domingo, 26 de dezembro de 2010

ISABEL (2)

PRIMEIRA PARTE
PRIMEIRA REGÊNCIA (1871-1872)
O Gabinete Rio Branco

Uma procissão em louvor de Nª Srª da Boa Morte atravessa a cena ao som de matracas e cânticos rituais tradicionais à luz de velas.





Coro de senhoras negras ex-escravas
Valei-nos Nossa Senhora da Boa Morte!
Mãe Maior [Anciã]
Livrai-nos do julgo masculino!
Coro de senhoras negras ex-escravas
Livrai Mãe Senhora todas as mulheres do julgo masculino!
Mãe Pequena
Poupai Maria Mãe de Deus as mulheres negras mães e seus filhos do escravismo!
Coro de senhoras negras ex-escravas
L’Ôdô Yá! L’ôdô Yá!
Mãe Maior
Grande Senhora, em seu nome pedimos contribuições a todos...
Mãe Pequena
Para alforriar a realeza de além-mar subjugada à força bruta
Coro de senhoras negras ex-escravas
E a todos os que são condenados ao escravismo indigno
Mãe Maior
Pedimos em nome das vozes escravizadas d’África
Mãe Pequena
Eu [África] triste abandonada, em meio das areias esgarrada, perdida marcho em vão...
Coro de senhoras negras ex-escravas
(Entoando em modo de jogral Vozes D’África de Castro Alves)
Se choro... bebe o pranto a areia ardente
Talvez... pra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
        E nem tenho uma sombra de floresta...
        Para cobrir-me nem um templo resta
        No solo abrasador...
        Quando subo às pirâmides do Egito
        Embalde aos quatro céus chorando grito:
        “Abriga-me, Senhor!...”
[...] Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada no seu branco Albornoz...”
        Nem vêem que o deserto é meu sudário
        Que o silêncio campeia solitário
        Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
        Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim...
Onde branqueja a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
         Que desce de Efraim...
Mãe Maior
[...] Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
        De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? Que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...
Mãe Pequena
[...] Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir – judeu maldito –
        Trilho de perdição.
Mãe Maior
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa – arrebatada –
        Amestrado falcão!...
[...] Hoje em meu sangue a América se nutre
- Condor que transformara-se em abutre,
        Ave da escravidão.
 [...] Basta, senhor! [...] Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá do infinito
Coro de senhoras negras ex-escravas
Meu Deus! Senhor, meu Deus!

         A procissão de negras ex-escravas deixa a cena. Escurecimento lento.



         Luz sobre sala de audiência do Gabinete Rio Branco. A Princesa Isabel Cristina Leopoldina de Bragança lê alto e bom som páginas de um livro para alguns assessores. Usa uma camélia branca como broche apensada ao peito na altura do coração.

Camélia - símbolo da luta pela abolição do escravismo no Brasil




Princesa Isabel
(Lê e diz o poema Mater Dolorosa de Castro Alves)

Meu filho, dorme, dorme o sono eterno
No berço imenso, que se chama – o céu.
Pede às estrelas um olhar materno,
Um seio quente, como o seio meu.

Ai! borboleta, na crisálida,
As asas de ouro vais além abrir.
Ai! rosa branca no matiz tão pálida,
Longe, tão longe vais de mim florir

Meu filho, dorme... Como ruge o norte
Nas folhas secas do sombrio chão!...
Folha dest’alma como darte à sorte?...
É tredo, horrível o feral tufão!

Não me maldigas... Num amor sem termo
Bebi a força de matar-te... a mim...
Viva eu cativa a soluçar num ermo...
Filho, sê livre... Sou feliz assim...

- Ave – te espera da lufada o açoite,
- Estrela – guia-te uma luz falaz.
- Aurora minha – só te aguarda a noite,
- Pobre inocente – já maldito estás.

Perdão, meu filho... se matar-te é crime...
Deus me perdoa... me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime...
Velem-te os anjos e te cuidem lá.

Meu filho dorme... dorme o sono eterno
No berço imenso, que se chama o céu.
Pede às estrelas um olhar materno,
Um seio quente, como o seio meu.

        Fecha o livro e coloca-o sobre a escrivaninha.

Princesa Isabel
(Para os assessores) Mater Dolorosa - quinto poema de Os Escravos de Antônio Frederico Castro Alves, escrito aos 7 de junho de 1865, em Recife... (Pausa) Uma pena ter sido colhido tão jovem pela tuberculose o nosso poeta... 24 anos!? – o arauto da abolição do escravismo no Brasil... Cuidem para que seja sancionada a Lei do Ventre Livre ainda neste ano de 1871, também uma homenagem póstuma ao bardo baiano, antes que finde o período destinado à minha primeira imperial regência. O texto do decreto já foi revisado e segue assinado por mim devendo ser aprovado, sem objeção, pela Assembleia, em 28 de setembro próximo. É este o meu imperial dever ético - e vontade política.

Assessor Chefe do Gabinete Rio Branco
Providenciarei o que Sua Alteza Imperial ordena instantaneamente! Com sua permissão, Princesa?

Retira-se apressado e reverentemente sendo seguido por assessores subordinados com o texto manuscrito da Lei nas mãos.

Princesa Isabel
(Após a saída dos assessores) E então meu caro José... O que clamam os ex-combatentes negros, nossos heróis da vitória brasileira sobre o Paraguai?
Jose do Patrocínio
Recusam-se retornar à condição de escravos por terem sido condecorados pelo Império. Estão sendo perseguidos e sofrendo todo tipo de pressão por parte dos antigos “donos” por isso...
Princesa Isabel
É necessário haver uma ampla movimentação social em favor da abolição do escravismo para conferir legitimidade aos atos do Império... quero dizer: para que as palavras saltem dos papéis e ganhem as ruas...
José do Patrocínio
Sem dúvida. Agora que temos a propriedade do jornal O Abolicionista será mais fácil influenciar a opinião pública... Pensamos em fundar uma Confederação pela abolição do escravismo. A idéia é servirmos de modelo a outras publicações antiescravistas e arrecadar fundos para pagamento de cartas de alforria e pressionar as autoridades federais até que seja definitivamente abolida a escravidão no Brasil.
Princesa Isabel
Quero que saibam que podem contar comigo. Além da Lei do Ventre Livre que acabo de decretar – que é o que pude fazer até agora com o apoio do Visconde de Rio Branco - como prova do meu compromisso com a nossa causa faço questão de inaugurar as doações destinadas às irmandades para compra de cartas de alforria cedendo este conjunto de peças em ouro, brilhantes e esmeraldas para adorno feminino, de grande valor, que me foi presenteado pela minha mãe, a Imperatriz Tereza Cristina, na ocasião do meu baile de debutante.

        Entrega-lhe a caixa contendo um conjunto composto de tiara, pingentes e gargantilha.

José do Patrocínio
Em nome de todos os abolicionistas, agradeço-lhe a inestimável contribuição. (Abrindo a caixa)  Um tesouro, Alteza! Um tesouro...
Princesa Isabel
Peço-lhe discrição - para não causar falatório que venha atrapalhar os nossos planos.
José do Patrocínio
Certamente Princesa, o nome do doador será mantido em sigilo absoluto.
Princesa Isabel
Fui informada da existência de uma sociedade de mulheres negras ex-escravas em Cachoeira, no recôncavo baiano, cidade onde meu pai fez construir uma ponte de ferro sobre o Rio Maragojipe que a liga à Vila de São Félix em reconhecimento ao fundamental apoio do povo daquela região à sangrenta Campanha da Bahia nas lutas pela consolidação da Independência do país. Gostaria que a Irmandade da Boa Morte - que congrega estas senhoras negras libertas, que se encontram sinceramente engajadas na compra de cartas de alforria para libertar mulheres e homens escravizados - fosse especialmente contemplada com a maior parte da soma auferida com a venda da jóia que ora lhe confio.
José do Patrocínio
Seu desejo terá bom êxito, Alteza! Uma demonstração de sua generosidade.
Princesa Isabel
Mais que generosidade, é um dever das elites econômicas resgatar a dívida histórica para com o povo negro escravizado já há quase trezentos anos no Brasil. Você bem sabe que as objeções são grandes por parte dos latifundiários acostumados aos lucros fáceis e a toda sorte de abusos da condição de escravos dos negros retirados à força de África e aos que aqui foram nascidos na aviltante condição de filhos dessa “instituição injuriosa” – para fazer eco às palavras do nosso amigo Visconde de Rio Branco.
José do Patrocínio
Como costuma dizer o amigo Joaquim Nabuco, a causa abolicionista além de ser um dever ético é sobretudo uma questão política em razão de o escravismo afrontar o Direito Internacional, como faz saber abertamente o Ministério das Relações Exteriores da Inglaterra.
Princesa Isabel
As pressões dos ingleses conseguiram minar em parte as resistências do Partido Conservador – que apoiará a sanção do Decreto-Lei que acabo de encaminhar ao nosso Parlamento conforme asseverou-me o Visconde - que fará sua defesa pública de modo intransigente.

Escuro lento. Clarão. Escuro rápido. Ouve-se trecho majestoso contínuo logo após a abertura da ópera O Guarani de Carlos Gomes.

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (3)

A PRIMEIRA PARTE do livro intitulada Alguns contos filosóficos [Some stories of Philosophy] é uma breve exposição da emergência da filosofia ocidental dominante, cuja gênese costuma-se vincular ao pensamento grego da antiguidade - organizado sistematicamente por Platão e seu discípulo e crítico Aristoteles.

Os autores advertem que, de modo algum, ao reconhecerem a relevância das noções de abstração e autoconsciência como importantes contribuições da filosofia grega helênica para o entendimento do psiquismo humano, estão aderindo ao equívoco evidente, embora usual, de considerar a cultura do povo grego, implícita ou explicitamente, superior às dos demais povos da Antiguidade.Para eles, o discurso sobre o pensamento intelectual fundado na autoconsciência e na abstração dos gregos não deve ser considerado menos superior que os feitos extraordinários dos grupos humanos que construíram as grandes civilizações no nordeste da África, Índia, China e Américas no período pré-helênico.

Holzman&Newman esclarecem que o pensamento filosófico grego ao converter-se em sócio da Religião (Cristianismo escolástico), da Política (Estados fundados em contratos sociais), da Ciência e Tecnologia (Matematização e objetificação da Natureza) e da Psicologia (Dualismo Corpo-Mente cartesiano e kantiano) passa a exercer hegemonia plena no mundo ocidental, esculpindo, ao longo dos séculos, os modos de pensar, falar, sonhar e de ser dos seres humanos.

Todavia, para ambos, a opulenta filosofia racionalista ou sistemática dos gregos, em razão da calcificação conceitual de sua estrutura, começa a apresentar rachaduras e a ruir ocasionando a sua “morte”. Isto, a morte da Filosofia - e não a morte do Comunismo - é o que sela definitivamente o encerramento do século XX na opinião dos autores [“... the singularly significant event of this, the twentieth century, is likely to be not the death of communism, but the deth of philosophy.” (p.14)]

Comprometem-se a evidenciar, na segunda parte do livro, a autodestruição da Filosofia e sua eutanásia pela Psicologia – filha abortada de sua “cópula” com a Ciência.
Concluem perguntando-se sobre os caminhos do desenvolvimento humano e até mesmo se qualquer desenvolvimento seria possível após isso. Indagam quais novas “estórias da carochinha” [Children/stories] seriam criadas pela Psicologia e contadas às pessoas e como elas seriam convincentemente recriadas.

Finalmente opõem-se abertamente a Francis Fukuyama quando este alardeia que a Pós-Modernidade é “o fim da história” [The end of history].

Os autores estão convencidos de que a história continua, mas sem a Filosofia.


sábado, 25 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (2)

Na INTRODUÇÃO os autores deixam claro que seu objetivo com o livro é compartilhar uma atitude pós-moderna radical de confronto à Psicologia Ocidental “oficial” (hegemônica), despindo-a em público. Anunciam em alto e bom som, mas com dignidade, a falência dos axiomas “moribundos”, da crença “objetivista” e da pretensão “científica” desta fascinante área do conhecimento humano.

Ali definem-se como praticantes da Teoria Histórico-Cultural da Atividade-CHAT (Cultural-Historical Activity Theory) revelando sem pudor sua adesão à escola socioculturalista norte-americana; e justificam sua opção por acreditarem ser inseparável o entendimento do psiquismo humano dos modos de organização histórica da vida social.

Ao longo de doze páginas conseguem condensar os fundamentos da crítica feroz que fazem à tentativa comovente da Psicologia de aderir ao cientificismo - que impregna todo o pensamento modernista - mas não sem propor algo para ocupar o vácuo deixado pelos escombros da Modernidade.

A introdução divide-se por sua vez em duas partes intituladas respectivamente Filosofia, Ciência e Psicologia [Philosophy, Science and Psychology] e A Atividade fala mais alto do que as Narrativas [Activity Speaks Louder than Stories].

Os autores, na primeira parte, basicamente apresentam seu “DNA” epistemológico, emblematizado pelo diálogo franco com os pensamentos de Vigotskii e Wittgenstein - o que lhes permitiu formular uma abordagem performático-cultural para entender o psiquismo humano.

Deixam claro que o psiquismo tipicamente humano só pode ser genuinamente compreendido enquanto atividade criadora de novas formas de vida e que portanto só uma abordagem performático-cultural, não interpretativa, poderia dar conta de algo que é necessariamente relacional e atual (performático ou processual), ou seja, uma Psicologia Acientífica.

A rigor, os autores não propõe uma Psicologia propriamente dita mas um jogo qualitativamente novo que possibilite libertar definitivamente as subjetividades dos dolorosos processos de coisificação.[“indeed, not a psychology at all but a qualitatively new kind of play, a continuous uncommodified performance of subjectivity” (p.2)]

Esclarecem que o livro é uma continuação do seu Lev Vygotsky – cientista revolucionário [NEWMAN, F. & HOLZMAN, 2002 (Loyola)], ampliando e aprofundando a discussão do pensamento vigotskiano no qual se sustenta a Teoria Histórico-Cultural da Atividade/CHAT.

Informam que pretendem demonstrar como aspectos pós-modernos originalmente presentes em sua idéia-mãe permitem caracterizar a produção intelectual vigotskiana como sólida ponte entre a sufocante psicologia pseudocientífica modernista e as promissoras possibilidades que se apresentam a partir de sua atualização ou “pós-modernização”.

Os autores esclarecem que o pensamento vigostkiano, somado à filosofia de Wittgenstein emblematizada pelos jogos de linguagem [Language-games], lhes permitem confrontar  a autoridade avaliadora da Psicologia Científica e revelar como, ao ambicionar o status de ciência, a Psicologia se apresentou à Modernidade como a “voz da razão”; que farão isso examinando criticamente a tradição filosófica inaugurada pela Antiguidade Clássica ocidental, na primeira parte do livro, encorajados pelo amparo da rede de concepções diagnósticas conectadas ao pós-modernismo.

Em seguida apresentam os conteúdos a serem trabalhados na segunda parte do livro, anunciando que focalizarão de modo privilegiado o relevante papel da “contação de histórias” [storytelling] e das narrativas como ferramentas úteis para desvelar os vieses metodológicos e ideológicos das Ciências Sociais na Modernidade.

Explicam que não pretendem abrir mão de uma perspectiva crítica na abordagem à vertente narrativista ou interpretativista, embora reconheçam sua contribuição para a colaboração do conhecimento a respeito do funcionamento do psiquismo humano. Para eles, a postura narrativa ainda se encontra presa à noção de verdade por ser a interpretação, em última instância, uma proposição de verdade sob determinadas circunstâncias - o que equivale dizer que em algum sentido algo acaba sendo tomado por verdade. [ “An interpretation is a proposition that is true under certain circumstances; that is, given a certain interpretation, one takes something to be true.” (p.6)]
Anunciam a atividade como “unidade de análise” do psiquismo tipicamente humano e princípio criador emergente de novas formas de vida autoreferenciais e autoreflexivas nas quais sócio-historicamente o entendimento encontra-se inseparável do desenvolvimento.

Deixam claro que, para eles, as narrativas não reificadas (não naturalizadas), ou seja, o convite ao engajamento voluntário na colaboração relacional e continuada de novas formas de vida social é que obstinadamente advogam ao formularem e proporem a terapia social da performance.

Por fim, concluem a introdução caracterizando, sem falsa modéstia, Psicologia Acientífica e seus outros trabalhos publicados como integrantes da tradição revolucionária pós-moderna, da qual se orgulham.



NOTA DE RODAPÉ
Para maiores esclarecimentos à respeito da terapia social da performance sugere-se consultar:

HOLZMAN, L. & MENDEZ, Rafael (2003) Psychological Investigations – a clinical guide to social therapy. New York-Hove: Brunner-Routledge.

JAPIASSU, Ricardo (2010) A terapia social da performance de Fred Newman Metodologia do ensino de teatro/9ª Ed. Campinas: Papirus,Cap.1, p.55-62.


ISABEL (1)

Esmeraldas da
redenção


                                                                                              
                                         Aurum Imperial Regência
                       Isabel Cristina Leopoldina de Bragança - Princesa do Brasil


Ricardo Ottoni


Personagens [por ordem de entrada em cena]

Coro de senhoras negras ex-escravas
Don’Ana Mãe Maior [anciã]
Mãe Pequena
Princesa Isabel
Assessor Chefe do Gabinete Rio Branco
Assessores assistentes do Gabinete [dois]
José do Patrocínio [jornalista abolicionista confidente da Princesa]
Maria Judite [mãe biológica de Dandara, prima de Don’Ana]
Dandara [Princesa de Ruanda escravizada, filha de Maria Judite, sobrinha de Don’Ana]
Zeza [moleque de recados do Barão do Fumo de São Félix]
Antônio Bento [negro rebelado quilombola, pai de aluguel da Fazenda do Barro Vermelho]
Coro de caifazes [negros rebelados liderados por Antônio Bento]
Zumira [amante de Antônio Bento, escrava rebelada da Barro vermelho]
Emissário do Tigre [correio de José do Patrocínio]
Tribalistas Aymoré
Caboclo Manuel Galdino
Pajé Aymoré
Caboclo-Boto
Guerreiro Aymoré
Coro Aymoré
Mensageiro negro recém-liberto
Voz masculina
Grande coro de negras e negros libertos
Bundo [ex-escravo fugido da Barro Vermelho, companheiro de Antonio Bento]
Primeiro militar agitador
Segundo militar agitador
Terceiro militar agitador
Frequentadores da taberna [homens trabalhadores e mulheres desfrutáveis]
Mãe Danda-Lund’Aruanda [Dandara]
Filhos e filhas de santo da casa de Mãe Danda-Lund’Aruanda Pequena [Auxiliar do culto de Mãe Danda-Lund’Aruanda]
Fernando Bento [Filho de Antônio Bento e Dandara]
Cabocla Oyá-Ssi da pena dourada

ISABEL

Informações sobre o próximo texto dramático a elencar a série DRAMATURGIA EM PEDAÇOS

Título da Obra
Esmeraldas da redenção Aurum Imperial Regência  Isabel Cristina Leopoldina de Bragança – Princesa do Brasil
Autor (es)
Ricardo Ottoni
Gênero
Drama solene
Registro SBAT
11618

Núm.  de Páginas
51
Duração Aproximada
53 min
Atos
3
Núm.  de Personagens
33/ Masc. 15 Fem. 18
Núm.  de Atores (*)
15
Núm.  de Cenas
25
Cenário Formalista/ Vários ambientes (5) delimitados por luz e dispositivos cênicos
Texto Original
Título Original Esmeraldas da redenção
Música
Carlos Gomes, Villa-Lobos & Roquete Pinto, percussão mágico-religiosa de umbanda

SINOPSE


O argumento destaca as articulações políticas e os embates ideológicos que conduziram à abolição do escravismo no Brasil sem no entanto prender-se  ao historicismo estéril.  Opta por uma versão ficcional que denuncia e revela o processo de impeachment da Imperial Regência da Princesa Leopoldina ocasionado por fatores econômicos e sociais que foram decisivos para a queda da monarquia no Brasil e banimento da família real do país tendo como consequência a  proclamação da República pelo exército nacional.

Não encenado até a data de registro do texto.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA... (1)

Os autores, honestamente, apresentam-se no prefácio como ativistas pós-modernos, membros de uma comunalidade de práticas desterritorializada e sem fronteiras espaciais, isto é, de um lugar imaterial do qual pessoas podem observar e compreender o fluxo histórico do desenvolvimento humano de modo privilegiado, por interagirem movidas por um processo initerrupto de busca de aperfeiçoamento e aprendizado sóciocultural contínuo, em permanente movimento, sem “muralhas acadêmicas” embora conectadas satisfatoriamente com sólida tradição de pesquisa: a prática do método.

A prática do método por parte da comunalidade práticoativista da qual são portavozes os autores contrapõe-se à ortodoxia paralizante do método da prática. Eles explicam que o método para os ativistas-praticantes não é algo que se aplica a algo, mas uma atividade “para si” - que se distingue da atividade “em si” (no sentido marxiano).

O método, antes de ser concebido como “instrumento para resultado” é vivido como “instrumento e resultado” segundo a tradição práticoativista inaugurada por Lev Vigotskii: “O método é, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto, o instrumento e o resultado do estudo”. [Vigotskii, L. S. (1996) Problemas de método. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, cap. 5, p.86.]

Os práticoativistas da comunalidade em desenvolvimento à qual se vinculam os autores definem-se não tanto como uma universidade sem muralhas [“university without walls”] mas, antes, como  muralhas sem escolarização [“walls without a university”].

Os autores sugerem que nós, leitores, coloquemos "em prática" o livro, na esperança de que seus escritos possam nos auxiliar a compreender mais e melhor a condição humana.

NOTA EM RODAPÉ:
Para maiores esclarecimentos à respeito da prática do método pelos práticoativistas deve-se conferir NEWMAN, F. & HOLZMAN, L. (2002) Praxis – A metodologia instrumento-e-resultado e a psicologia de Vigotskii. Lev Vygotsky cientista revolucionário. São Paulo: Loyola, cap. 3, p.45-69]

SODOMA Cabaré Narguilé [fragmento 9 - último]

Performance de Mazinho Gaúcho em fandango batido com uso de laço,  caracterizado de campeiro gaúcho com poncho que resulta em strip do traje e permanência do daçarino usando apenas botas, lenço no pescoço, chapéu e coquilha vermelha.

Lily Trousse
(Retornando à pista) Um espetáculo de homem, não?! É o chamado bofe-escândalo – por onde passa não tem como não chamar a atenção de qualquer uml... Vamos pegar a pista galera porque o nível de adrenalina subiu! Trio, solta o som!

       

Uma música do trio dos tabaqueiros para o público se divertir e dançar. Mulheres e homens semi-nus dançam sobre dispositivos cênicos animando os presentes. Após a música, foco de luz sobre Lily Trousse em um dispositivo cênico.
       
Lily Trousse
É isso aí... Vamos dançar pra a paz não dançar.

DANÇAR PARA NÃO DANÇAR [1]

Dance, dance, dance
Gaste o tempo comigo
Não, não tenha juízo
Desse ao luxo de estar sendo fútil,
Agora
Dance, dance, dance
Faça como Isadora
que ficou na história
 por dançar como bem quisesse
Um movimento qualquer
Sobe a cabeça e os pés
Sinta o corpo
Você está solto
E o corpo tá a fim
Dance, dance, dance
Passe as horas comigo
Neste duplo sentido
E no barato de ser um ser vivo
Ainda
Dance, dance, dance
Num programa de índio
Vá rodar um cachimbo
Quer pra paz não dançar na tribo
Um movimento qualquer
Sobe a cabeça e os pés
Sinta o corpo
Você está solto
E o corpo tá a fim
De amar
De amar

Dance, dance, dance

Um movimento qualquer
Sobe a cabeça e os pés
Sinta o corpo
Você está solto
E o corpo tá a fim
De amar

E pra a gente se animar ainda mais vou chamar ela, Telma Electra, a stripper encantadora de serpentes, diretamente do Saara... Ela que vai inflar os membros de todos os presentes aqui... e fazer literalmente a cobra subir!  Electra, é com você mulher...

        Performance de Telma Electra sobre um dispositivo cênico usando uma serpente a La Luz Del Fuego.

Lily Trousse
Telma Electra, o enigma do Saara... Gostaram? Querem mais? Então vamos “pegar a pista” animados pelo forró dos tabaqueiros - o trio dos pica-paus! Essa molecada que adora fazer furo em tudo que encontra pela frente

Música do trio forró dos tabaqueiros para o público se divertir e dançar. Mulheres e homens semi-nus voltam a dançar sobre dispositivos cênicos animando os presentes. Após um tempo, foco de luz sobre Lily Trousse em um dispositivo cênico.

Lily Trousse
Agora chegou o momento da apoteose. A performance de Diva dos Peões, a Rainha do Rodeio deste ano. Diva, é com você poderosa!

        Performance de Diva com strip completa. Escuro.

Na zabumba (...) no triângulo (...) e na sanfona (...) Obrigado a todos por terem vindo! Por prestigiarem o que se convencionou chamar de dramaturgia viada... Vocês são todos muito lindos, gente sem preconceito, sem medo de ser feliz, pessoas que sabem o verdadeiro sentido da palavra TOLERÂNCIA. Voltem sempre e tragam os seus queridos... Aqui, todos serão sempre bem-vindos – desde que paguem por isso! (Risos e pausa breve) Na verdade não vamos nos render ao fetichismo mercantilista jamais, ainda que tenhamos nos condenado a nós, por nós mesmos, a viver nestas condições. Somos os responsáveis pelo Estado de coisa... Aqui levantamos o abebé iluminado pelo sol, sem medo de ver nossas mazelas, rugas e cicatrizes, para rir delas... Mas podemos utilizá-lo também como arma de guerra, para incandescer a visão de nossos opositores - que se encontram em nós mesmos. Celebremos a paz! Adeus. Aliás, adeus não, até logo! A gente se vê lá em cima, ou lá em baixo... O que vale é a gente se encontrar de novo! Beijú pra todos! Um brinde da casa... Fui!

        Os cabaretiers distribuem beiju ao público. O trio tabaqueiro segue tocando.

        Escuro súbito. Silêncio. Agradecimentos do elenco em desfile.





[1] LEE, Rita (2001) Dançar para não Dançar In Rita Lee Greatest Hits, CD audio faixa 3.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ A PSICOLOGIA CIENTÍFICA...

 - O rei está nu!



HOLZMAN, Lois & NEWMAN, Fred (1994) Unscientific Psychology – A Cultural-Performatory Approach to Understandig Human Life [Psicologia Acientífica – Uma abordagem performático-cultural para entender a vida humana]. New York, ESI-iUniverse Inc, 230p.

“O que nos faz doentes é como pensamos (no sentido do quê pensamos e, mais importante, sobre aquilo que pensamos e até mesmo se chegamos a pensar), sobretudo COMO (o quê e se) pensamos sobre o pensamento e os processos considerados mentais” (p.174)

[... what makes us sick is how we think (related to complicated ways to what we think and, even more fundamentally, to that we think or whether we think), especially how (that or whether) we think about thinking and other so-called mental processes...]

O polêmico e provocativo livro de autoria dos psicólogos sócioculturalistas do desenvolvimento em referência aqui, os nova iorquinos Fred Newman e Lois Holzman, é um corajoso e ousado empreendimento intelectual que afronta a hipocrisia acadêmica e as crendices relacionadas aos saberes hermeticamente protegidos sob a égide do cientificismo.

O material é bombástico e encontra-se organizado em três partes que contém, cada uma, de dois a quatro capítulos, precedidos de um breve prefácio e uma densa introdução, além de apresentar em apêndice, uma extensa e relevante bibliografia e, ao final, um cuidadoso guia onomástico.

Trata-se de leitura absolutamente indispensável para quem se propõe genuinamente entender e discutir a psicologia a partir da perspectiva teórico-prática de abordagens engajadas no desvelamento dos fundamentos do desenvolvimento histórico-sóciocultural do psiquismo tipicamente humano. Um Sendero luminoso em meio ao eclipse dos modos de ser na contemporaneidade.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

AVISO SOBRE PROGRAMAÇÃO DE RESENHAS 2011 EM OBSERVE

Caso sua expectativa seja encontrar uma “nota de leitura” (resumo) dos livros a serem comentados criticamente em OBSERVE, procure outro endereço virtual. Se está em busca de uma tradução “oficial” (com todos as “aparas ideológicas” de autoridades investidas de poder para fazê-lo) não vale a pena gastar seu tempo aqui.

Talvez alguns trechos dos documentos apresentados possam ser úteis para a atividade de “corte-e-colagem” (Ctrl+X, Ctrl+C )na montagem de seus textos. Mas, observe, não  garantimos que os resultados de seus esforços sejam institucionalmente julgados satisfatórios por parte de seus “orientadores” acadêmicos.

Importante lembrar que não se tem como destinatários oportunistas de plantão ou “estelionatários da produção intelectual” que fazem “seus” os pensamentos de outros nem os ingênuos aspirantes a recompensas acadêmicas com mínimo ou nenhum esforço para esboçar opinião própria - que se julgam “espertos”.

Não existe demérito em fornecer dados fidedignos das fontes usadas na colaboração da sua produção autoral. Este pode ser um bom exercício para o aperfeiçoamento da escrita “acadêmica”.

Também não há preocupação de OBSERVE em atender de modo reificado às normatizações da ABNT nem de outras agências internacionais reguladoras da atividade da escrita (que estão sempre sendo alteradas em razão de interesses comerciais oportunísticos e variam ao sabor dos conselhos editoriais das organizações para as quais os textos venham a ser eventualmente apresentados).

Cuidado.

Para obter a liberdade de formatação do texto é preciso conhecer os conjuntos de regras dos jogos de escrita analógica e de(s)construí-los conscientemente – algo que se obtem a partir do engajamento em processo de formação continuada  na escolarização denominado “iniciação científica”. Mas isso nem sempre é tolerado por todas as organizações.

Importante ainda  ter em mente que existem questões polêmicas relativas à ciberescrita - como a acentuação e ortografia de palavras, pontuação do texto etc  – que não é o caso serem discutidas agora.

Focaliza-se aqui a atividade colaborativa do pensamento pelo “verso e reverso” das palavras, pelo seu “recheio” ou  preenchimento signitivo.

Só aceitamos discutir comentários com aqueles que efetivamente leram as obras aqui resenhadas a partir de trocas de “citações” em socorro aos nossos e seus pontos de vista.

Aos paladinos “sabichões”, defensores do rigor e censores da liberdade de expressão, ávidos por darem “nota” sobre o que não conhecem, não querem conhecer nem deixar conhecer, fazemos nosso o grito do poeta Antunes:

“Não tenho para onde ir e nem que eu tivesse eu me moveria daqui do meio da pista vazia!”

A próxima resenha crítica a ser veiculada em OBSERVE será

UNSCIENTIFIC PSYCHOLOGY A Cultural-Performatory Approach to Understanding Human Life [Psicologia Acientífica – Uma abordagem performático-cultural para o entendimento da vida humana] de Fred Newman e Lois Holzman, publicado em 1996 pelo East Side Institute em parceria com iUniverse, Inc. de New York

O matérial será divulgado em partes e sem preocupação com limites de caracteres, formatação ou laudas.

Aguardem.

Boas Festas!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SODOMA Cabaré Narguilé [fragmento 8]

um cinegrafista entrevista um senhor que teve a residência derrubada pela queda de uma barreira.

Repórter de TV
Estamos aqui onde a força da chuva derrubou uma encosta e destruiu quinze casas. Este é seu Manuel que teve a casa totalmente soterrada pelo deslocamento da terra. E agora seu Manuel?
Manuel Flagelado
(Desesperado) Eu perdi minha casa! Levei trinta anos da vida trabaiando pa construi esta casa apud o meu suó e ai Deus vem e leva ela em um minuto... Pr’onde é qu'eu vô agora? Na’onde q’eu vô bota minha nega véia?  O que é que “cê” de mim? O que é que “cê” de mim? Ô meu Deus! Por que?! Por que?!

Escuro súbito. Música do trio tabaqueiro. Foco sobre outro dispositivo cênico. A biba move-se desnuda escondendo o pênis com uma das mãos. A luz de uma giroflex de carro de polícia incide monótona sobre o espaço cênico. A biba acena desesperadamente para o carro da polícia. Dois policias surgem em atendimento ao seu pedido de socorro.

Primeiro Policial
Parado ai! Mãos para cima!
Segundo Policial
Mãos para cima, não ouviu?!

        A biba coloca as mãos para cima.

Primeiro Policial
Encosta ai.

        Biba tenta dizer alguma coisa.

Segundo Policial
Calado! Encosta logo, vai.
Primeiro Policial
Onde estão os outros?
Biba
Fui assaltado.
Segundo Policial
Onde está o Betinho?
Biba
Não sei quem é Betinho.

        Primeiro Policial dá-lhe um tapa na nuca.

Primeiro Policial
Fala, porra. Onde aquele pombo sujo se meteu?
Biba
Não sei. Eles me assaltaram. Levaram minha roupa. Abusaram de mim. Me obrigaram a fazer sexo com eles.
Segundo Policial
Te comeram, foi?
Biba
(Constrangida) Foi...
Primeiro Policial
Você é a “mulherzinha” do bando, é?
Biba
Eles estavam armados...
Segundo Policial
Que tipo de arma estavam usando?
Biba
Não sei.
Primeiro Policial
Te comeram e o que mais?
Biba
Me obrigaram a fazer sexo oral também...
Segundo Policial
Chupou o cacete deles foi?
Biba
Foi.
Primeiro Policial
Quantos eram?
Biba
Três.
Segundo Policial
Aguentou os três?
Biba
Me obrigaram.
Primeiro Policial
Vira de frente vai. (A biba obedece) Abaixa aí. Chupa meu pau!

        A biba exita.

Segundo Policial
(Dando-lhe um safanão) Vai porra. Faz o que ele tá mandando...
Primeiro Policial
Arrebita o traseiro!

A biba obedece-lhe. Ele dá-lhe palmadas nas nádegas enquanto ela lhe faz felação.

Primeiro Policial
(Para o Segundo Policial) Enfia o cacetete no cuzão deste viado!

        Rock hardcore. Escurecimento lento. Ouve-se um grito lanscinante de dor abafado. Volta luz sobre a pista de dança iluminada. Lily Trousse anuncia próxima atração.

Lily Trousse
Agora, um dos momentos mais esperados da programação. A divina, a maravilhosa (... anuncia o transformista especialmente convidado para performance na casa)

        Performance do transformista convidado. Lily Trousse pede-lhe que faça propaganda dos dias, locais e horários dos seus shows. Escuro. Foco de luz sobre um dispositivo cênico. Nele vê-se o Bardo Abusado declamando para ninguém.

Bardo Abusado
(Com um chapéu vazio à mão pedindo recompensas) Falo em nome dos filhos do verbo invertido. Para vocês. Vocês mesmos, os outros, os filhos do ócio burguês... Contra sua barbárie fajuta produzida no conforto dos seus apartamentos cercados de grades e de câmeras de segurança... Falo em nome dos segregados e sem teto na festa pela invasão do seu imóvel desocupado que não tem outra destinação senão a satisfação do seu desejo insaciável de colecionador de posses! 

        Sobre um outro dispositivo cênico uma equipe de televisão formada por um cinegrafista e um repórter documenta a descoberta de um cadáver de homem desnudo sob o olhar curioso de anônimos.

Repórter de TV
Estamos no beco das ostras mostrando o corpo de um homem de aparentemente 25 anos, completamente desnudo e com sinais de espancamento e violência sexual... A polícia está no local aguardando a chegada da equipe do Instituto Médico Legal e dos peritos para a remoção do corpo. Muitos curiosos no local mas ninguém quer falar sobre o ocorrido. Dizem não ter presenciado nada. Tudo leva a crer tratar-se de mais uma vítima do tráfico de drogas. Estas são imagens da guerra urbana não declarada em nossa cidade... Até onde isso vai nos levar? Eu vi, eu vi senhoras... Jovem, jovem, quem ronca não vê bronca! Eu vi senhores... o corpo de um jovem brutalmente assassinado...

        Pista de dança volta a acender-se. Nela Lily Trousse anuncia nova atração.

Lily Trousse
Agora, com vocês, diretamente da patagônia, o fandango batido do ginete campeiro Beto Gaúcho, esse stripper fenomenal que vai laçar sua admiração e disciplinar o seu desejo... Mazinho Gaúcho!

        Performance de Mazinho Gaúcho em fandango batido com uso de laço,  caracterizado de campeiro gaúcho com poncho que resulta em strip do traje e permanência do daçarino usando apenas botas, lenço no pescoço, chapéu e coquilha vermelha.

domingo, 19 de dezembro de 2010

PREENCHIMENTO SIGNITIVO DO NATAL

A amarga lição que a competitividade nos obriga a aprender é o fracasso de todas as tentativas de concretizar a solidariedade.

A naturalização da agressividade exigida pela monetarização de todas as esferas da vida social na contemporaneidade subjuga nossas preferências estéticas, hábitos cotidianos, práticas sexuais, crenças e moralidades recrudescendo variadas convicções, colaboradas culturalmente, tornando-as verdades absolutas.

Com  este estado de coisas evidencia-se um processo de desempoderamento da convivência pacífica em cada desimportante aspecto das nossas ações - todas convertidas em relações comerciais cujo objetivo é o "lucro" pessoal a baixo "custo".

Deste processo não escapa o Natal - há muito convertido em apoteose do consumo voraz sob o pretexto de "troca" de favores ou presentes.

Mas, assim como dados lançados sobre um tabuleiro não poderão abolir o acaso jamais, brechas por entre as cortinas de luzes piscantes que efeitam o Natal não poderão evitar uma eventual descoberta do que existe por trás do encantamento provocado pela incandescência da decoração natalina - que veste as cidades, as praças de comércio, as vitrines das lojas.


A revelação do que se esconde por trás do fascínio dos brilhos em excesso não se compra nem se vende nem se pode estimar valor finaceiro.

Neste deslocamento do olhar para além das cortinas, renasce a possibilidade da paz entre as pessoas e da colaboração de um mundo melhor para todos - cristãos ou não cristãos.

Que a esperança no renascer eterno da genuína solidariedade entre as pessoas seja conosco hoje e sempre pelos séculos e séculos. Amém.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ESTAMOS DOENTES

Acorrentados a um presente sem futuro, padecemos a tragédia de sermos humanos nos extertores da Modernidade.

Tecemos historicamente um intrincado labirinto por onde nos movemos apressadamente na expectativa de escaparmos de nos mesmos, minotauros...

Uns se rendem as cansaço e assistem outros buscando ingenuamente a saída do confinamento por trilhas que levam a novas trilhas de uma rede interminável de conexões com falsas promessas de satisfação afetiva, material, intelectual; uma teia tenebrosa na qual sentidos são forjados para recobrirmos o que não aceitamos no íntimo: nossa coisificação.

Alguns deparam-se com a constatação diagnóstica do nosso mal-estar permanente resignados; outros optam pela euforia analgésica de qualquer divertimento que nos faça esquecer nossa sofrível existência.

Não há possibilidade de catarse para a doença social humana; só existe cura para enfermidades pontuais ou agudas de infecções oportunísticas.

O riso e o enfado aliviam a dor mas não põem fim ao sofrimento do ser; não há saída do labirinto: ou convive-se inexoravelmente com o mal-estar crônico ou renuncia-se ao milagre volátil da existência carnal tênue.

Eis a sombra do eclipse total da condição humana e seus semblantes.

Aceitemos sem pechincha o preço a pagar por nossas escolhas!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O "conto" do ENEM

O erro de impressão no gabarito do Exame Nacional do Ensino Médio ENEM 2010 repete a tentativa, fadada ao fracasso, das atuais políticas educacionais governamentais no Brasil.

O principal equívoco encontra-se na concepção - míope - do que venha a ser avaliação. Não é adquado usar instrumentos supostamente objetivos para medida do aprendizado HUMANO. O "exame" traduz a crença numa suposta fundamentação científica da psicometria - já exaustivamente revelada por estudos que se contrapõem à perspectiva hegemônica da "Psicologia Científica". Cf. NEWMAN, F. & HOLZMAN, L. Unscientific Psychology.

É inaceitável julgar-se o mérito do aprendiz tendo por base uma "testagem" da sua memória de conteúdos abstratos absolutamente desconectados das práticas e vivência concreta da cultura escolar na qual este se encontra aconchegado e com a qual interage.

O que em verdade está por trás do "golpe" ou "conto" do ENEM é a renúcia das políticas educacionais em favor da mercantilização da Educação - que se torna conivente e ratificadora do um câmbio "congelado" ou indexado para atribuir valor ao produto "conhecimento".

Incapaz de oferecer amplo acesso à Educação Superior Pública, laica e gratuita, o Governo repassa recursos destinados à ampliação da formação acadêmica - um direito de todos! - à inciativa privada de mega empresários especializados na "venda" do conhecimento, como se o conecimento e os saberes pudessem ser comprados em qualquer prateleira do supermercado cultural planetário...

Cursos bem maquidados por mediadas de "qualidade" são oferecidos a qualquer pessoa que possa pagar por eles...

O ENEM é um semblante do que seja genuinamente avaliação educacional e reforça estruturas de gozo submersas pela consciência e às quais as pessoas se apegam por não saberem, não querer saberem e não deixarem outros saberem...

Sinto náusea e ânsia de vômito diante do que se estão fazendo com todos nós... Parem com isso!