sexta-feira, 17 de setembro de 2010

(RE)LEITURAS CÊNICAS IMPROVISACIONAIS DE CONTOS DE FADA - Chapeuzinho Vermelho

Aqui será demonstrada a transição da representação dramática “em si” (faz de conta) à representação dramática “para si” e “para o outro” (jogo teatral).
A partir do recurso à recordação estimulada de interações desenvolvidas entre crianças de 04 a 06 anos desafiadas a “mostrarem” cênicamente fragmentos do clássico conto de fadas CHAPEUZINHO VERMELHO, pretende-se discutir aspectos do processo de desenvolvimento cultural das crianças acompanhadas durante a prática de jogos teatrais em classe multisseriada de uma organização pública paulista destinada à educação infantil. [1]

Do Faz de Conta ao Jogo Teatral       
O jogo teatral refere o “fazer de conta” que é dirigido INTENCIONAL e CONSCIENTEMENTE para observadores não engajados corporalmente na atividade ludodramática: uma modalidade de jogo que revela ações representacionais desenvolvidas deliberadamente para uma “platéia”:
(1) Todo jogo teatral é faz de conta
(2) Nem todo faz de conta é jogo teatral.
A teatralidade de uma ação corporal (verbal ou não verbal) diz da intencionalidade de exibição dessa ação para outros (para possíveis observadores), quer dizer, revela haver vontade CONSCIENTE do sujeito de estabelecer comunicação com uma “platéia”. [2]
Na ontogenia, o faz de conta antecede o jogo teatral. A passagem do faz de conta ao jogo teatral é um processo que se dá ao longo do desenvolvimento cultural do sujeito e deve ser compreendida como “uma transição muito gradativa, que envolve o problema de tornar manifesto o gesto espontâneo e depois levar a criança à decodificação do seu significado, até que ela o utilize conscientemente, para estabelecer o processo de comunicação com a platéia.”  [3]
 (1) o jogo teatral é uma modalidade de prática lúdica que implica um tipo de funcionamento mental mais complexo na perspectiva do desenvolvimento cultural;
(2) o jogo teatral redimensiona significativamente o faz de conta da criança;
(3) o jogo teatral é uma ferramenta poderosa para a ampliação da capacidade estética do pré-escolar;
(4) o jogo teatral é um modo notadamente mais elaborado da expressão ludodramática infantil.

(Re)Leituras cênicas de contos de fada
Será apresentada a transcrição de fragmentos da atividade cênica espontânea das crianças acompanhadas, após a professora ter feito a lEITURA do conto de fadas Chapeuzinho Vermelho. O leitor no entanto deve ter em mente os procedimentos operacionais necessários ao funcionamento do sistema de jogos teatrais ou a “rotina” do trabalho pedagógico com a linguagem teatral.[4]
Logo após a narração do conto a professora propõe ao grupo mostrar parte da história.[5] Será destacada a comunicação “inconsciente” de dados da realidade socioeconômica e cognitiva das crianças observadas.
A parte da história que uma equipe decidiu mostrar é a visita da Chapeuzinho à casa da Vovó. A equipe é composta por Edvana (5 anos/2º estágio) e Marcela (4 anos/1º estágio). Marcela toma, a partir de negociação verbal espontânea com sua parceira, o papel da Vovó e Edvana, o da Chapeuzinho:
Edvana – (Para a platéia) A gente bateu na porta. (Simula bater em uma porta na parede da lateral da área de jogo) Não tem ninguém em casa? Ou a Vovó morreu? Ôxe, cadê a Vovó que não abriu a porta?!  

         Marcela contem o riso, sentada sobre a pilha de colchonetes. Risos na platéia.

Edvana – (Para a platéia) Tá dormindo aqui dentro ou o Lobo comeu ela? Então eu vou chamar minha mãe... (Para Marcela) A Vovó não quer abrir a porta por quê? Ou a porta está trancada? Ou ela tá dormindo? Ôxe... Ou o Lobo comeu? Ou parece... (Para a platéia) Dê’chovê se ela desmaiou?

         Marcela permanece sentada e em silêncio.

Edvana  – (Para Marcela) Vovó! Abre a porta?!
Marcela  – (Impacientemente) Já abri!
Edvana  – Ôxe... A porta tava aberta?! Tá trancada...

         Marcela mostra girar “fisicalizando” uma chave em uma fechadura imaginária na parede lateral da área de jogo.

Marcela – (Para Edvana, mostrando estar aborrecida) Eu abri. Abri!
Edvana  – Vovó, a mamãe tá perguntando se você tem massa pra fazer bolo?
Marcela  – (Rabujenta) Eu não tenho não!
Edvana – Então eu já vou. (Virando o rosto para o lado oposto aquele onde está Marcela, quase gritando) Ô mãe, ela não tem não! (Tomando o papel da mãe embora sem alterações de suas ações corporais) Então vai lá ver se ela tem papel de brigadeiro! (Volta o rosto para Marcela, retomando o papel de Chapeuzinho Vermelho) Cê tem papel de brigadeiro?
Marcela  – (Seca) Não!
Edvana  – Não tem nada aÍ?!

Note-se a maneira áspera e rabujenta da Vovó representada por Marcela ao responder as perguntas da neta; ou ainda as solicitações à Vovó de “massa para bolo” e de “papel” para acondicionar brigadeiros por parte de Edvana-Chapeuzinho.
Pode ser que a experiência pessoal de Marcela com anciãos tenha levado a menina a construir uma representação social de idosos como gente mau humorada e pouco solícita. Já Edvana traz para a área de jogo as frequentes “visitas” entre vizinhos - comuns em comunidades populares - e seus reiterados “pedidos” de “empréstimo” de gêneros alimentícios e objetos de uso doméstico.
Novos jogadores ingressam na área de jogo: Camila (5 anos/3º estágio), Bruna (5 anos/2º estágio), Gilvan (5 anos/2º estágio), Luis Ramon (6 anos/3º estágio), Wellington (6 anos/3º estágio). A equipe decide mostrar a parte da história na qual o Lobo é contido pelo Caçador antes de devorar a protagonista. Camila toma o papel da Chapeuzinho, Bruna o de Vovó, Luis Ramon o de Lobo Mau e Wellington o de Caçador.
Wellington – Aí, toma seu Lobo Mau!

Ramon deixa-se cair ao chão de barriga para cima, com as pernas abertas.

Luis Ramon – (Para a platéia, Camila e Bruna) Aí, primeiro, Chapeuzinho Vermelho pulando! [saindo fora da barriga] (Camila aproxima-se dele e salta sobre Ramon) Agora a Vovó! (Para Bruna) Vai! (Bruna aproxima-se dele e também salta sobre Ramon) Aí, a Chapeuzinho buscou um monte de pedra...

Observa-se que o “dirigismo” das ações na área de jogo por parte de um único sujeito funde-se à “cobrança” pelo fluxo da atividade cênica improvisacional. Diferentemente do que ocorre em geral no início do trabalho com jogos teatrais o jogador que “domina” a narrativa cênica passa a exercer um “dirigismo” de outra espécie na transcrição apresentada. [6]
Se ocorre algum tipo de “domínio” da narrativa cênica por parte de um jogador, não se configura uma tentativa de “modelagem” de “como” atuar dos parceiros. Note-se que Ramon “mistura” a narrativa da ação com a performance “apresentativa” (dramática). Ele não instrui COMO a jogadora que atua o papel da Chapeuzinho deve pular apenas sugere a ordem em que as personagens devem saltar: “Agora a Vovó!”
            Esse “entrar” e “sair” lúdicos na/da representação dramática revela a dinâmica apresentativa épica ou narrativa da atividade cênica dos sujeitos. [7]
O caráter consciente das ações semióticas dos jogadores no manejo da comunicação teatral torna-se muito evidente nesse “atuar”, digamos, “épico” das crianças. A distinção entre os planos da imaginação e da realidade é realçada permitindo ao sujeito avanços significativos na compreensão da natureza convencional e arbitrária da linguagem teatral - e de suas muitas possibilidades estéticas.
O “Vai!” dito durante o jogo indica haver entendimento do tipo de interação cênica proposta: a improvisação. Através desses “comandos” ou “cobranças” os jogadores (1) (re)ativam a atenção dos seus companheiros de equipe no enredo dramático em desenvolvimento e (2) solicitam aos parceiros de jogo um desempenho cênico adequado à natureza improvisacional da atividade teatral em curso.

Semblantes da atividade teatral lúdica na educação infantil
Um importante aspecto da atividade teatral de natureza ludopedagógica é o processo de apropriação do conceito de fisicalização ou fisicisação. [8]
A fisicalização pode ser definida como a capacidade de os jogadores tornarem “visíveis” na área de jogo objetos, ações, lugares e papéis com ou sem o auxílio de “pivôs” (suportes materiais) - vale dizer, recorrendo à sua expressividade corporal. [9]
Fundamental esclarecer que não houve o uso de “pivôs” ou suportes materiais durante a atividade cênica improvisacional das crianças nas transcrições apresentadas. Nem ocorreu “cobrança” pela “manutenção” ao longo da atividade cênica dos objetos, ações, lugares e papéis fisicalizados sem o auxílio de pivôs. [10]
 Do 1º ao 5º ano é desejável descartar o uso de “pivôs” solicitando aos jogadores a manutenção do que é fisicalizado ao longo de sua atividade cênica. Do 6º ano em diante recomenda-se o engajamento do escolar em projetos de encenação.
Embora na educação infantil seja mais adequado investir no oferecimento de “pivôs” (maquiagem, adereços, figurinos, cenários) para uso lúdico por parte da criança, os sujeitos acompanhados demonstraram ser capazes de fisicalizarem papéis, objetos e ações sem uso de recursos materiais extracorporais.

jogo teatral entre crianças sem uso de "pivôs"


Camila, Bruna e Wellington vão até onde estão empilhados os sapatos do grupo.

Luis Ramon  – (Para eles) Tenta trazer uma pedra gigante! (Wellington, Bruna e Camila tentam recolher alguns sapatos) Pronto! (Dando-lhes pressa e fazendo-os abandonar os sapatos) Faz de conta, faz de conta!.

         Bruna e Wellington desistem de usar os sapatos como “pivôs”.[1] Wellington aproxima-se de Ramon mostrando (fisicalizando) carregar uma pedra gigante sobre a cabeça. Em seguida mostra jogar a pedra dentro da barriga do Lobo.

Luis Ramon – (Para Bruna, apressando-a) Anda, tá aberta! [a barriga]

         Bruna aproxima-se de Ramon e, ao chegar perto dele, mostra jogar pedras dentro de sua barriga. Camila encontra-se ocupada em tentar recolher e carregar, a uma só vez, todos os sapatos da turma para usá-los como “pivôs” na representação das “pedras”. Bruna dirige-se até onde ela se encontra.

Bruna  – (Desencorajando-lhe o uso dos sapatos como “pivôs”) Não! É de mentira!

         Camila desiste do uso dos sapatos como “pivôs” para a representação das pedras e aproxima-se de Ramon mostrando carregar pedras. Mostra jogar as pedras dentro de sua barriga.

Luis Ramon  – Aí, a Chapeuzinho costurou! [a barriga do Lobo]

         Camila ajoelha-se ao lado de Ramon e simula costurar-lhe a barriga. Em seguida, Ramon levanta-se e, mostrando não suportar o peso do próprio corpo, desaba em “câmara lenta”, de bruços, sobre o tapete que delimita a área de jogo.

Luis Ramon  – (Ao cair no chão) Pôu!
Wellington, Bruna e Camila  – (Simultaneamente) Acabou!

         Ramon se levanta, vai até o centro do tapete.

Luis Ramon) – Aí, (Para a platéia, mostrando abrir um bloco de anotações) o Lobo Mau abriu um bloquinho [onde estava escrito] ... Fim!

         Risos na platéia.

A atribuição de novos sentidos ao significado cultural original de um objeto por parte da criança (uso de “pivôs”) é uma ocupação que possui importante papel na perspectiva do desenvolvimento cultural. Quando o sujeito confere ao “pivô” um novo significado, subvertendo consequentemente a significação cultural original do objeto, seu pensamento “descola-se” do campo perceptivo concreto e passa a ser guiado, no plano intramental, pelas idéias, ou seja, por sua imaginação criadora.[2]
Vejam como se deu a fisicalização da cesta de doces durante a atividade cênica da segunda equipe formada por Camila (5 anos/3º estágio), Gutierre (4 anos/1º estágio) e Jéssica (6 anos/3º estágio).
Após decidirem em conjunto os papeis que deverão atuar, Jéssica toma o papel da Chapeuzinho, Camila o da Amiguinha da Chapeuzinho e Gutierre o do Lobo:
Jéssica – (De mãos dada a Camila) Ah... Vai ser maravilhoso! Eu tenho que levar umas coisas lá pra Vovó... Enquanto o Lobo Mau não tá aqui, eu vou pelo caminho bem grande!
Camila  – (Soltando-lhe a mão, advertindo-a) Você tem que ir pelo Lago!
Jéssica – Claro, mamãe falou pra mim ter cuidado e eu vou caminhando pelo Lago...
Camila  – (Voltando a dar a mão à Jéssica) Então, vamos!
Jéssica  – (Colocando uma mão na testa) Ái, esqueci da minha cesta!

         Camila solta a mão de Jéssica e dirige-se para a extremidade da área de jogo que faz divisa com a platéia. Mostra (fisicaliza) recolher uma cesta. Retorna em seguida para onde está Jéssica mostrando carregar a cesta. Camila entrega a cesta fisicalizada para Jéssica. As meninas perambulam pela área de jogo.

Jéssica  – (Para Camila e Platéia) Ai: Se perdemos!

A fisicalização é uma atividade muito mais complexa quando dispensa o uso de “pivôs”. Verificou-se que a fisicalização sem uso de “pivôs”, por parte das crianças acompanhadas assemelha-se a uma espécie de “rascunho” dos objetos, ações, lugares e papéis representados por elas.
Essa natureza “elíptica” da fisicalização sem “pivôs” pode indicar a dependência do pensamento infantil à dimensão concreta da realidade observável - e, também, que as praxias do sujeito encontram-se insuficientemente desenvolvidas.
Explico melhor: fisicalizar um objeto sem recorrer ao uso de suportes materiais - e lembrar-se todo o tempo de mantê-lo “visível” durante o jogo - requer uma complexa operação mental que envolve a necessidade de (1) ativação da memória sensorial do objeto e (2) atenção voluntária à convenção teatral de torná-lo “observável” apenas com o corpo durante as imprevisíveis interações cênicas ao longo do jogo.
Isso exige a memória sensorial do objeto e a coordenação das ações físicas do sujeito (atenção voluntária e autocontrole das próprias ações) que ainda não pode ser plenamente alcançado pela criança na educação infantil. [3]
Se para o adulto a fisicalização sem suportes materiais é um instigante desafio - sobretudo quando se leva em consideração os rumos inesperados das interações cênicas numa perspectiva improvisacional - para a criança, então, torna-se uma tarefa de muito mais dificíl execução.
A fisicalização sem “pivôs” não significa apenas ter a posse da representação mental de um objeto ausente. Fisicalizar um objeto requer (re)manejar a sua significação cultural utilizando-a de modo “descolado” do campo perceptivo concreto para a (co)laboração da comunicação teatral.
Fisicalizar uma “cesta” apenas com a expressividade corporal, por exemplo, significa mantê-la “visível” ao longo do jogo. O objeto “cesta”, neste caso, é (co)laborado cênicamente a partir da “substância do espaço” – da atividade física e mental dos jogadores.  Como muito bem explica Spolin[4]:
No teatro de improvisação, por exemplo, onde pouco ou quase nenhum material de cena, figurino ou cenário são usados, o ator aprende que a realidade do palco deve ter espaço, textura, profundidade e substância – isto é, realidade física. É a criação dessa realidade a partir do nada, por assim dizer, que torna possível dar o primeiro passo, em direção àquilo que está mais além. O ator cria a realidade teatral tornando-a física (...) Através de seu equipamento sensorial (físico) deve tornar real para a platéia o que não é real.     

Observe-se que a “cesta” fisicalizada sem o uso de “pivô” possui uma brevíssima existência cênica. A partir do momento em que as meninas começam a perambular pela área de jogo - logo após Jéssica ter recebido a “cesta” de Camila - esse objeto é descartado pelas crianças, “desaparece” e não mais permanece sendo fisicalizado.
Já com a terceira equipe ocorre algo muito curioso: as crianças que buscam usar os sapatos da turma como “pivôs”, para representarem as pedras, são desencorajadas por um companheiro de jogo! Note-se que três jogadores da equipe (Bruna, Camila e Wellington) sentem espontaneamente necessidade de uso dos sapatos como “pivôs” para as pedras. E o próprio Ramon parece admitir inicialmente o uso dos sapatos em lugar das pedras, tanto que ele diz “Tenta trazer uma pedra gigante!”. Ocorre que, diante da “demora” dos companheiros em darem sequência ao jogo ele sugere que os sapatos sejam fisicalizados – quer dizer, existam pelo “fazer de conta”.
Note-se como ocorre a fisicalização das pedras por parte de Bruna. Esta criança aproxima-se de Ramon, sem mostrar carregar pedras, e apenas quando já se encontra muito próxima a ele as pedras surgem “magicamente” em suas mãos.
Mas há ainda as ações de Camila. Esta criança parece estar determinada a recorrer aos sapatos como “pivôs” para a representação das pedras. Vejam que ela, contrariamente a Bruna e Wellington, não atende instantaneamente aos apelos de Ramon para que as pedras sejam feitas da “substância do espaço”. Percebe-se que Camila só desiste do uso dos sapatos a partir da intervenção de Bruna “Não! É de mentira!
Em resumo:
(1) a fisicalização na infância ocorre de modo provisório ou “pré-esquemático” (sem a repetição de esquemas ou formas invariantes do objeto representado);
(2) a fisicalização por parte das crianças acompanhadas apresenta-se como ação cênica efêmera e descartável que possui utilidade teatral circunstancial;
(3) a fisicalização vincula-se às necessidades expressivas momentâneas dos sujeitos no jogo teatral;
(4) a fisicalização reduz-se a gestos econômicos que apenas sugerem a existência cênica do objeto representado.

Últimas considerações
O impacto afetivo na elevação de autoestima com o uso do método ludopedagógico aqui apresentado só é genuíno quando todos podem se revezar na tomada de papéis e na ida à área de jogo. Gostaria de concluir ventrilocando Vigotskii: [5]
Memorizar palavras estranhas como fazem os atores profissionais, palavras que nem sempre correspondem à compreensão e aos sentimentos das crianças, interrompe a criação infantil e converte as crianças em repetidores de frases de outros obrigados pelo roteiro. Por isso se aproximam mais da compreensão infantil as obras compostas pelas próprias crianças ou improvisadas por elas no curso de sua criação. (Destaques em negrito meus).

Por fim, considero oportuno esclarecer que durante a pesquisa diferentes jogos tradicionais infantis adaptados ao sistema de Spolin foram sugeridos aos sujeitos acompanhados. No livro Metodologia do ensino de teatro, por exemplo, o leitor poderá encontrar a descrição detalhada de propostas para a atividade cênica improvisacional emolduradas pelo sistema de jogos teatrais.[6] 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição].
JAPIASSU, Ricardo (2007) A linguagem teatral na escola: docência, pesquisa e prática pedagógica. Campinas: Papirus.
JAPIASSU, Ricardo Ottoni Vaz (2003) Jogos teatrais na pré-escola: o desenvolvimento da capacidade estética na educação infantil. São Paulo: FE-USP [Tese de doutoramento]
JAPIASSU, Ricardo (1999) Ensino do teatro nas séries iniciais da educação básica: a formação de conceitos sociais no jogo teatral. São Paulo: ECA-USP. [Dissertação de mestrado]
KOUDELA, Ingrid D. (1992) Jogos teatrais. São Paulo: Perspectiva.
SPOLIN, Viola (1992) Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva.
VYGOTSKY, L. S. (1994) A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.
VYGOTSKY, L. S. (1982) La imaginación y el arte en la infancia. Madrid: Akal.


[1] Suporte material para a representação ludodramática (por exemplo, um livro utiizado como bandeja).
[2] VYGOTSKY, L. S. (1994) A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, p. 121-137.
[3] Consultar a tese de doutoramento do autor.
[4] SPOLIN, Viola (1992) Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, p. 15-49. (Destaques do autor)

[5] VYGOTSKY, L. S. (1982) La imaginación y el arte en la infancia. Madrid: Akal, p. 87-88. [Tradução livre minha]
[6] JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição]



[1] Pesquisa desenvolvida na EMEI Profª. Jonise Máximo da Fonseca em 2001 na qual se baseou a tese de doutoramento do autor defendida na FE-USP em setembro de 2003. Consultar JAPIASSU, Ricardo Ottoni Vaz (2003) Jogos teatrais na pré-escola: o desenvolvimento da capacidade estética na educação infantil. São Paulo: FE-USP [Tese de doutoramento não publicada]
[2] Consultar JAPIASSU, Ricardo (2007) A linguagem teatral na escola: docência, pesquisa e prática pedagógica. Campinas: Papirus, caps. 2 e 3, pp.19-59.
[3] KOUDELA, Ingrid D. (1992) Jogos teatrais. São Paulo: Perspectiva, p. 45. (Maiúsculas e destaque em negrito meus)
[4] Consultar JAPIASSU, Ricardo (2007) A linguagem teatral na escola: docência, pesquisa e prática pedagógica. Campinas: Papirus, Cap. 4, p. 61-88 e JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição], Cap.2, p. 69-93.
[5] Consultar a descrição de propostas originais que foram adequadas ao trabalho com crianças na educação infantil em JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição]. p. 101, 210 e 213.
[6]  Consultar  JAPIASSU, Ricardo O. V. (2003) Jogos teatrais na pré-escola – o desenvolvimento da capacidade estética na educação infantil. São Paulo: FE-USP, [Tese de doutoramento]
[7] A dinâmica apresentativa épica foi desenvolvida esteticamente por Brecht ao sistematizar as bases cênicas de um teatro dialético, narrativo ou “épico”. Consultar JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição], p. 30-32.
[8] SPOLIN, Viola (1992) Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, p. 340.
[9] JAPIASSU, Ricardo (2010) Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus [8ª Edição], p.73-78.
[10] Consultar JAPIASSU, Ricardo (1999) Ensino do teatro nas séries iniciais da educação básica: a formação de conceitos sociais no jogo teatral. São Paulo: ECA-USP, (Dissertação de mestrado)

domingo, 12 de setembro de 2010

SODOMA Cabaré Narguilé [fragmento 6]

A biba megulha no escuro para realizar felação no rapaz. Escurecimento súbito. Na pista de dança central iluminada por um novo foco Lily Trousse anuncia a próxima atração.

Lily Trousse

(Cantarolando anárquicamente e batendo dois pirulitos um contra o outro, com a trousse sob uma das axilas) Pirulito que bate-bate! Pirulito que já bateu. Quem gosta de mim é ela quem gosta dela sou eu... Uuiiii! Quem quer pirulito? Tem dois: esse grande e esse daqui pequinininho... mas todos dois são doce duro. É... “Hard candy” com certeza. Quem vai querer “rapadura”?! (Como se ouvisse alguém da platéia pedir) Você quer? Ah... O grande?! (Entregando o pirulito grande para alguém) Que gulosa(o)! Cuidado com o “diabete”... E o “diabetizinho” quem vai querer? (Como se ouvisse outra pessoa pedir) Ah, você quer o pirulitinho da tia, é?! Toma nenê... Lambe a “tchutchuquinha” vai... Mostra pra gente como você saboreia um pirulito... Sessão Lambe-lambe é ótimo! Lambe ou não lambe?! Lambeee! (Para a platéia mudando o tom) Com vocês Racha Dura Kebra-Kebra e o grupo Garrafa Quebrada.

Racha Dura Kebra-Kebra e Garrafa Quebrada são conduzidos pela esteira rolante e performam Rehab sobre a pista de dança estática.



REHAB
Tradutor online gratuito



They tried do make me go to rehab I said no no no

Yes I’ve been black but when I come back no no no

I ain’t got the time, and if my daddy thinks I’m fine

They tried to make me go to rehab I won’t go go go



I’d rather be at home wirh Ray

I ain’t got 70 days

“Cause there’s nothing. There’s nothing you can teach me

That I can’t learn from Mr. Hathaway

Didn’t get a lot in class

But I know it don’t come in a shot glass



They tried to make me go to rehab I said no no no

Yes I’ve been black but when I come back no no no

I ain’t got the time and my daddy thinks I’m fine

They tried to make me go to rehab I wonn’t go go go


The man said “Why do you think you’re here?”

I said I got no idea

I’m gonna I’m gonna lose my baby

So I always keep a battle near

He said “I just think you’re depressed”

This me “Yeah, baby, and the rest”


They tried to make me go to rehab I said no no no

Yes I’ve been blind but when I come back no no no

I ain’t got the time and if my daddy thinks I’m fine

They tried to make me go to rehab I won’t go go go


I don’t never want to drink again

I just ohh I just nees a friend

I’m gonna spend ten weeks

Have everyone think I’m on the mend

It’s not just my pride

It’s just till these tears have dried


They tried to make me go to rehab I said no no no

Yes I’ve been black but when I come back no no no

I ain’t got the time and if my daddy thinks I’m fine

They tried to make me go to rehab I won’t go go go


Lily Trousse sobe a pista aplaudindo a performance e entrevista Racha Dura.


Lily Trousse

Racha Dura Kebra-Kebra... Finalmente você decidiu sublimar suas ações baderneiras com Arte!

Racha Dura Kebra-Kebra

É... Depois de tanto protestar acabei sendo “incluída” na festa!

Lily Trousse

Vou confessar uma coisa: se você não tivesse se re-educado eu não permitiria sua entrada no curral porque sua fama de arruaceira pra não pagar a conta é bastante conhecida em todas as casas noturnas...

Racha Dura Kebra-Kebra

Mudei. Mas minha fama de arruaceira ficou como cicatriz...

Lily Trousse

Nada como o poder “domesticador” da Arte

Racha Dura Kebra-Kebra

Aprendi a protestar com Arte. Gostou da dublagem de Rehab da Amy Winehouse?!

Lily Trousse

Muito.

Racha Dura Kebra-Kebra

Eu, como ela, também disse não à tentativa de me trancarem no reformatório...

Lily Trousse

Conta como foi que você descobriu a Amy Whinehouse?

Racha Dura kebra-Kebra

Eu cheguei perto de uma amiga minha que tava no YouTube assistindo um clipe da Amy. Vi e me apaixonei pela figura dela... Daí eu fiquei com a imagem e a música da Amy na cabeça mas não me lembrava o nome dela... E então algum tempo depois perguntei pra minha amiga: “Como é o nome daquela cantora que você tava vendo na internet?” E ela indagou: “Qual?” E eu disse: “Aquela que tinha um cupimzeiro na cabeça!”

Lily Trousse

Cupimzeiro na cabeça é ótimo!

Racha Dura Kebra-Kebra

Gostou do cupimzeiro de hoje?

Lily Trousse

Amei o cupimzeiro azul a La “Margie Simpson”! E os rapazes do Garrafa Quebrada quem são?! Onde você garimpou essa molecada gigante?





Racha Dura Kebra-Kebra

São todos ex-marginais... Tudo pré-sal, titia!

Lily Trousse

Uí! Que medo... (Para a platéia) Cês sabem o que é pré-sal não? É o também chamado bofe Xeque ou bofe Petrobrás, entenderam? Prospecção profunda em busca de “lama”... Adoram extrair petróleo do oco. Se a biba não estiver “preparada” é xeque na certa!

Racha Dura Kebra-Kebra

Fundamental estar “preparada”

Lily Trousse

Vai “preparada”! Vai atender a Petrobras que tem mais gente pra se apresentar na seqüência! (Para a Platéia) Aplausos para a turma pre-sal rehabilitada!


Escurecimento lento. Volta o foco sobre o beco escuro onde agora o rapaz encontra-se praticando sexo anal com a Biba.


Biba

Vai levar a noite inteira?!

Rapaz/Visitante do enfermo

(Sem parar de penetrar-lhe) Tá folgado.. (sôfrego) Seu oco afogou o meu ganso...

Biba

O problema não é o meu oco, o problema é o seu “patinho” que de “ganso” só tem o nome...

Rapaz/Visitante do enfermo

Ah... é?! (Passa a penetrar-lhe com violência crescente)

Biba

Calma! Devagar! Pára! Pára!

Rapaz/Visitante do enfermo

(Imobilizando-o na parede) Agora que tá ficando gostoso?! Vai, arrebita este trazeiro! Não tá aguentando meu “patinho” malvado não, é?!

Biba

Chega, chega! Tira, tira... Finaliza logo, vai!

Rapaz/Visitante do enfermo

(Obrigando-lhe a se curvar sobre o próprio abdômem à força) Vai viado, dá pressão no patinho pra ele nadar gostoso na lama desse seu oco sem dono... Isso! Assim... Tá ficando melado... Assim... (Ejaculando) Ahn... (saca a camisinha e joga ela em cima da biba, fechando a braguilha e retirando-se rapidamente, saciado, levando consigo as roupas da biba)

Biba

Devolve minha roupa!



Escurecimento lento. Música. A biba se refaz do estupro examinando o preservativo cheio de sêmem. Um grupo de rapazes marginais suados apressadamente adentram o beco aparentemente em fuga.



Primeiro Marginal

Ih! Tem frutinha descascada na área...

Segundo Marginal

Que aconteceu?

Biba

Fui assaltado... Levaram minha roupa e meu dinheiro.

Terceiro Marginal

(Tropeçando na camisinha usada e suspendendo-a com o cano de uma arma) E o que é isso aqui, viado?!

Biba

Ele me pegou a força.

Primeiro Marginal

E você não gritou?

Biba

Gritei!

Terceiro Marginal

(Imitando o “coisa” do programa Na Mira) Socorro, meu Deus, eu não quero morrer!

Segundo Marginal

Ninguém ouviu você?

Biba

Não...

Terceiro Marginal

Cê gosta de cacete, é?



Biba não responde. O primeiro marginal saca o pênis e urina.



Segundo Marginal

Gosta de ver homem mijando é?

Primeiro Marginal

(Urinando em cima da biba) Gosta de mijo, é?



Os rapazes gargalham anarquicamente.



Terceiro Marginal

Vai... (Ameaçando-a com um arma em punho) Chupa a piroca dele molhada de mijo!

Segundo Marginal

Arrebita essa bundinha pra eu meter meu cacete nesse seu oco usado...

Terceiro Marginal

(Colocando a mão da biba em seu pênis) Toca uma pra mim... Isso...

Primeiro Marginal

Vamo fazer um revezamento de três e arregaçar seu trazeiro...

Segundo Marginal

(Penetrando-a com violência) Não era isso que você tava procurando, safado?! Agora, agüenta...

Biba

Tá botando sem camisinha?

Segundo Marginal

(Penetrando-a) Tá com medo de quê viado?

Primeiro Marginal

Vamô encher seu oco de HIV!

Terceiro Marginal

Morrer de tiro ou de Aids que diferença faz? O que vc prefere? Que a gente estoure seus miolos ou encha seu oco de gala suja?

Primeiro Marginal

(Para o Segundo Marginal) Agora é a minha vez!

Terceiro Marginal

Uhu! (Para os amigos) É de três! De três! (Para a biba tomando a posição ocupada pelo Primeiro Marginal) Chupa agora o meu, safado!

Segundo Marginal

(Recolhendo o pênis para dentro da calça) Vamo apavorar!

Gritos de zombaria aterrorizante. Escurecimento lento. Música. Lily Trousse sobre o queijão iluminado performa uma nova canção com um vestido negro ao lado dos dois go-go-boys usando coquilhas e botas negras que a acompanham.

sábado, 11 de setembro de 2010

MITOS SOBRE EaD E ACERCA DAS NOVAS TECNOLOGIAS

Palavras-chave:
TECNOLOGIA, MARKETING, MITOS



RESUMO

A influência da informática e dos sistemas tecnológicos digitais de comunicação está provocando mudanças na mentalidade de muita gente que, entorpecida pelos resultados propagandeados por grandes empresas, termina por fazer considerações de ordem quase mágica em torno da tecnologia e seus potenciais. A indústria do marketing fez muito neste sentido, criando e reforçando alguns mitos muito arraigados na sociedade.

NOTA DA TRADUÇÃO
O texto é uma tradução livre de artigo do Prof. Dr. Roberto Aparici, docente titular da Universidade Nacional de Educação à Distância-UNED da Espanha. A apresentação deste senhor, de tão elevada estatura acadêmica, é absolutamente desnecessária no âmbito da educação superior brasileira. Isso em razão de a disseminação de suas idéias, seja no continente europeu ou nas Américas, ter alcançado ampla repercussão, particularmente em nichos universitários de estudos e pesquisas em EaD.


Originalmente publicado sob o título Mitos de la educación a distancia y las nuevas tecnologias, e ainda nos estertores do século passado, o texto permanece contudo extremamente atual. Pode-se inclusive afirmar, sem sombra de dúvida, que este documento converteu-se em referência bibliográfica obrigatória nas dissertações e teses em processo de qualificação e defesa de todos os programas de pós-graduação stricto sensu em Educação nacionais nos quais se busca comprender mais - e melhor - as complexas relações e interrelações entre Educação, Comunicação e Tecnologia na contemporaneidade.

O texto deve ser útil ainda àqueles interessados na problemática educacional na perspectiva emancipadora do fenômeno pedagógico, ou seja, na difusão de um entendimento da Educação que ultrapassa seu aspecto mais pragmático e mercantil ou de apenas "commodity".

Para muitos, o que caracteriza uma tradução "livre" é a falta de rigor quanto ao uso de palavras efetivamente empregadas no texto original por um autor. Mas, ao traduzir-se um enunciado discursivo, de uma língua para outra, não resultaria muito tímido - e simultaneamente arrogante - qualquer empreendimento que pretendesse declarar-se supostamente “fiel” aos vocábulos utilizados originalmente pelo autor ou ainda a um seu “único” e “correto” significado original?

Existem estruturas semânticas enunciativas que alteram drasticamente a argumentação desenvolvida por um autor quando se opta por uma tradução delas, digamos, “palavra por palavra” – observe neste sentido o resultado que se pode conseguir ao serem acionados os agentes artificiais tradutores de texto amplamente disponibilizados na Internet.

Tradutor on-line instantâneo gratuito

A tradução apresentada por mim não renuncia à atividade (re)criadora de sentido por parte do tradutor. Trata-se de dialogar com as idéias defendidas pelo autor do texto, conforme as compreendi, apresentando-as de modo co-autorizado portanto. Qualquer eventual incomprensão durante a exposição do pensamento genuíno do autor deve ser creditada exclusivamente ao tradutor. Recomendo a leitura do texto em espanhol a todos os que não enfrentam qualquer dificuldade para a compreensão da escrita neste idioma.

A presente tradução destina-se atender à demanda de curiosos e interessados na problemática referente ao uso das tecnologias da comunicação e informação na contemporaneidade e seus impactos em nossas vidas.

Para acessar o texto completo nas versões html ou word.doc basta seguir o link abaixo
Biblioteca online sobre EaD da UNICAMP
Boa leitura!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

SODOMA Cabaré Narguilé [fragmento 5]

Lily Trousse


(Cantarola) “Tchau, YOU have to go now, YOU have to go now… Tchau!” Palmas parassimpáticas pra Mona Lisa FastFood! Ai... Zap darling! [Usando a trousse como controle remoto] É ótimo ter a posse do controle remoto, não... Adoro dar um “zapping” rápido... (Para alguns espectadores) Tchau bofe! Zap mona! (Gargalha) Tchau pra você! “Zapping for you”!

Escurecimento rápido. Foco tênue sobre um dispositivo cênico. Nele um rapaz adormecido encontra-se numa cama de hospital com a perna engessada, sem camisa e com lençol sobre o resto do corpo, até o umbigo. Uma senhora lhe faz companhia. Aparece um outro rapaz.

Rapaz/Visitante do enfermo

Como ele está?

Cuidadora do enfermo

Dormiu. (Tempo e silêncio) Fica um pouquinho aqui pra eu ir fazer um lanche?

Rapaz/Visitante do enfermo

Tá!

O visitante abre uma garrafa de água mineral que está sobre a mesa de cabeceira da cama e toma um pouco de água num copo descartável. (Tempo) Percebe que o rapaz enfermo adormecido começa a erguer o pênis sob o lençol. Atraído pela imagem do membro em riste do amigo, aproxima a mão da sua superfície sem tocá-lo. Excitado pela visão do pênis erecto do amigo, olha para o lado por onde saiu a mulher. Em um ato tresloucado, após se conter até o limite, apanha irresistivelmente e com força o membro do rapaz. O foco de luz torna-se intenso instantaneamente como em um susto ao som de um toque instrumental forte, agudo e inesperado. O visitante deixa o ambiente rapidamente e o rapaz levanta o tórax em abdominal, despertando atônito.

Enfermo

(Olhando para direções opostas) Juninho?!

Escurecimento lento do foco ao tempo em que o rapaz volta a recostar-se na cama. Música. Telões exibem imagens de Sigmund Freud.




Um novo foco se acende sobre outro dispositivo cênico no qual está o balcão de um bar americano. O visitante do enfermo adentra o bar e toma seguidas doses de uísque a cowboy. O barman faz malabarismos com garrafas de bebidas alcoólicas e chacoalha um drinque pontuando percussivamente em imagens a cena. Uma biba se aproxima do balcão.

Biba

(P/ o Barman) Uma água mineral

Barman

Comum?

Biba

Do Candeal, lóóógico!

O barman serve a água. A biba sorve todo o conteúdo. Telões exibem imagens do interior de bares gays e hetero e animações psicodélicas. A biba volta-se para o rapaz assediando-o em abordagem “de rotina.” O dipositivo cênico se desloca pelo espaço girando em torno da pista central

Biba

Ôi?!

O rapaz não responde e nem olha pra ela. O barman imprime velocidade à chacoalhada do drinque que prepara, comentando percussivamente a cena.

Biba

(Tomando assento em um banco próximo ao rapaz) Posso?! (O rapaz não responde. Para a plateia, entre os dentes) Quem cala consente... (Para a platéia com desejo incontido) Que pernas grossas... (Para o rapaz) Jogador de futebol?

Comentário percurssivos do Barman. O rapaz permanece em silêncio.

Biba

(Insistindo) Já experimentou água mineral do candeal? (O rapaz permanece calado) É uma água “batizada”... com aquele pozinho branco... Experimenta...

O rapaz pede com gestos a água ao barman. O barman o serve. O rapaz toma todo o conteúdo da garrafa em um só trago e deixa o balcão. A biba o segue efetuando um comentário crítico cúmplice para o público em forma de beijo sugando as faces. O Barman recolhe os copos. Escuro.

Volta o foco sobre a cama onde está o enfermo que agora se masturba sob o cobertor ao som da mesma sequencia sonora que anima o bar americano até atingir o orgasmo. Telões voltam a exibir imagens de Sigmund Freud mixadas com jatos de gêiser e estouro de fogos de artifício. O foco sobre a cama volta a escurecer à medida em que o enfermo relaxa após gozar. Luz acende-se sobre outro dispositivo cênico no qual encontra-se o rapaz/visitante do enfermo urinando em um beco escuro, iluminado tenuamente só até a cintura. A biba entra e se posiciona a seu lado.


Rapaz/Visitante do enfermo

(Sacodindo a urina do pênis) Quer pegar?

A biba exita.

Rapaz/Visitante do enfermo

Vai, pode pegar...

A biba o toca.

Rapaz/Visitante do enfermo

Cê gosta né? Põe na boca, safado!

A biba megulha no escuro para realizar felação no rapaz. Escurecimento súbito. Na pista de dança central iluminada por um novo foco Lily Trousse anuncia a próxima atração.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Eisenstein e a Psicologia da Arte

RESENHA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

CABRAL, Marcelo Grimm. Eisenstein e a Psicologia da Arte. (2008). 205 páginas. Dissertação de Mestrado - Centro de Filosofia e Ciências Humanas/Programa de Pós-Graduação em Psicologia; orientadora Profª Drª Andrea Vieira Zanella. UFSC, Florianópolis, 2008.




SINTAXE E SEMÂNTICA DAS LINGUAGENS AUDIOVISUAL E CÊNICA NA PERSPECTIVA DE UMA TEORIA PSICOLÓGICA HISTÓRICO-SOCIOCULTURAL DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA

A concretização dos esforços acadêmicos de Marcelo Grimm Cabral o conduziram à obtenção do grau de mestre no Programa de Pós-Graduação em Psicologia oferecido pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina com a dissertação intitulada Eisenstein e a Psicolgia da Arte que, merecidamente, deve ser levada ao conhecimento de todos os programas de pós-graduação em Artes Cênicas no Brasil particularmente ao PPGT do CEART da UDESC.


O excelente relatório da pesquisa desenvolvida por Marcelo sob orientação da Profª Drª Andrea Vieira Zanella encontra-se organizado em basicamente três capítulos, ricamente ilustrados, que discutem com rara elegância e notório rigor acadêmico as aproximações entre o pensamento estético de Eisenstein e a concepção vigotskiana da atividade mental ou do psiquismo tipicamente humano na perspectiva da teoria histórico-sociocultural - que foi metaforizada genialmente pelo renomado psicólogo judeu bielo-russo como “reação estética” - exposta em seu polêmico e ainda insuficientemente estudado Psicologia da Arte.

A partir de um resgate histórico das práticas cênicas na Rússia pré e pós-revolucionária a dissertação focaliza de modo privilegiado o engajamento de Serguei Mikhailovich Eisenstein nas experimentações estéticas para a consolidação de um teatro excêntrico. O teatro excêntrico, sabe-se, foi fortemente influenciado pelos princípios biomecânicos da atuação teatral formulados por Meyerhold-Pavlov. Apoiando-se nos estudos de John Kuiper sobre o polêmico intelectual e criador cinematográfico russo Marcelo revela-nos que: “o período do ator excêntrico na Rússia corresponde ao período em que Eisenstein trabalhou no teatro.” (p.57)

A apresentação e o primeiro capítulo da tese consignado Sergei Eisenstein: introduzindo a trajetória de um modernista deve ser leitura indispensável para todos os interessados na história das práticas cênicas de vanguarda do início do século passado e demonstra o cuidado do autor em situar o pensamento de Eisentein na fronteira entre as especificidades das convenções teatrais e audiovisuais no âmbito das implicações políticas, pedagógicas e estéticas de uma teoria psicológica da atividade criadora. Mais do que uma “contextualização” cronotópica do ativismo de Eisenstein o capítulo prepara o leitor para compreender os fundamentos de uma psicologia da atuação teatral na perspectiva da teoria histórico-sociocultural e dos pontos de conexão entre os interesses de Eisenstein e Vigotskii na elucidação dos fundamentos psicológicos da apreciação e da criação artísticas cênica e audiovisual a partir da “psicofisiologia” do ator que serve de sustentação aos sistemas ou “métodos” de interpretação de Stanislavski, Meyerhold-Pavlov.

A dissertação, como o próprio autor adverte, não se propoe “estabelecer uma relação teórica linear entre os dois autores [Eisenstein e Vigotskii], mostrando de que forma se influenciaram, tampouco investigar historiograficamente (...) influências recíprocas” mas é sem dúvida uma relevante contribuição para o entendimento da “confluência entre textos e linguagens artísticas como a literatura, o teatro e o cinema.” (p.13)

O terceiro capítulo intitulado A arte na psicologia e a psicologia na arte: as dimensões estéticas das relações entre forma e conteúdo como problemática psicológica pareceu-me o mais instigante por sinalizar a importância de uma compreensão da sintaxe e semântica das linguagens cênica e audiovisual na perspectiva da teoria histórico-sociocultual do psiquismo. Contata-se ali esforços do acadêmico para uma discussão aprofundada dos fundamentos psicológicos da atividade criadora artística revelando um cuidadoso estudo do texto Psicologia da Arte de Vigotskii e a conexão de suas idéias com a formulação do que Eisenstein denominou “proto-linguagem” ou “monólogo interior” [modalidade híbrida de pensamento verbal e icônico não oralizado] como “matéria prima” da criação cinematográfica.

Embora o texto busque “(re)construir, sob uma perspectiva crítica, um diálogo entre as ideias de Vigotski e o cinema e as teorias cinematográficas de Eisenstein.” (p.13) os argumentos de Marcelo poderiam ir além dos saberes já consolidados sobre o Psicologia da Arte de Liev Semionovich Vigotskii dando voz a este autor quando buscou esclarecer o genuíno objetivo deste estudo:

"Tentei introduzir a aplicação deste método pessoalmente na psicologia consciente [Psicologia das Artes], buscando deduzir as leis da psicologia da arte mediante a análise de uma fábula, um romance e uma tragédia (...) Não estudei as fábulas nem as tragédias e menos ainda uma dada fábula ou uma dada tragédia. Estudei nelas o que constitui a base de toda a arte: a natureza e o mecanismo da reação estética (...) não digo nada sobre a fábula enquanto tal. E o próprio subtítulo: “Análise da reação estética” indica que a finalidade da investigação não consiste na exposição sistemática da doutrina psicológica da arte em todo seu volume e amplitude (...) mas na análise dos processos em sua essência (...) sua importância vai além do que inclui seu campo de observação (...) os princípios que explicam a arte nos falam de uma reação que de fato nunca ocorreu de forma pura, que sempre se produziu com seu “coeficiente de especificação” (...) a reação estética é assim; mas uma outra coisa é encontrar os limites e o significado da própria reação estética dentro da arte"

Cf. VIGOTSKII, L. S. (1996) O Significado histórico da crise da psicologia – uma investigação metodológica (pp. 203-417) In Teoria e Método em Psicologia. São Paulo: Martins Fontes. (pp. 371-372)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SODOMA Cabaré Narguilé [fragmento 4]

Primeira Palhaça
Raramente um pensador vem até Sodoma... O mais importante é estar de acordo com o que acontece aqui...

Segunda Palhaça
Muitos dizem sim, sem estar de acordo

Terceira Palhaça
O que importa é estar aqui!



Escurecimento súbito e foco móvel sobre Lily acompanhando-a em seu deslocamento.



Lily Trousse
Com vocês, nossa segunda atração: em performance exclusiva do cabaré narguillé Sodoma, ela, a “hormonizada” Mona Lisa Fastfood interpretando a poderosa Lisa Minnelli.



Lily Hostess afasta-se. Música “The Money tree” pelo trio tabaqueiro. Mona Lisa FastFood é conduzida à pista de dança iluminada por uma esteira rolante. A pista de dança é um palco aberto de 360º giratório que se move no sentido horário ou anti-horário durante as atuações, como um carrossel. Performance de Mona Lisa FastFood.


THE MONEY TREE



The day will come
He'll come running to me
The day the sun turns black
And there's a money tree

The day will come
He'll be changing his tune
When there's a granite lake
And a cotton moon

And I listen
To all of his
Sorryful please
And I'll forgive him
And life will be cool as a breeze

When the rain falls up!



The day will come
He'll come back to my arms
And the slate is clean
When the snow is green
And we'll share a love
Idealic, and final, and free
Yeah the time will come

When he'll never stray
On a never gone
Of a never day
When the green dollar fits
On the silver money tree

That old money tree
Oh, yeah!

A granite lake
And a cotton moon
And he'll tremble, and stammer
And say he was wrong
And together is how we will always belong

When the earth stands still

The day will come
He'll come back to my arms
And forget the past
When a snail runs after (Sharili)*

Idealic, and final, and free
Yeah, the time will come

When he'll never stray
On the never gone
Of the never day
When we all take turns
On the silver money tree

He'll come back to me



Aplausos puxados por Lily que retorna à pista após a parada do “giro” em carrossel ao fim da performance de Mona Lisa FastFood.





Lily Trousse

Mona Lisa, você arrasou na dublagem!

Mona Lisa FastFood

Obrigada.

Lily Trousse

Explique ao público a origem do seu nome artístico...

Mona Lisa FastFood

É que eu só dublava Lisa. Lisa Minnelli... Mas Lisa em português se pronuncia lisa...



A pista volta a girar lentamente desta vez no sentido anti-horário.



Mona Lisa FasFood

Já o Mona é de Monalisa, um nome muito antigo, da época dos navios movidos à vela... Uma homenagem a famosa tela daquele pintor italiano... Leonardo Di Caprio...

Lily Trousse

(Tosse exageradamente como se estivesse engasgada) Di Caprio?! Tem certeza?

Mona Lisa FastFood

N’é aquele pintor loiro, lindo e gostoso que tava de penetra no Titanic?

Lily Trousse

A “maluca” lhe pegou, é?

Mona Lisa FastFood

É qu’eu fiquei emocionada... confundi... é... Leonardo (Rapidamente para ocultar seu desconhecimento) Daviiin...

Lily Trousse

O que?

Mona Lisa FastFood

(Bem rápido para disfarçar a má pronuncia) Daviin...

Lily Trousse

Repete que eu não escutei direito...

Mona Lisa FastFood

Dá Vinte! Leonardo Da Vinte... (Para a platéia) “Ela” pagava muito pouco pelo programa, não? Só dava vinte – michê barato!?

Lily Trousse

(Fingindo constrangimento) É uma palhaça! Vc deveria fazer parte da troupe GayClowns... Deixa que eu falo a origem do FastFood...

Mona Lisa FastFood

Não, Lily. Não!

Lily Trousse

Bobagem! Não renegue seu passado, bicha... (Para o público) É que ela só andava “laisa” quer dizer, lisa. Pedindo “aqué” a um e a outro pra fazer um lanchinho básico... porque a grana era curta, e só dava pra fastfood né fofa?! Daí as “lacraia” começaram a chamá-la de Mona Lisa FastFood porque ela usava um perucão preto de cabelo sintético liso nas dublagens que fazia em troca de um lanche rápido!

Mona Lisa FastFood

Bulling de bicha é sinistro... Fica na gente que nem tatuagem!

Lily Trousse

Mas hoje você tem condições de degustar uma boa picanha, não é, “hormonizada”?

Mona Lisa FastFood

Lógico, tia... (Chamando atenção para a carteira de mão da Lily) Lily, que trousse Chi-qué-rri-ma!

Lily Trousse

Chique, não, “deslumbrada”: elegante! Como já disse a finada Clô, chique não é nada! Ou você é do grupo das que acham que “chique” é um país fodido e mal pago, com incontáveis miseráveis, emprestar dinheiro ao FMI? Sessão quis: (Para alguém na platéia) Você acha chique o Brasil emprestar dinheiro ao FMI? Vou perguntar de novo: Você acha chique lançar aos cães a comida dos filhos?

Mona Lisa FastFood

A senhora já está de saída?! Ô?! De trousse na mão? Mal começou o show e me deixa no palco aqui sozinha totalmente desamparada...

Lily Trousse

Bicha?! Fazendo-se de descompreendida? Você sabe que não é a toa que me chamam de Lily Trousse. (Para a platéia) É que eu sempre fui uma “mona de ekê” - uma turbinada a espuma - muito preparada... De repente, surge uma necessidade... Vaí q’eu tenha que dar uma carteirada na cara de alguma doida desconectada ou de uma “barbie” problemática?! Anh?! Ou dar um tapinha pra despertar a “cobra” adormecida no “pacote” de algum bofe, hem?! É... Aquelas coisas... Inspeção surpresa de bagagem... Um kibe-susto rápido! Kibe-susto é ótimo, não?! O velho truque da mão boba... Vai que a “mala” do moleque está estufada também no “truque”, cheia de papel?! Ou de espuma?! Bofe tem arte, doida... Não é só bicha que usa papel e espuma pra fazer volume não... (Para algum homem na platéia) Você, fica de pé, vem aqui, responde pra mim, como é seu nome? Quantos anos? De onde você é? Qual o seu signo? Já lhe deram o truque da mão boba? (Dando-lhe um kibe-susto com a trousse) Aí, que susto! (Comentando o resultado da “inspeção” surpresa para a platéia) Não é espuma não! O pacotão dele está [ou não está, conforme a reação do sujeito] acostumado a ser abordado, não é! [ou “É truque... Pra disfarçar a rolinha assustada, né, fofo?”] Obrigado querido. Pode voltar ao seu lugar... Mas, mudando de assunto (para Mona Lisa FastFood) você sabe “naturalmente” qual é a diferença entre uma “barbie” e uma “suzy”?

Mona Lisa FastFood

Uma é original e a outra do Paraguai...

Lily Trousse

Mas isso pode confundir as “noviças no vício”. Sessão Pedagogia de novo: é melhor dizer que as “barbie” vivem no mundo da fantasia – do sexo idealizado exclusivamente entre machos e que odeiam as “bibas”, como você e eu, que tomamos por modelo o feminino. As barbies são as popularmente denominadas “bofecas” – bofonecas. Bonecas disfarçadas de bofe... o visual é de bofe, mas a personagem atuada por elas definitivamente não vai para cama com bibas. Por que? Cala-te boca! Sem comentários... Já as “suzy” são machos genéricos que não possuem qualquer constrangimento para “fazer”, são aqueles machos que não dispensam nada... Melancia, caule de bananeira, cabra, jega... Se enfiam em qualquer buraco... São criaturas que vivem sua virilidade em termos absolutos. Possuem tesão “pagódica”... São os “faz-tudo”... O prazer pelo prazer justifica tudo que venham a fazer! Ou quase tudo... Tenho em mente o prazer de ter grana no bolso, naturalmente... As suzies adoram um cu-hall, no sentido “brasilês” do termo... Sodomitas desavergonhados... (Para alguem da platéia) Você conhece alguma bofeca? Não precisa dizer o nome do santo, basta anunciar o milagre, conhece? (Interage em função da resposta obtida) Tão vendo? [Elegendo um homem da platéia para ser avaliado] Este aqui? É bofeca? (Comentando uma possível resposta da platéia) Homem tem faro apurado, conhece viado pelo cheiro... (Para a platéia) Ele tem cara de quem gosta de um bom pagode, não tem?!

Mona Lisa FastFood

Adoro minha Titia poderosa! (Cantarola parodiando O que é que a baiana tem? de Caymmi) O que’é’que a trousse da tia tem?

Lily Trousse

Tem cash e maquiagem tem!

Mona Lisa FastFood

E perfume e pancake tem?!

Lily Trousse

Hum... Espelhinho e pó também!

Mona Lisa FastFood

(Aspirando forte a trousse de Lily) Me dá?! Ah... Tia, eu quero uma suzy só pra mim...

Lily Trousse

(Dando um tapinha com a carteira nas nádegas de Mona Lisa) Tenha modos, “deslumbrada”! Aprenda a se contentar apenas a ver com os olhos... Tudo que acha bonito tem que pegar é?! Vá pegar na “ditadura” de um careca “parasimpático” pra vê o que acontece?!

Mona Lisa Fasfood

Jesus, me poupe?! Me chicoteio toda em penitência!



O celular da Lily soa escandaloso dentro da trousse. Ela abre o carteirão e atende retirando um dos brincos de strass gigantescos da orelha.



Lily Trousse

Oi. Fala. Quê? Pra explicar a diferença entre o simpático e o parassimpático? Tá, tá bom. (Recolhendo o celular e colocando-o de volta na carteira) Vou pedir aos meus cabaretiers assistentes pra demonstrarem na prática a diferença... (Para os cabaretiers assistentes) João, Maria, o cumprimento “simpático”!



Cabaretiers demonstram se cumprimentarem “simpaticamente” com um selinho.



Lily Trousse

Agora o cumprimento “parassimpático”!



Cabaretiers demonstram o cumprimento “parasimpático” revelando beijarem-se afetadamente na face a distância e, em seguida, com os maneirismos do machismo chauvinista skinhead.



Lily Trousse

(Para a platéia) Cu(i)dado... Cu(i)dado não se cunfundam! (Para Mona Lisa FastFood) Desperta viado! Vai, vai logo tomar a água mineral batizada do candeal, vai... tem mais gente pra se apresentar na sequência... Faz um “ossé” na maquiagem, que ela tá toda borrada (Entre os dentes a parte durante a saída de Mona Lisa ) Volta pra praia oferenda!



Mona Lisa FastFood detém a marcha e vira-se para lhe dar resposta mas a esteira rolante a conduz para fora de cena abruptamente, desequilibrando-a. Lily Trousse alto e bom som sem lhe dar tempo de retrucar abre um sorriso “social” exageradamente parassimpático.



Lily Trousse

(Cantarola) “Tchau, YOU have to go now, YOU have to go now… Tchau!” Palmas parassimpáticas pra Mona Lisa FastFood! Ai... Zap darling! [Usando a trousse como controle remoto] É ótimo ter a posse do controle remoto, não... Adoro dar um “zapping” rápido... (Para alguns espectadores) Tchau bofe! Zap mona! (Gargalha) Tchau pra você! “Zapping for you”!

Comentário acerca da entrevista de Gilles Lipovetsky à Fiosofia, Ciencia e Vida

O que mais chama atenção na provocação de Giles Lipovetsky é sua tentativa de denegar a pós-modernidade, propondo a denominação de “hipermodernidade” às circunstâncias sociohistóricas e culturais que modelam a atividade humana na contemporaneidade, ou seja, as bases da surpreendente organização das forças produtivas no capitalismo tardio - a transnacionalização e volatização do Capital.





Pareceu-me uma tentativa “idealista” desesperada de afirmação de um discurso que tenta subrepticiamente mascarar as bases materialistas histórico-dialéticas da vida humana sobre as quais se assenta o conceito de pós-modernidade.

Os extertores da modernidade não conseguirão deter a falência da crença na Ciência como possibilidade de melhoria das condições materiais, físicas e afetivas da existência dos seres humanos. Nem da Filosofia como sistema explicativo de verdades absolutas; nem da ingênua “crença” nos poderes formativos das tecnologias da informação e comunicação e da escolarização.

Chega a ser cínica sua afirmação de que “cada vez mais por meio do ‘hiperconsumismo’ cada indivíduo pode construir sua vida de uma maneira mais autônoma e livre, porque se é menos tributário do ponto de vista coletivo.”

Ora, sabe-se que o “hiperconsumismo” é um semblante da liberdade e a suposta “autonomia” garantida pelo consumo desenfreado - oportunizado pelo poder de “compra” de muitos - antes revela o aprisionamento das pessoas a cadeias de significações às quais aderem sem saber, sem querer saber e sem deixar chance alguma para outros saberem: um triste processo de coisificação a que somos todos submetidos com o recrudescimento do mercantilismo extendido a totalidade dos aspectos da vida social.

Resgatar os mitos da Filosofia é indecente e inaceitável da perspectiva pós-moderna.