ilê Odé!


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA (9)

O item Escolástica: A Crônica Pré-Moderna [Scholasticism: The Premodern strory] segue com a exposição aligeirada da trajetória histórica da Filosofia focalizando o impacto do Cristianismo sobre ela, particularmente no primeiro milênio após a morte de Cristo; revela os “ajustes ideológicos” que foram feitos ao dualismo platônico que resultaram na acentuação de sua dimensão religiosa judaico-cristã mística através da doutrina Maniqueista (BemXMau) de Santo Agostinho.

Ao valorizar o Platonismo e colocar no índex o Aristotelismo, a Idade das Trevas (como se costuma rotular a Idade Média) notabilizou-se pelo recrudescimento da irracionalidade, da superstição, miséria e pragas sob Tutela da Igreja Católica e apostolado do Maniqueísmo.

Os autores nos lembram que apenas no século XIII do calendário cristão hegemônico Aristóteles e os Pré-Socráticos ressurgem para “reiventarem” o Cristianismo e disseminarem a “nova” visão de mundo que vai preparar o terreno para o florescimento das crônicas (versões) modernas para o entendimento da vida humana na Política, Ciência, Tecnologia e Psicologia.

Teria sido forjada na ocasião uma junção complexa do Aristotelismo com a doutrina Católica, sob iniciativa de São Tomaz de Aquino - que se denominou Escolástica.

Esclarecem que a Escolástica converteu-se, desde então, em visão de mundo “oficial” da época, até a emergência da filosofia racionalista modernista (cujo marco são as teses da “nova ciência” de Galileu Galilei, difundidas a partir do século XVII.)

Holzman&Newman conseguem expor pedagógica e criticamente os “elos” não desinteressados do Catolicismo com as idéias de Aristóteles e a ruptura que significou a “nova ciência” galileana nos modos de pensar da humanidade a partir de uma densa argumentação que traduz sua erudição e sólida formação acadêmica em História da Filosofia.

Fazem questão de assinalar que apenas na contemporaneidade o Aristotelismo passa a ser questionado de modo radical; que o período pós-filosófico, pós-sistemático, pós-racional que estamos vivendo possui raízes tanto nas concepções filosóficas racionalistas difundidas na antiguidade grega como no pensamento modernista de inspiração galileana; que o Pós-Modernismo deve ser aplaudido por se propor ir além do modelo sistemático baseado na abstração autoconsciente que tem dominado os modos de pensar a Humanidade desde a Antiguidade Clássica.

Encerram sua argumentação irônica e provocativamente salientando que assim como a “nova racionalidade” que representa a visão galileana do mundo foi considerada pela Escolástica “irracional”, a “nova racionalidade” da Ciência Moderna é considerada pelos pós-modernistas (em nome dos quais se apresentam), também “irracional.”

[ - Durma-se com um  barulho desses?! ]

A seguir, no próximo item do capítulo, expõem criticamente aspectos da “crônica científica”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (8)

O próximo item do capítulo intitula-se Do Dualismo à Identidade Individuada [From Dualism to Individuated Identity].

É quando os autores caracterizam o pensamento ocidental hegemônico como submetido ao dualismo, às visões sistemáticas do mundo, enfim, aos modelos amparados em uma compreensão interpretativa (paradigmática) do Ser.

Para eles, todos os “contos da carochinha” da filosofia racionalista (Religião, Política, Ciência, Tecnologia e Psicologia) estão contaminados ideologicamente pelo dualismo. Em todas as abordagens da atividade tipicamente humana, sobretudo na contemporaneidade, encontram-se subjacentes as noções de autoconsciência e abstração (ou alienação), herdada dos gregos.

DeusXHomem, HomemXSociedade, ObservadorXObservado, CorpoXMente. O dualismo, em última instância, revela-se prerrogativa para o entendimento do ser humano e de sua atividade prático-intelectual seja na Religião, Política, Ciência, Tecnologia e Psicologia.

Explicam que apesar de periódicas “revoltas contra o dualismo” este modo dicotomizado (alienado ou “cindido”) de ver e compreender o mundo têm contaminado as pessoas ao longo dos séculos.

Entendem que o conhecimento abstrato e os modos de percepção encontram-se firmemente atados, oportunizando portanto a emergência da metáfora do ver e da visão - que pode ser facilmente identificada, por exemplo, em expressões cotidianas do tipo “eu vejo” e “eu sei”.

Revelam todavia que a problematização do “lado oculto” dos modos de pensar trazida pelos pós-modernistas levaram muitos psicólogos e filósofos simpatizantes do movimento [Pós-Modernismo], particularmente os militantes feministas, a rotularem a metáfora visual da Modernidade como “falocêntrica” – por acreditarem ser ela insuficiente para acolher novos modos de pensar (invaginação). [With postmodern “hindsight”, some feminist philosophers and psychologists, noting how pervasive the employment of the visual is to account for knowledge, have suggested that the visual metaphor is essencially phallocentric (p. 23)]

Em resumo, consideram o método socrático (o dualismo) uma crença “platônica” para referir o caminho em que as pessoas supostamente se moveriam no escuro da caverna, incandescidas pela luminosidade exuberante da Verdade - que estaria fora dela (da caverna). Para eles, o que se oferece às pessoas nas prateleiras dos supermercados do conhecimento na contemporaneidade não seria o Saber mas antes um modelo para pensar (um paradigma).

Para contrastar com este tipo de entendimento “míope” do psiquismo tipicamente humano [Filosofia Racionalista] os autores sugerem que se dê uma chance à explicação segundo o modelo marxiano, fundado na PRAXIS, no trabalho; por ser o trabalho uma atividade colaborativa relacional sócio-histórico e culturalmente enraizada.

Seriam promissoras abordagens ao conhecimento que renunciassem ao modo platonizado de entendimento da vida humana – que lamentavelmente tem dominado os “contos da carochinha” modernistas e sustentado a ideologia da filosofia ocidental hegemônica, ao longo dos séculos.

Consideram que a emergência do “euismo” no ver da filosofia racionalista grega encontra sua apoteose na pessoa individuada idealizada da religião pré-moderna, do Estado moderno e, a partir dos estertores do século XIX, da Psicologia. Para eles a Psicologia enquanto nova “ciência” foi criada no intuito de conduzir a “normalidade” e as enfermidades que a autoconsciência individuada manifesta e sofre.

Antecipam seu ponto de vista radical: o de que a Psicologia em si, como os outros filhos da Filosofia Ocidental, é um “conto da carochinha”, um mito; um mito fruto da relação incestuosa entre ela e sua genitora, a Filosofia Racionalista.

Encerram o item para retomar a exposição abreviada da trajetória panorâmica do pensamento intelectual no Ocidente.


ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (7)

Neste item do capítulo [Filosofia e Percepção] HOLZMAN&NEWMAN discorrem como os modos de perceber o mundo impactam o filosofar, retomando importantes concepções epistemológicas pré-socráticas sobre a ontologia. Destacam particularmente a metáfora da impossibilidade de banhar-se duas vezes no mesmo rio de Heráclito (que traduz a promissora noção de movimento permanente, Fluxo  ou “devir-do-Ser”) e sua oposição à idéia de Permanência definitiva do “Ser” contrapondo-se ao “não-Ser”, de Parmênides.

Discorrendo sobre as contribuições dialéticas de Zenão de Eleia, discípulo de Parmênides, destacam-lhe a sábia concepção do pensamento como propulsor da movimentação de conceitos em si mesmo.

Preferem entender como ingênua a teoria de Tales de Mileto sobre a “água” como princípio inaugural da animação infinita única e universal e destacar a dicotomia SingularXUniversal, FinitoXInfinito valorizada pelo acalorado debate entre Heráclito e Parmênides – que foi aproveitada habilidosamente pelo jogo de linguagem da argumentação filosófica de Platão.

Ao afirmar o decisivo papel da PERCEPÇÃO na elaboração das visões de mundo em ambos (HeráclitoXParmênides), Platão retrata a epistemologia e a ontologia como fundamentalmente percebidas.

Para os autores a dicotomia SUJEITO COGNOSCENTE X MUNDO COGNOSCÍVEL teria se tornado essencial para o pensamento platônico e a partir de então para a Filosofia e para a aventura intelectual ocidental através dos séculos.

NOTA EM RODAPÉ

Neste momento de sua provocativa tese talvez os autores pudessem sinalizar a dimensão metafórica dos nomes atribuídos pelos gregos aos conceitos que buscavam representar. Hegel poderia ajudá-los no enriquecimento de sua argumentação ao esclarecer o que Tales de Mileto ambicionava referir por “água”:

“O princípio [Ser] entre os filósofos antigos possui, primeiro, uma forma física determinada. Vê-se que a água é um elemento, um momento no todo em geral, uma força física universal; mas outra coisa é que a água seja uma existência física singular como outras coisas naturais... Aqueles princípios [água, fogo, ar, terra] são figuras singulares.” [ Extraído de Preleções sobre a História da Filosofia][Maiúsculas minhas]

Citado por Ernildo Stein em SOUZA, José C. de [Org] (2005) Tales de Mileto Os Pré-Socráticos – Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, p. 42-43.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (6)

Sob o subtítulo Filosofia como Metodologia, Epistemologia e Ontologia [Philosophy as Methodology, Espistemology, and Ontology] os autores consideram as respostas dadas por Platão aos questionamentos dos pré-socráticos (dispersos em sua fragmentação doxográfica) o primeiro esforço vitorioso de organização sistemática da visão de mundo dos gregos na Antiguidade e, com isso, a inauguração da Filosofia propriamente dita.

Para eles a importância de Platão não reside unicamente na divulgação de sua filosofia idealista (visão platônica do mundo) mas no importante reconhecimento de que filosofar implica necessariamente um modo de ver o mundo, ou seja: a existência de um mundo, um sujeito que vê, e um método para estabelecer elos entre quem vê e o que é visto.

Sentem-se no dever de recontar a história do desenvolvimento do pensamento intelectual ocidental - que teria sua origem na Grécia Antiga - a partir da delimitação conceitual do que compreendem por ONTOLOGIA (a existência real do mundo), EPISTEMOLOGIA (conhecimento sobre o mundo) e METODOLOGIA (os meios de conectar a realidade objetual e o conhecimento colaborado a seu respeito).

Reconhecem o simplismo com que expõem o desenvolvimento histórico do pensamento intelectual (em geral atribuído aos gregos) bem como o relevante papel ocupado pela sistematização de conceitos na organização racional dos modos de ser tipicamente humanos.

Esclarecem que a autoconsciência e a abstração não são apenas produtos da alienação mas uma das pré-condições (lentes) para as pessoas se moverem num mundo que, em todos os aspectos, foi mercantilizado sob o capitalismo.

Fazem questão de assinalar que a alienação é inseparável da visão sistemática do mundo advogada pela filosofia racionalista e de seus “contos da carochinha” - que sustentam tanto as teses da economia “livre” ou “de mercado” bem como a do seu controle ou “estatização”.

Sugerem que busquemos ver não tanto uma “Nova Ordem Mundial” nos modos de ser tipicamente humano na contemporaneidade mas, antes, vislumbrar com clareza o meio sóciocultural em que vivemos sem as já desgastadas lentes da Filosofia. [... what we have to look forward to is not so much a New World Order as a No World Order (p.21)]

Seguem expondo seu original ponto de vista no próximo subtítulo do capítulo intitulado Filosofia e Percepção [Philosophy and Perceptuality]  

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

YIYO




 

A Diestro Jose Cubero Sanchez – El Yiyo
Morto na arena de touros de Colmenar Viejo em 30/set/1985 
in memoriam
A
Glória
O
Cegou
E
Um corno
Partiu-lhe
O
Coração
Na
Arena
Sangue e areia
Touros  


ISABEL (3)

Escuro lento. Clarão. Escuro rápido. Ouve-se trecho majestoso contínuo logo após a abertura da ópera O Guarani de Carlos Gomes.

        Luz na Senzala da Fazenda Barro Vermelho. A jovem mucama Dandara visita sua mãe e outras negras durante preparo da refeição dos trabalhadores escravos.

Maria Judite
(Acariciando-lhe o ventre) A barriga já tá aparecendo, fia... Pelo jeito do seu umbigo deve de ser menino homem
Dandara
Será?
Maria Judite
O sangue de Tôin Bento é forte! Né atoa que ele foi escolhido reprodutor dos escravos da Barro Vermelho...
Dandara
(Baixo) Ele me chamou pra fugir com ele pra o Quilombo de Jabaquara...
Maria Judite
E tu vai? De barriga? Esse tal quilombo não fica pros lado da Corte?
Dandara
É... Fica escondido nas matas à sudoeste das terras que são propriedade da família da Marquesa de Santos.
Maria Judite
Vixe! É longe demais... Capaz do menino nascer no meio da estrada... Tu já tá quase na hora de parir...
Dandara
Por isso vim me aconselhar com a senhora, mãe...
Maria Judite
Vai não fia! Fica pra ter o menino aqui no conforto da casa grande... Tú é mucama querida de Sinhá Barbina...
Dandara
Dona Bárbara disse que a criança vai nascer livre, por causa da Lei do Ventre Livre assinada pela Princesa Leopoldina!
Maria Judite
E é mulé que tá sentada no trono do Império?
Dandara
A filha do Imperador Dom Pedro II - que assumiu a coroa mediante licença do pai... Princesa Regente Imperial Isabel Cristina Leopoldina de Bragança.
Maria Judite
E deixaro mermo uma mulé mandar no Brasil?
Dandara
Dizem que ela será a sucessora de Dom Pedro II, a nova Imperatriz do Brasil...
Maria Judite
E os dono de terra vai aceitar ser comandado por um Imperador de saia? Tu acha mermo que essa tal lei vai ser cumprida?
Dandara
Pelo menos o Barão de São Félix disse que a Barro Vermelho vai respeitar o decreto da Princesa – foi o que me garantiu Dona Bárbara...
Maria Judite
Então... Mais um motivo pra parir aqui!
Dandara
É que a Zumira...
Maria Judite
O que Zurmira tem a ver com teu fio?
Dandara
Ela anda dizendo que vai fugir com Antônio Bento pro Quilombo de Jabaquara; que vai lutar ao lado dele; que vai ser a mulher dele...
Maria Judite
Deixa Zurmira ir!... Tu tá de barriga, fia... Teu fio vai nascer livre! Faz isso por ele... Tôin é pai de muita criança já nascida aqui e acolá. Ele né home de uma mulé só! Tu sabe disso...
Dandara
Sei... Mas eu amo ele.
Maria Judite
Ama mais do que esse menino que tu tá carregando aí dentro?

        Escuro rápido. Ouve-se toques do Ijexá de Oxum.

        Nos campos de plantação da Fazenda do Barro Vermelho Antônio Bento e outros homens negros trabalham na colheita das folhas de fumo. São surpreendidos pela chegada rumorosa de Zeza, moleque de recados do Barão do fumo de São Félix.

Zeza
(Desesperado) Tôin! Tôin! Mataro Pai Joaquim! Mataro!

        Agitação dos negros [caifazes] que se aglomeram em volta de Antônio Bento e Zeza.

Antônio Bento
Mataram?! Como? Quando?

Zeza
(Ofegante) No tronco... De chicote...

        Revolta e indignação dos negros.

Antônio Bento
Por que levaram ele pro tronco?
Zeza
Ouviro falar do levante e da fuga pro quilombo... Queriam que ele dissesse quem estava de cabeça no movimento, que entregasse os irmão... Levaro ele pro tronco e judiaram do véi até ele morrer, mas Pai Joaquim num falô nada... Preferiu morrer a ter que abrir a boca... Morreu sem sequer dar um grito de dor...
Coro de caifazes [negros escravos rebelados]
(Recitam em jogral o poema A cruz na estrada de Castro Alves)
Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.
        Que vale o ramo do alecrim cheiroso
        Que lhe atiras nos braços ao passar?
        Vais espantar o bando buliçoso
        Das borboletas, que lá vão pousar.
É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.
        Não precisa de ti. O gaturamo
        Geme, por ele, à tarde, no sertão.
        E a juriti, do taquaral no ramo,
        Povoa, soluçando, a solidão.
Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.
        Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
        A sepultura fala a sós com Deus.
        Prende-se a voz na boca das cascatas,
        E as asas de ouro aos astros lá nos céus.
Caminheiro! Do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.
Antônio Bento
Temos que apressar os acontecimentos e precipitar nossa fuga! A pretexto de velar e enterrar Pai Joaquim vamos deixar a lida na plantação e nos embrenhar no mato ao cair da noite. Um grupo segue em cortejo para o velório do Pai Joaquim e outro vem comigo pra senzala ajuntar comida e água pra nossa caminhada rumo à terra prometida. (Para Zeza) Zeza, pega o cavalo e vai correndo até a aldeia dos Aymorés que fica lá pros lado do Rio Uma; avisa o Caboclo Manuel Galdino que nós tamo indo. O combinado é de ele ser nosso guia pelas mata até o Quilombo de Jabaquara. Eu vou pegar Dandara e Zumira que ficaro de ir com os fugidos.

        Zeza sai apressado. Antônio Bento organiza os homens em dois grupos. Ouve-se o alujá de Xangô.

Luz sobre a sala da casa de Don’Ana mãe maior. Ela e mãe pequena conversam enquanto retiram seus ornamentos e objetos utilizados na procissão.

Mãe Maior
Quanto a Irmandade arrecadou na procissão de hoje?
Mãe Pequena
Muito pouco Don’Ana... Setecentos.     
Mãe Maior
De grão em grão a galinha enche o papo... Num é assim?
Mãe Pequena
É o que diz a Lei da Natureza... (Pausa) Quanto falta pra comprar a liberdade da princesa de Ruanda?
Mãe Maior
Quatro mil e trezentos!
Mãe Pequena
Onde ela tá?
Mãe Maior
Minha sobrinha tá na Barro Vermelho. É mucama de companhia da mulher do Barão do Fumo de São Félix... Os cauri disseram que ela deve ser a minha sucessora.
Mãe Pequena
Tem de ser ela?
Mãe Maior
Não sou eu quem escolhe a zeladora do culto, Pequena...


Na senzala da Barro Vermelho. Antônio Bento inquieto aguarda a chegada de Dandara.


Zumira
Tú vai mermo levá ela?
Antônio Bento
Se ela quiser, vai com a gente
Zumira
Mesmo de bucho cheio?
Antônio Bento
Quero meu filho perto de mim... Nunca vi a cara de nenhum filho meu.
Zumira
Queria poder te dar um filho...
Antônio Bento
Mas tu não pode. Tem o ventre seco!
Zumira
Num precisa jogar isso na minha cara!
Antônio Bento
(Aflito) Dandara tá demorano muito!
Zumira
Mulé de barriga é assim: tudo devagar... E tu ainda quer levar esta “mala” sem alça com a gente...
Antônio Bento
Pára de falar criatura!
Zumira
(Fazendo-lhe um carinho) Tu precisa dela pra que?

        Antônio Bento rechaça seu gesto de carinho.

Zumira
(Despeitada) Tu não me tem na hora que quiser? Pra que levar ela?
Antônio Bento
Fecha a matraca mulé!
Zumira
(Sedutora) Vai, fecha logo minha boca com aquele seu beijo gostoso...

        Antônio Bento beija-a voluptuosamente aprisionando-a com agressividade viril em seus braços. Volta a ouvir-se o alujá de Xangô. Dandara chega surpreendendo-os.

Dandara
Tôin...
Antônio Bento
(Afastando Zumira) Minha Princesa... Achei que não vinha mais...
Dandara
Vim só me despedir...
Antônio Bento
(Decepcionado) Cê num vai?
Zumira
(Exultante e agradecida dirigindo-se aos céus) Obrigada meu Pai! Kaô! Kaôkabiezile! Kaaô!
Dandara
Vou atrapalhar a viagem de vocês... Num quero ser um estorvo.
Antônio Bento
Num vou ver a cara do meu filho?
Dandara
Não diga isso... Vou estar aqui te esperando. (Entregando-lhe uma trouxa com mantimentos) Trouxe isso pra viagem de vocês, farinha com carne seca frita.

        Antônio Bento recebe o alimento e passa-o para Zumira. Em seguida beija longa e ternamente Dandara. Ouve-se agora o Ijexá de Oxum.


Zumira
(Enciumada retira-se) Vamo logo com isso Bento! Num temo tempo a perder...

        Escuro lento ao som do volume crescente do Ijexá de Oxum.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (5)

Neste subtítulo [Os Pré-Socráticos] do segundo capítulo [Entre a Ilíada e a Odisseia] que dá início à primeira parte do livro [Alguns contos filosóficos], os autores deixam claro que a história da Filosofia (racionalista) tem por base a recolha de fragmentos de escritos de autores que compõem a doxografia (compilação filosófica) do pensamento grego datados a partir de meio século antes de Cristo; que a figura de Sócrates é tomada como o “Cristo” da Filosofia - e de toda a história da Filosofia; que a filosofia ocidental tem sido forjada com base no que se produziu antes ou após os seus ensinamentos (de Sócrates). Recordam-nos que o próprio Sócrates, assim como Cristo, nada deixou escrito sobre seus pensamentos e ações.

De fato, as “lições” de Sócrates e de outros pensadores da época foram registradas em escritos por parte de seus seguidores que afirmam terem testemunhado suas especulações. O marco no desenvolvimento do pensamento racional teriam sido os “diálogos” pedagógicos de Sócrates com seus “alunos” - que só chegaram ao conhecimento público, na contemporaneidade, a partir dos relatos de Platão, seu discípulo, particularmente ao transformá-lo em personagem central de A República.

Holzman & Newman destacam o questionamento a respeito do questionar como a principal contribuição de Sócrates para o progresso do pensamento verbal e da linguagem intelectual. Para eles, a discussão do método (processo da gênese e desenvolvimento dos questionamentos) é o que pode nos auxiliar a entender sobre o QUÊ e COMO se coloca a problemática do pensamento autoreflexivo na perspectiva filosófica.

Anunciam os fundamentos de sua crítica à filosofia racionalista, entendida por eles sobretudo como atividade metalinguística engendrando a si própria e principal responsável pelos modos de pensar da Civilização Ocidental (Religião, Política, Ciência, Tecnologia e Psicologia).

Responsabilizam o filósofo William James pela ambição da Psicologia em tomar para si a responsabilidade na exploração de questões ancestrais que permanecem ainda assombrando os seres humanos na contemporaneidade. Por fim, informam sua disposição em demonstrar a “desautorização” dos estudos da consciência em longos períodos ao longo da breve existência da Psicologia, no capítulo quarto do livro.  

A seguir nos apresentam o próximo subtítulo do capítulo Filosofia como Metodologia, Epistemologia e Ontologia [Philosophy as Methodology, Espistemology, and Ontology]



NOTA EM RODAPÉ


Consultar:

PESSANHA, José Américo Motta (2005) Sócrates [Platão] – Apologia de Sócrates, Xenofonte, Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural.

CORVISIERI, Enrico (2005) Platão – A República. São Paulo: Nova Cultural.


domingo, 26 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (4)

Após a apresentação da PRIMEIRA PARTE se seguem  dois capítulos denominados respectivamente Entre a Ilíada e a Odisseia [Between the Iliad and the Odyssey] e A Glorificação da Experiência: Filosofia Moderna, Psicologia e Lógica [The glorification of Experience: Modern Philosophy, Psychology and Logic].

A partir da tese de Julian Janes de que a diferença essencial entre a Ilíada e a Odisseia não reside apenas no período ao qual se referem as lendas e mitos narrados em ambos escritos atribuídos a Homero, mas em COMO se dá a narrativa das epopeias homéricas dos povos micênicos e aqueus, após sua expulsão da península grega pelos dórios - de mesma origem étnica.

Na Odisseia evidencia-se a voz narrativa autoral e criativa dos aqueus em contraste com o que ocorre na Ilíada - em que a narrativa contenta-se em não ir além do que pertence às tradições ancestrais da memória oral micênica e aqueana.

É nesta ruptura do modo de narrar que Janes especula ocorrer a consolidação ideológica da autoconsciência e da abstração que caracterizam o pensamento grego.

Os autores informam aos leitores sua concordância com a provocativa tese de Janes - que lhes servirá como ponto de partida para uma abordagem crítica à gênese e ao desenvolvimento da filosofia racionalista dos gregos através dos séculos no primeiro milênio após Cristo, no capítulo.

Os Pré-Socráticos [The Pre-Socratics] é o primeiro subtítulo da exposição documental da trajetória da filosofia racionalista, pelos autores, no livro.

NOTA EM RODAPÉ

A natureza especulativa da tese de Janes por si só já revela a dimensão signitiva do conhecimento fundado na linguagem verbal, tipicamente humano – que é a questão principal discutida pelos autores. Descobertas arqueológicas podem concorrer para que indicações mais convincentes possam substituir elucubrações controversas quanto às origens do início histórico da Filosofia e do racionalismo no pensar da humanidade. A questão permanece em aberto: “O que terá levado o homem, a partir de determinado momento de sua história, a fazer ciência teórica e filosofia?”; mas o núcleo duro do problema reside mesmo em precisar a passagem da mentalidade fazedora de mitos para a mentalidade “teorizante” sobre os mitos.

Consultar SOUZA, José C. de [Org] (2005) Do mito à filosofia. Os Pré-Socráticos – Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, p. 5-13.